Ganhando asas de papagaio // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

_DSC8809.jpg

Se antes já nos havíamos ocupado do fruto do cacau, na presente alvorada fomos presenteados com uma tentação. Na costa norte da ilha de Príncipe, esta assume o nome de Bom Bom Island Resort. Integrado em plena floresta tropical, entre colinas e praias paradisíacas, numa área designada pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera, este projeto celebra o equilíbrio entre a presença humana e o meio natural. A par de investimentos financeiros e de formação profissional na área do turismo sustentável, em particular na gestão e utilização da água, energia e resíduos, este promove também atividades como trilhos pedestres, excursões para a observação de aves e baleias, bem como passeios de canoa com pescadores locais. Aqui o tempo é dedicado ao inalienável direito ao prazer, ou não fosse fácil encantarmo-nos com o seu firmamento, assim como com as suas profundezas, onde a prática de snorkelling torna-se obrigatória para a descoberta ora de peixes exóticos, ora para a contemplação daquele colossal manto azul. Desejo de felicidade absoluta, versada em planos de liberdade sem freios, foi por nós ali cobiçada, à semelhança de Ícaro, que, imprudentemente, voou alto de mais e ao quase tocar o sol perdeu as suas asas de penas e cera. Liberdade, coisa traiçoeira e impiedosa, esta!

_DSC8601 _DSC8669

_DSC9469.jpg

Mas como diria Santo Agostinho, “Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência”, pelo que, celebrada a natureza, rumamos à cultura local, cumprindo com a Rota dos 4 Sabores, que incluiu a visita à Roça Paciência, onde produtos como o café, o cacau, a pimenta e a baunilha são dignificados. Perto das roças Belo Monte e Praia Inhame e outrora propriedade do Dr. Cupertino d’Andrade, hoje é um projeto de turismo integrado na agricultura, sujeita a um notável trabalho de restauro, funcionando como ainda escola de pedreiros. Um laboratório vivo de investigação e transformação de matérias-primas, representativas do universo de paladares e aromas da terra. Ainda, neste local de traça humilde e despojada, é impossível resistir à sua variedade de produtos de fabrico artesanal, desde as deliciosas compotas de cajá manga, sape sape, maracujá e ananás e creme de cacau, à maravilhosa mistura de muesli tropical.

_DSC9183 _DSC9250_DSC9197_DSC9275 _DSC9220.jpg

E porque nem só de alimento vive o Homem, conseguimos umas motas e acompanhados de Yorick, aceleramos até à Roça Trindade e desta seguimos até ao trilho do emblemático Pico do Papagaio, o mais concorrido pelos amantes de trekking por ser o que mais perto fica da cidade de Santo António e por se conseguir concluir no espaço de apenas meio-dia. Conquanto, foi ainda feita uma breve paragem, a fim de encontrar bom vinho de palma. Ou não fosse inevitável naquela ilha cruzarmo-nos com vinhateiros a cumprimentar-nos do cimo das palmeiras. Estes sobem a estas plantas, usando uns arames grossos que dão a volta ao tronco e prendem nos pés, para martelar a base das folhas, e lá espetar um garrafão que se encherá lentamente durante a noite. Depois basta esvaziá-lo para outro maior, filtrar a mistela com um funil e deixar fermentar um pouco. E eis que surge o vinho de palma, uma bebida muitíssimo apreciada, ou não fosse vendida pela módica quantia de 5000 dobras (o que dará talvez uns 0,20€?!) por caneca. De cor leitosa, embora o sabor seja estranho, não é nada mau, como que se de fruta se tratasse, mas menos doce, e a quantidade de álcool é fraquinha.

_DSC9147 _DSC9150_DSC9153

Desvios feitos, avançamos, finalmente, para o Pico do Papagaio, a 680 metros de altitude, circundado pelo Parque Natural de Obô. Em amena cavaqueira, onde já se faziam planos notívagos de um jantarito na Rosita (Associação Cultural e Recreativa Rosa Pão) e uns copos no Mira Rio, tivemos o privilégio de observar macacos, pássaros endémicos e diversas plantas medicinais, sempre na expetativa de chegar ao cume e do seu alto ver a cidade mais pequena do mundo…

_DSC9816_DSC9817

_DSC9821_DSC9833

Entretanto, as palavras sumiram-se. Que me restou? Uma dança de vitória! “I take it in, but don’t look down…/Cause I’m on top of the world, hey/ I’m on top of the world, hey” (On Top Of The World, Imagine Dragons).

