#9 Dança com alma nica, Granada (Nicarágua)

Dança com alma nica, Granada (Nicarágua)

Cientes das fronteiras da palavra, os nicas recorrem à dança, de forma única e destemida, como linguagem universal. Percebi-o nas noites loucas do Via Via em Léon ou nos jantares em casa de Manuela, na humilde e paradisíaca ilha de Ometepe. Através da dança, escreve-se com o corpo, desfiam-se pequenas e grandes narrativas, sendo que cada movimento triste ou alegre torna-se sublime e indubitavelmente tão humano! Manuela contava que em pequena o médico da aldeia prescrevia muitas doses de música e dança por dia. É certo que nunca vi a dança como uma paixão, todavia devo confessar que nunca o corpo me havia desobedecido como ali! Endiabrado, deixava-se levar por ritmos quentes e irrequietos, nos quais o coração se soltava do peito.

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De corpo travesso e de olhos postos no vulcão Concepción, acenava demoradamente à ilha de Ometepe. Depois de alguns dias na tranquilidade e na beleza ainda intocada daquela ínsula, era tempo de descobrir a exuberante Granada, cidade fundada em 1524 por Francisco Hernández de Córdoba, e historicamente considerada cidade irmã de Antigua, na Guatemala.

Granada é encantadora, suficientemente grande para ter uma boa estrutura turística e pequena o bastante para continuar pacata, com traços de cidade do interior. Mal chegamos fomos até à Praça Central, onde se situa a catedral pintada de um amarelo resplandecente e contagiante. Daqui, rapidamente se alcança a Calle La Calzada, uma artéria pedonal que sai do parque em direção às margens do imenso lago Cocibolca. Um passeio de mais de um quilómetro que nos conduz até ao local onde parte um ferryboat semanal com destino à ilha de Ometepe.

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Não muito longe da Praça Central fica aquela que é por muitos considerada a mais bonita igreja de Granada, de seu nome La Merced, e na qual vale a pena a subida à torre do campanário. Há ainda a igreja de Xalteva, o convento e igreja de São Francisco e muitos outros exemplares da arquitetura religiosa colonial. Um passeio de charrete é igualmente um bom plano, permitindo uma visita guiada pela cidade. Na verdade, se estava resistente àquela experiência, demasiado americanizada ou não me fizesse recordar os passeios no Central Park, foi maravilhoso ter conhecido José que nos brindou com relatos sobre a cidade e os seus ilustres moradores.

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Granada deve ser percorrida com o devido tempo, ao sabor do instinto e dos encontros, sem rumo definido. Os dias constroem-se por si, à conversa com os nativos sentados num banco de jardim ou numa barbearia com mais de meio século. Numa manhã, a caminho do mercado municipal, cruzamo-nos com uma mítica carrinha “pão de forma” que transporta um inconformismo sem idade. Aquele que faz as gerações mais velhas terem vontade de recuar até ao passado e as mais novas a identificarem-se com o seu espírito livre e rebelde. No vidro de trás, alguém teve a ousadia de escrever uma lição maior: “Si no te dedicas a lo que te gusta, estas desperdiciando tu única vida”. Ao que questiono o viajante ilustrador: estaremos na direção certa?

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in Revista Açores – Açoriano Oriental (págs. 28-29) // 10 a 16 de julho

#8 Tragar a vida, como quem degusta um puro // ilha de Ometepe (Nicarágua)

Tragar a vida, como quem degusta um puro // Ilha de Ometepe, Nicarágua

Desde catraia que ocupo a minha mente a imaginar grandes epopeias. Nesse tempo, acabava por ser repreendida, pois os meus pais não gostavam lá muito desta minha mania, e defendiam que um dia ainda haveria de arranjar um problema (dos sérios) por pensar de mais… Restava-me suspirar e fazer de conta que dali em diante começaria a pensar menos. Afinal, o que seria da vida sem um toque da magia que derruba o impossível? Talvez por este motivo me seja tão difícil pensar no meio do ruído e da confusão dos outros, ou não fosse a minha cabeça barulhenta e o meu coração suficientemente desassossegado.

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Foi com esta minha “má” mania que cheguei à pequena aldeia de San Jorge, local de onde partem os barcos para a Ilha de Ometepe. Ali, imaginei a história de uma mulher que atormentada por um feitiço, se transformou numa ilha de pedra, protegida por dois gigantes de fogo. Sim, poderia ser o princípio de uma fantástica história… Mas voltando à realidade, quais os factos desta ilha? Nascida da união por um istmo de terra de dois vulcões – Concepción e Maderas – que emergiram das águas na sequência de sucessivas erupções, a última das quais em 1957, a Ilha de Ometepe é um paraíso ecológico. Para isso, conta com o lago Nicarágua que ocupa uma larga extensão do sudoeste do país e é apenas o maior de toda a América Central, apresentando uma “humilde” área de 8 624 quilómetros quadrados…

Entre fotos e blocos de notas, a modos de distrair o tempo, o viajante ilustrador metia conversa com um ocioso motociclista de estilo de vida incerta que lhe dizia que aquele lago era grande como o mar. Realmente, quando entrei no velho barco de madeira senti-me uma autêntica descobridora dos tempos modernos.

