Uma despedida sobre a bruma marroquina // Zagora, Ouarzazate e Marraquexe, Marrocos

Numa breve pausa para um chá em Zagora, na qual apreciava um bonito ornamento na porta de um edifício, o Viajante Ilustrador apontava, entusiasticamente, na direção das pequenas dunas de Tinfou. Atento à minha distração com tal amuleto, Hammou falou-me de Hamsá, a mão de Fátima, filha do Profeta Mohamed, salientando que este era um símbolo de paciência, fé e resistência contra as dificuldades. De acordo com uma crença comum, a mão de Fátima tem sido um talismã de boa sorte e um dos mais populares no mundo islâmico para a proteção, pelo que as pessoas tendem a pendurá-la nas portas ou nas paredes das casas.

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Ansiosos por chegar até ao outro lado das montanhas do Atlas, identificamos um conjunto de locais para explorar, na apelidada Hollywood de Marrocos, desde o Museu Kasbah de Taourirt, a praça Al-Mouahidine, os Estúdios de Cinema Atlas, os Estúdios de Cinema CLA até ao Kasbah de Tifoultoute. Por seu turno, o bairro de Tassoumaat, na antiga Medina, mesmo junto ao rio, assim como o lago Al-Mansour Ad-Dahbi, o Kasbah des Cigognes e os mercados foram também referenciados como boas alternativas.

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Ouarzazate, à semelhança da maioria das novas cidades no Saara, foi criada para servir de base para a Legião Estrangeira, tendo, no final dos anos 20 do século XX, assumido a forma de centro administrativo por parte dos franceses. Porém, na década de 80, esta cidade desenvolveu-se com a chegada de turistas em busca de aventura no deserto, ganhando especial destaque em virtude da atenção concedida pela indústria cinematográfica às paisagens envolventes. Por aqui filmaram-se grandes sucessos de Hollywood, como Lawrence da Arábia, Gladiador, O Reino dos Céus, O Príncipe da Pérsia, A Múmia, e mais recentemente alguns episódios da série A Guerra dos Tronos. Rodeada por oásis, palmeirais e montanhas desérticas, Ouarzazate possui atrações suficientes para manter ocupado qualquer visitante por uns dias.

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A nossa semana chegava ao fim, e com ela a hora de regressar a Marraquexe. Dali partiríamos para outro destino. Contudo, e mesmo antes da despedida, já dava por mim a sentir saudades deste país misteriosamente cativante. Naqueles dias, e graças ao nosso querido e bom amigo Hammou, começamos a entender melhor um pouco da complexa história daquela região, que ao longo dos séculos, foi objeto de desejo de muitos impérios, ou não tivesse sido acometida a várias invasões de árabes e europeus (inclusivamente de portugueses!), tendo apenas conquistado, em 1956, a sua independência! 

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Após adquirirmos as mais frescas especiarias no mercado tradicional de Mellah, naquela que seria a última das noites em Marrocos, deixamo-nos enrubescer pelo nosso sangue lusitano, ao invocar para a conversa a personagem histórica de D. Sebastião. Conhecido por “O Desejado” ou “O Adormecido”, transformou-se num mito após o seu desaparecimento na batalha de Alcácer Quibir, no norte de África. Neste último grande debate em terras africanas, entre dois portugueses e um árabe, corajosa e patrioticamente, discutiu-se a contemporaneidade deste mito messiânico, baseado na esperança da vinda de um Salvador, que libertaria o povo e restauraria a glória e o prestígio nacionais, como tão bem Sérgio Godinho entoa no seu tema Demónios de Alcácer Quibir.

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Ainda hoje se espera pelo retorno de D. Sebastião que, segundo a profecia, far-se-á numa manhã de nevoeiro, montado no seu cavalo branco, vindo de uma longínqua ilha onde esteve à espera da hora de regressar. Ora saturados de um entorpecedor saudosismo, ora de uma ideia derrotista de perda da identidade nacional, ali reiteramos um veemente “basta!”, decidindo, para além de um abraço de profunda gratidão, deixar a Hammou uma visão de esforço e de grandeza sobre os muitos heróis portugueses que acreditaram poder ir mais além, sobre a terra e sobre o mar…

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in Revista Açores, 23 a 29 de abril

Flanar, uma ânsia de vagar e de narrar // Algures nas montanhas de Jbel Saghro, Marrocos