 

in Revista Açores, 16 a 22 de julho

vi_33_ra

Pedacinhos de terra rodeados de chocolate // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

_DSC8307

O dia amanheceu com chuva, apesar do calor e da opressiva humidade que se fazia sentia na chamada “jóia da coroa”. Enquanto esperávamos por Micky víamos miúdos a percorrer a cidade de Santo António à procura de garrafas de plástico. Curiosos com a situação, perguntamos o motivo de tal frenética caçada. Um dos gaiatos acabou por nos mostrar um panfleto com o mote “Plástico não. Um pequeno gesto está na nossa mão”. Tratava-se de uma campanha que pretende envolver a população na recolha do plástico, onde 50 garrafas podem ser trocadas por uma “Garrafa Biosfera Príncipe”. Esta última é reutilizável, em aço inoxidável e feita com materiais seguros e livres de plásticos, podendo ser reabastecida nos diferentes postos de água tratada e pura, instalados em toda a Ilha do Príncipe (classificada, desde 2012, como Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO). Tratando-se de uma razão de tal ordem nobre, juntamo-nos e colaboramos nesta recolha pelo ambiente.

_DSC8328

Volvido quase um par de horas, chegou o sereno e imperturbável Micky. De imediato, questionámos sobre se algo de errado ou grave haveria sucedido, até que ao nosso ar sério e grave, deu lugar um sorriso atrapalhado, quando ouvimos a nativa resposta de “móli móli”. Nisto percebemos que, mais do que uma expressão, esta simboliza a conjugação do verbo ser com o modo de vida santomense. Desconcertados com tal circunstância – ou não significasse aquela subtil chamada de atenção, uma urgente necessidade de desacelerar –, seguimos até à Roça Terreiro Velho, local pioneiro da cultura do cacau, debaixo de uma chuva fininha. Conta a história que esta planta do Brasil chegou à Ilha do Príncipe nas primeiras décadas do século XIX, inicialmente para fins ornamentais. Todavia, a cultura prosperou e o país tornou-se no maior produtor de cacau a nível mundial, tendo sido, mais tarde, disseminada para a Nigéria e Gana. De alguns anos a esta parte, esta roça é explorada por Claudio Corallo, um italiano que ousou revitalizar e aprimorar esta cultura, ou não fosse o cacau um dos alimentos sagrados para os Aztecas e para os Maias. Além do Terreiro Velho, Corallo tem ainda a plantação de Nova Moca, uma ex-dependência de Monte Café, na ilha de São Tomé. Nesta desenvolveu a cultura de café, sendo algumas das suas variedades das mais raras e requintadas do mundo, à semelhança do chocolate.

_DSC8406_DSC8351  _DSC8348

Após uma lição pelo Micky sobre o cativante fruto do cacau, enquadrada numa paisagem absolutamente incólume, na qual sobressaia o pequeno ilhéu de Boné de Jóquei, tornar-se-ia inevitável, no nosso regresso a São Tomé, fazer uma visita à fábrica deste produtor. Naquele laboratório quase comestível, Corallo oferece-nos uma magnífica degustação de vários tipos de chocolate, e na qual eu tive a felicidade de encontrar o meu eleito: o de sal e pimenta. Ou não reverenciasse eu a combinação daquele sorvo inicial de salgado, que me recorda a minha tão saudosa terra-mãe de nome Aveiro, à beira ria e mar com as suas pirâmides de luz e sal; assim como me empurra (a pique) para a mordacidade, a vertigem e a ironia da vida. No meu mundo de fantasia, imagino Cláudio Corallo como uma espécie de Willy Wonka dos tempos modernos, realidade que me remete inequivocamente para o livro “Charlie e a Fábrica de Chocolate”, de Roald Dahl, que já mereceu duas adaptações para o cinema. É nesta simbiose entre memórias, afetos e duelos internos e externos, que recordo diálogos como “Afinal, onde está o sentimento no coração ou na cabeça?”

_DSC8445  _DSC8474

Ainda nessa manhã o sol começou a espreitar entre as nuvens, e com ele veio uma incomensurável vontade de submergir no oceano. Às vezes, quase que me sentia uma tartaruga, tal o inesperado gosto pela água. Começamos por sondar a Praia Évora, mas acabámos por desfrutar do sol e do mar, assim como de uma bela grelhada de peixe, acompanhada de arroz e banana pála pála, na Praia de Ponta Mina. Mais do que um almoço convívio, um enaltecimento à oralidade das histórias.