Vencendo as ondas encrespadas e os ventos manhosos, a verdade é que lá atracámos sãos e salvos! E se da tormenta restava memória, uma sensação de paz e tranquilidade nos acolheu naquelas terras vulcânicas. Se pintora fosse (bem que o tentei, mas falhei redondamente), faria uma bela tela composta por pequenas praias de areia escura, uma dúzia de aldeias em volta daqueles dois cones de lava e alguns homens e mulheres a trotear a cavalo.

Aquela tela passou naquele preciso instante a ser a nossa realidade! Ali pudemos desfrutar de encantadoras imagens, de revigorantes passeios pela floresta e de preguiçosas sestas, interrompidas pela curiosidade da pequena Carmen e pelo atrevimento do seu Manchita!

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Já há algum tempo que o viajante ilustrador tinha um projeto em mente, descobrir os “puros nicas”, os charutos nicaraguenses. Preso a este desejo, antes do início de cada alvorada, o viajante ilustrador punha-se a caminho da finca. Ao longo daquele caminho, tinha a companhia de bandos de macacos que ecoavam pela selva longos concertos de uivos guturais.

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Era recebido com uma caneca de café e um largo sorriso de Manuel Salvador Flores, o proprietário. Um homem de 58 anos, dono de uma serenidade invejável, que falava com paixão da sua esposa e dos seus cinco filhos! Trabalhador e visionário, começou desde tenra idade a dedicar-se ao cultivo de plátano. Hoje dedica-se apenas aquilo que o entusiasma: ao tabaco e ao café.

Se o seu café é de elevada qualidade, conta que o seu tabaco é simplesmente distinto. Ou não oferecesse o solo vulcânico de Ometepe uma riqueza diferenciadora em minerais, dando ao tabaco um sabor único, terroso e adocicado. Manuel partilhou connosco todo o processo de produção, desde a sementeira até à colheita e ao escoamento do produto. Falou de forma vaidosa de como o seu tabaco era vendido para uma das maiores e mais conceituadas fábricas, a Tabacos del Oriente, propriedade de Nestor Plasencia.

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Gostava de observar Manuel a enrolar de forma artesanal os charutos, num exercício de paciência e engenho, no qual contemplava o toque de cada folha, o aroma de cada elemento, o som do corte da “cabeça”, a degustação e a beleza daquele momento de prazer e de convívio. Naquele instante dava por mim a pensar: com ou sem charuto, quantas vezes nos deixamos envolver desta maneira pelos momentos, pelas pessoas, pela vida?

#7 Ama o teu ritmo // Léon e praia Las Peñitas, Nicarágua

Ama o teu ritmo // Léon e praia Las Peñitas, Nicarágua

Ali tão perto das nuvens, do alto da Catedral de León  (também conhecida por Basílica Catedral da Assunção de León), fecho os olhos e tento encontrar a pulsação da cidade. Léon preserva um espírito jovem, continuando com um batimento rápido e vibrante. Mas nesta sua velocidade tão própria, existe uma maturidade própria de quem tem experiência na vida, de quem já aprendeu a saber viver… Recordo um poema do fabuloso poeta nicaraguense Rúben Darío:

Ama tu ritmo y ritma tus acciones
bajo su ley, así como tus versos;
eres un universo de universos
y tu alma una fuente de canciones.

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Assim nos ensina Léon. Serena, ouço o “click” curioso da máquina do viajante ilustrador, ouço jovens universitários cheios de sonhos, ouço sons compassados de ferraduras em contacto com o empedrado das ruas, ouço a azáfama matinal no mercado central… e escuto o meu coração. Na busca pela identidade nicaraguense, volto a ativar os restantes sentidos e mal abro os olhos, feridos pelo mergulho na luz do branco celeste da cúpula, sinto-me leve e despreocupada, como as crianças que observo a correr no frontispício da imponente catedral.
Nessa manhã visitamos ainda a Igreja da Recoleção e a Galeria de Heróis e Mártires, que conta a história da revolução sandinista, um movimento de esquerda que derrubou o regime dos Somoza, uma família apoiada pelos americanos e que dominou o país por quarenta anos.

O viajante ilustrador mostrava-se inquieto para ir para as ruas, ver as suas gentes e fotografar almas “nicas”. As bancas de rua na praça central vendiam pratos de tradicional gallo pinto (arroz com feijão frito que acompanha a maioria das refeições, inclusive pequeno-almoço), vigorón, um prato composto por yucca frita (um tubérculo parecido com batata muito utilizado em vários locais da América Central e Caraíbas), chicharrón (torresmos, pele de porco frita) e salada de couve. Além destes e de outros petiscos, não faltavam frutas, principalmente bananas, e bastantes refrescos, em especial bebidas gaseificadas por vezes mais económicas que a própria água, como coca-cola e pepsi.