_DSC8564

_DSC8594

in Revista Açores, 2 a 8 de julhovi_32_ra

Pés na terra // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

E ao terceiro dia de viagem, aterramos na Ilha de Príncipe! Mais precisamente, 546 anos e 4 dias mais tarde que os primeiros navegadores portugueses, quando aquele pedaço de terra foi denominado de Ilha de Santo Antão ou Santo António Abade! Em verdade, o seu atual nome deveu-se à iniciativa do “príncipe perfeito”, D. João II, um rei que tanto estimava o seu único filho e herdeiro, Afonso, Príncipe de Portugal, que em sua honra decidiu batizar de “Príncipe” a ilha mais pequena do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Mal se poderia imaginar que, 16 anos mais tarde, este promissor mancebo iria encontrar o seu fim numa misteriosa queda de cavalo, e o pai, outras tantas angústias de sucessão…Mas história à parte, é absolutamente idílico aterrar naquela mágica ilha verde, naquele exíguo avião, como que a jeito de uma película de animação. Recordo-me de comentar, com um querido e grande amigo de São Jorge, que aterrar na Ilha de Príncipe nos reportava para a similar experiência vivida no arquipélago dos Açores, sendo que, até São Jorge, aquele vértice das ilhas do triângulo, tem bem mais habitantes do que Príncipe.

_DSC7927 _DSC7926

À nossa espera estava o atento e paciente Micky, um benfiquista ferrenho que outrora desejou ser jogador de futebol, mas que as obrigações da vida acabaram por levar a melhor ao fintar-lhe esse sonho de infância e juventude. Enfim, não fosse a vida estar cheia dessas ousadias superiores…

Não perdemos tempo e logo nos primeiros vislumbres até Santo António, a cidade que tem lugar no Guiness como a mais pequena do mundo, foi evidente que aqueles dias seriam um antídoto para os males da alma.

_DSC7959 _DSC7957_DSC7942_DSC7964 _DSC8304

Chegados até à capital – em que a primeira impressão se prende, erradamente, a uma marginal decrépita, edifícios de arquitetura colonial em acelerado estado de degradação e meia dúzia de ruas esburacadas e quase intransitáveis – lá nos atiramos, sob os olhares mirones e curiosos dos nativos, para uma experiência genuinamente local na Pensão Palhota. De imediato, fomos avisados que a luz elétrica falha com frequência e que os restaurantes são poucos, pelo que convém marcar com antecedência, não pela eventual falta de mesa, mas pela ausência de comida.

Inquietos para começar a explorar, principiamos o nosso lento, duro e corajoso trajeto de 4×4, até à Ponta do Sol e depois à Roça Sundy, uma fazenda colonial, outrora casa da família real portuguesa e responsável pela maior produção do cacau e café._DSC8216Nesta roça encontram-se plantações de cacau e café, um hospital (todas as grandes roças da ilha tinham um hospital próprio), uma capela e vestígios de caminhos-de-ferro consumidos pela larica do capim e do tempo. Estes últimos serviam as locomotivas que transportavam o cacau entre as roças. Foi também neste lugar que Arthur Eddington (astrofísico britânico do início do século XX) provou a Teoria da Relatividade de Albert Einstein durante um eclipse total ocorrido em 1919. Contudo, naquele momento não haveria melhor “fórmula mágica” capaz de transformar aquilo que eu sentia (tantas vezes complexo) em algo simples, como um mergulho demorado, naquele mar, em que a paleta de cores oscila entre um verde-água e um azul-cobalto.

_DSC8205_DSC8162Micky quis levar-nos a uma das suas praias preferidas, à Macaco. Ali existiu outrora um projeto de hotel por parte de um português, que não passou disso mesmo, restando agora alguns bungalows, uma piscina de água estagnada e um restaurante engolido pela vegetação galopante.

_DSC8236.jpg

Naquele cenário, que nos faz recordar a série televisiva Perdidos, é permitido a qualquer sobrevivente de um quotidiano agressivo e implacável, recuperar os afetos de uma infância ingénua e despreocupada, com todo o seu rol de ambições e desafios. Naquele fim de tarde, recordei todos aqueles e aquelas com quem nos cruzamos e percebi que todos e todas (sem exceção) pareciam felizes. Todos e todas afirmaram ainda, de forma segura e indubitável, que viviam no paraíso ou no melhor local do planeta. E eu dei-lhes (tanta) razão…

in Revista Açores, 4 a 10 de junhora_31.png

Mil mergulhos de sal e de saber // São Tomé e Príncipe, da parte sul da ilha até à cidade de São Tomé

Depois de uma noite bem dormida na Roça de São João dos Angolares, era tempo de partir à aventura, no encalço de praias desertas e da selva tropical, naquele que é um paraíso no meio do Golfo da Guiné, sob a linha do equador.

A primeira paragem foi na bela praia de Micondó, uma enseada de águas tranquilas, rodeada por uma densa vegetação de coqueiros. Após uma breve pausa, na qual o Viajante Ilustrador prescindiu da praia para conhecer uma fratria que, à revelia de seus pais, preferiu trocar a escola por uns banhos sol e mar, voltamos à estrada.

_DSC7659

Da aldeia de Ribeira Afonso até à Roça de Água Izé, não nos faltaram imagens de gente de rostos gentilmente sorridentes que contavam histórias de superação e esperança. Embora não fossem possuidores de riquezas, aqueles homens e mulheres reiteravam no seu duro quotidiano a bem-aventurança de viver num país onde tudo cresce com uma abundância assombrosa, ou não houvesse, em cada pedacinho de terra, a possibilidade de rapinar umas frutas como bananas, fruta pão, sape sape, canjamanga, abacaxi, abacate, jaca, papaia, safu e mangustão.

A Roça Agua-Izé, também conhecida como “Fazenda da Praia Rei”, foi fundada em 1854, por João Maria de Sousa e Almeida, e tornou-se célebre pelo facto de o seu principal proprietário ser de origem negra. Tornada sede da Companhia da Ilha do Príncipe, foi a primeira roça de São Tomé a implementar a cultura de cacau, possuindo uma das maiores e mais avançadas plantações. Dispunha, inclusive, de um cais próprio para a exportação e uma grande linha férrea.

_DSC7708

_DSC7850

Contudo, Água-Izé não tem entradas nem limites bem definidos. Na zona baixa localiza-se a casa da administração, as oficinas, as serralharias, as carpintarias e os armazéns, sendo que a área das sanzalas distribui-se ao longo da encosta e os dois hospitais estão implantados na zona alta da estrutura da roça. A maioria dos edifícios existentes data de 1910-1920, incluindo o antigo hospital, erguido no ano de 1914.

Um pouco mais à frente cruzamo-nos com a Boca do Inferno, um local onde o mar é ventado por uma abertura nas rochas, como se nos empurrasse rapidamente, no sentido da cidade de São Tomé. Antes da capital, temos de passar pelo bairro de pescadores do Pantufo ou atravessar vila de Santana.  Pela primeira, serpenteamos a energética vibração são-tomense, pela segunda, encontramos no Club Santana, uma alternativa para quem prefere o conforto de uma praia privativa.

_DSC7811

_DSC7825 _DSC7866

_DSC7792

Chegados à cidade, aproveitamos para dar uma voltinha pelo mercado para reconhecimento de local, de modo a que pudéssemos ficar a conhecer alguns dos melhores produtos locais daquela ilha, e deambulamos por uma das muitas heranças portuguesas, através de um passeio costeiro pela Baía Ana Chaves até ao Forte de São Sebastião.

_DSC7891

_DSC7898

Mas rápido se fez noite e com ela veio uma imensa larica, pelo que nos aventuramos à descoberta do tão bem-afamado restaurante da Dona Teté! É no quintal desta linda e perfeitamente arranjada mulher – tal a elegância que ostentava do seu vestido de capolana colorido – que podem ser degustadas diversas iguarias como choco, polvo e uma outra tanta diversidade de peixe como cherne, barracuda, corvina ou pargo grelhados no carvão, preparados com um molho secreto, e acompanhados da famosa fruta-pão assada, banana frita e legumes.

Já para o fim da noite, a Dona Teté sentou-se à nossa beira e, de forma crua e honesta, confidenciou-nos as suas duras escolhas de vida, as suas histórias de amor e desamor, as suas viagens desejadas e concretizadas, as suas recentes perdas e futuras ambições. Uma mulher vitoriosa que aprendeu a sonhar e a temperar a vida dos outros com o coração…

_DSC7916

in Revista Açores, 21 a 28 de Maio

vi_30_ra

Os três mosqueteiros na roça // São Tomé e Príncipe, na parte sul da Ilha de São Tomé