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Naquele dia, a deambular pelas ruas à sua descoberta, aconselharam-nos a ir até Las Peñitas e Poneloya, duas praias que estão a menos de trinta minutos de León, e nas quais o sol nos brinda com um dos mais belos entardeceres do Pacífico… Decididos a seguir esta apetecível sugestão, rumamos até Las Peñitas. Ali desfrutamos de um mergulho maravilhoso, de um ceviche nicaraguense (uma delicada mistura de peixe cru marinado, cebola, pimentas, sumo de lima, com mais um ou outro ingrediente nicaraguense secreto), acompanhado de uma refrescante cerveza Toña.

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Não fosse aquele mar como um polvo que nos parece querer prender entre os seus tentáculos. E nós, não por agonia, mas puro prazer, simplesmente não conseguimos dali sair. Ficamos “apolvorados” naquele instante.

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#6 A paragem forçada em Choluteca // El Salvador, Honduras e Nicarágua

Deixar El Salvador transportou-me para aquela sensação de ter terminado um livro, mas ainda continuar a pensar nele… Se a história desta viagem apresentou-nos a locais de horror e sofrimento, ficou sobretudo ancorada a testemunhos de força e esperança. O povo salvadorenho não é mau, como nos querem fazer crer, mas sim desenraizado. Trata-se de gente de coração corajoso, ou não lutasse diariamente entre caminhos e atalhos pela sobrevivência. Mas não basta garantir o pão na mesa, é preciso também encontrar um sentido de identidade. Não me refiro a uma identidade individual, mas a uma reconstrução do singular no coletivo. Na ausência deste sentimento de pertença, facilmente se sucumbe, em horas de fraqueza e desorientação, aos problemas de uma sociedade que vive ainda no imediato e no apelativo, de preferência fáceis. Não obstante, acredito na geração de Lenin, acredito que a mudança está muito além da lógica, acredito que só acontece quando a sentimos primeiro dentro de nós. Che pareceu concordar comigo, embora me referisse que este é ainda um destino que evita ou receia.

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Este guatemalteco ressalva porém que o local que mais o atemoriza estava a aproximar-se, as Honduras. Teríamos que atravessar uma pequena distância neste país para chegar até à
Nicarágua. Na verdade, bastou nem cinco horas para perceber o porquê do temor às Honduras. Homens armados e de olhares pouco amistosos caminhavam à beira da estrada, junto de casas humildemente gradeadas e repletas de propaganda politica com um histórico duvidoso. Por ali, passavam ainda a pé mulheres e crianças desconfiados com a nossa presença, e em especial da lente do viajante ilustrador. Aquele cenário, árido em afetos, remetia-nos para uma velha película de cowboys onde a qualquer altura poderia surgir uma rixa ou mesmo um duelo. Embora Che evitasse parar, por certos momentos lá o fazia para nos mostrar os muitos vendedores de iguanas que procuravam negócio com estes répteis vivos. Na verdade, ali não se encontravam animais de estimação, mas uma iguaria em muito apreciada por estes lados.

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Ainda distraídos por estes vendedores ilegais, fomos de imediato mandados parar pela policia hondurenha. Che, um guatemalteco com sangue comunista, parecia apreensivo e desconfiado com esta paragem forçada. Após uma breve conversa com os policias, voltou à carrinha para tirar do porta-luvas mais alguns documentos. Seguiram-se mais alguns dedos de conversa com a polícia, até que Che lá acabou por se dirigir até nós, demasiado zangado e indignado. Afinal de contas tinha toda a documentação necessária, contudo aqueles oficiais decidiram exigir um “novo” documento, alegadamente criado dias antes, para atravessar o país. Embora de acordo com o discurso da polícia, a ausência deste documento fosse grave, facilmente se poderia ultrapassar tal falha com alguns dólares americanos. Enquanto Che praguejava como forma de lamento com toda a corrupção neste país, olhei pelo vidro da carrinha de modo a me poder situar no mapa. Neste entretanto, apercebi-me que estava em Choluteca. Quase instantaneamente, não consegui controlar uma gargalhada sonora. De tal forma que Che e o viajante ilustrador me olharam confusos. No controlo de um riso com lágrima no olho, expliquei-lhes que nunca uma “chulice” havia sido tão bem enquadrada, ou não tivesse sido Che “chulado” em Choluteca!

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Entre a partilha de velhas histórias de outras viagens, lá acabamos por atravessar a fronteira da Nicarágua. Naquele dia fazia um calor insuportável, levando-nos a mais uma paragem, desta vez para beber uma Victoria, a cerveja nicaraguense. E dali o destino foi León. Perto das suas nuvens, tivemos o nosso merecido descanso, envoltos em tradições, arte e reminiscências coloniais, iniciamos um novo capítulo deste nosso viajário…

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