Entre viagens é quase inevitável não dar por mim a debater com o Viajante Ilustrador sobre um dos maiores problemas filosóficos desde a Antiguidade: a passagem do tempo. Independentemente de recorrermos a argumentos, outrora veementemente defendidos por Platão, Aristóteles, Kant ou Hegel, acabamos sempre por concordar que a medida do tempo se torna subjetiva, quando cada um a pode percecionar de forma distinta, conforme as circunstâncias. Em verdade, devo admitir que estas tertúlias costumavam terminar com um suspiro, tal o lamento provocado pela escassez do tempo, desejando ambos, numa só vida, poder viver mil vidas!

vi_29_ (3)

Porém, após esta viagem a São Tomé e Príncipe, iniciamos um processo de transformação. Este pedaço de terra, brotado de erupções vulcânicas e rodeado pelo mar, elucidou-nos acerca da palavra “transitoriedade”. Efetivamente, esta ganhou, neste país, uma renovada significação. Ali percebemos, de forma autêntica e humilde, que a finitude apenas faz com que tudo se intensifique, impondo a todos os que por ali passam uma nova medida de tempo. Se na maior ilha do arquipélago santomense se vive sobre um ritmo “leve-leve”, na mais pequena, é tudo ainda mais fácil e devagar, apropriando-se estas gentes de sorriso fácil da divisa “móli-móli”.

vi_29_ (1) vi_29_ (6)

 

 

vi_29_ (7)

 

São Tomé e Príncipe ensina-nos, desde o primeiro instante, a ser serenos e pacientes. Naquele que é um dos países mais pequenos de África, mas sobretudo um dos mais pacíficos naquele continente, respira-se uma brisa quente, húmida e aromatizada pelos frutos de cacau e café. E não fosse esta jornada, já em si, uma espécie de experiência social, tivemos o prazer de contar com a companhia do nosso bom amigo e viajante, Tiago Páscoa.

vi_29_ (12)

Ao volante de um todo o terreno, decidimos principiar a nossa jornada pelo sul de São Tomé, até que, entre solavancos, abanões e travagens bruscas – uma espécie de treino para o que iriamos encontrar na virgem Ilha de Príncipe – lá estávamos nós mergulhados nas águas quentes e límpidas dos trópicos a beber uma água de cocô, mais concretamente, na bonita e selvagem praia Jalé. De seguida rumamos até à praia Piscina, que deve o seu nome à sua morfologia, numa envolvência tropical de um mar calmo, areias douradas e pinceladas de verde (tal os altos coqueiros ali residentes!). Logo ali perto, encontrámos também a praia Inhame, onde refrescados pela cerveja nacional Rosema, projetamos com o Didi, irmão de um dos pescadores locais, uma futura visita até ao Ilhéu das Rolas.

vi_29_ (9)

E porque o ar do mar abre o apetite e dá sede, depois de uma breve pausa pela aldeia piscatória de Ribeira Peixe, abalamos até à Roça de São João dos Angolares do famoso João Carlos Silva. Afinal, quem não se recorda daquele programa televisivo, “Na Roça com os Tachos”?…

Chegados à Roça, de imediato, ficamos apaixonados por aquela antiga herdade que remonta aos tempos da colonização portuguesa. Tal como outras, é dotada de uma casa principal, hospital e senzalas. Aquele antigo palácio de administração, onde outrora moravam os patrões, é hoje uma pousada histórica recuperada, que respeita todo o traço original, com uma plantação ecológica e um projeto universal de arte contemporânea. No antigo hospital pode-se encontrar o Hospital da Criação, um projeto da Roça Mundo que visa o ensino do artesanato e das artes locais às mulheres daquela localidade, como forma de rendimento e inserção numa sociedade carenciada.

vi_29_ (11)

Este local garante a qualquer indivíduo a oportunidade de se fundir com a Natureza, convidando-o a libertar-se de constrangimentos impostos pela atual era digital, onde a conectividade global progride a um ritmo inédito e avassalador, para simplesmente ouvir o acalentar do vento ou o chilrear dos aves endémicas que ali moram…

Após algum tempo de sossego e ócio, lá fomos nós, à laia de três mosqueteiros, fruir de um encontro na magnífica varanda daquela reinventada roça para degustar, sem pressa, alguns pratos típicos, mas também uma fusão de sabores africanos. Um dia encantador, no qual se exortou a amizade, a relação fraterna e altruísta entre os homens, advogando-se ainda o valor da honra e da justiça a par da aventura!

vi_29_ (10)

vi_29_ (5)vi_29_ (8)

 

 

 

 

vi_29 (0)

 

in Revista Açores, 7 a 13 de Maio

vi_29_ra.jpg