Mal alvoreceu começamos a caminhar, ou não tivesse ficado o Viajante Ilustrador empolgado com a possibilidade de se encantar com a beleza das paisagens, mas sobretudo com a possibilidade de se cruzar com a autenticidade das gentes nómadas.vi_27_03m

Durante esta jornada recordei uma palavra, da qual gosto especialmente: flanar. Etimologicamente, esta elocução deve a sua origem ao verbo francês flanêr que significa caminhar sem destino certo, de modo ocioso, ou como afirmava Honoré de Balzac (de forma encantadoramente deliciosa), “flanar é uma ciência, é a gastronomia dos olhos”. Perante tal visão, não posso deixar de imaginar os viajantes quase como críticos gastronómicos, que sofrem de um apetite voraz por experiências humanas, ora previamente concertadas, ora fruto do acaso, em locais próximos ou distantes, familiares ou desconhecidos, desproporcionados ou sublimes.

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Mas divagações à parte, recordo que descobri este verbo no livro Wanderlust: a history of walking, de Rebecca Solnit, que aborda a forma como, atualmente, as pessoas se deslocam, esquecendo-se de conhecer o mundo através do seu corpo, tocando-o com os seus pés. Caminhar envolve autoconhecimento, quando não nos oferece uma oportunidade de inspiração e de criatividade. Parafraseando Anatole France, “É bom colecionar coisas, mas é melhor caminhar. Porque caminhar também é uma forma de colecionar coisas: as coisas que a gente vê, as coisas que a gente pensa”._DSC4454_DSC4481

Entregues ao silêncio, como que na tentativa de tocar a terra e ouvir a batida do seu coração, observávamos como o sol tingia de dourado os rebordos das janelas inventadas da montanha, das quais caprinos nos observavam atentamente, como que a jeito de entediados e bisbilhoteiros vizinhos, que de tão bem conhecerem aqueles caminhos de pó e pedra, logo adivinham não sermos gente dali. Curioso como numa afronta à gravidade, as sabidas cabras alpinistas desciam todos os dias do alto para ir beber ao que sobrava de um rio, pondo-nos a pensar como conseguiam elas chegar até sítios tão inóspitos, de que nem Judas se lembraria! Seguindo estas endiabradas criaturas, uma ou outra figura humana eremítica acompanhava-as neste exercício de sobrevivência. Nómadas, afirmava Hammou. Homens e mulheres que seguem os seus animais, entre a aridez e a abundância, carregando a casa às costas, ora montando, ora desmontando tendas, conforme a natureza o ditar. Na certeza de que tudo o que transportam é realmente necessário e útil, lá fazem por manter uma dispensa na qual se encontra chá, leite e queijo (fresco ou seco ao sol) de cabra, pão, tâmaras e umas quantas reservas de água.

vi_27_002mPor mais agradável que seja a ideia romântica de um viajante itinerante, desapegado do mundano que faz da natureza a sua única bússola pelo caminho da montanha, questiono-me se não chegará aquele dia em que alguns, simplesmente, escolhem ficar? Nómadas ou sedentários, quantos de nós já não desejaram avidamente partir, mas se distantes, somente almejamos chegar?

O sol começava a queimar de tal forma, que decidimos parar um pouco para comer, descansar e falar um pouco com quem por ali vivia. O Viajante Ilustrador começou assim a fotografar uma família bérbere. Embora agradados pela atenção que obtinham, era evidente a vergonha e o incómodo sentidos por acharem impróprio reproduzir o corpo, considerado sagrado, numa fotografia. Fugidia, a matriarca refugiou-se em sua casa, regressando depois acompanhada do neto. Longe das câmaras contou-nos a sua história. Parida nas montanhas, toda a vida entre aqui e ali se criou e viveu, até que ousou ser mais do que lhe disseram do que podia ser. Quis ter um cartão como os outros, escolhendo deixar de ser uma cidadã da montanha, para ser uma cidadã de um país. Quis acreditar que os seus filhos e os seus netos mereciam ver o que estava para além dos cumes. Agora, entre paredes de memórias de angústia e alegria, coloca no neto todos os sonhos do mundo. Perguntamos pelos pais daquele observador rapaz. Lado a lado com o neto, elevou a face e encarou de frente o horizonte, dizendo “Preferem ficar pela montanha”.

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_DSC4520in Revista Açores, 9 a 15 de abril

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Uma espécie de ode aos homens livres // De Merzouga até Nkob, Marrocos

vi_26_03mEnquanto o Viajante Ilustrador aproveitava o ar, ainda fresco, nas dunas de Merzouga para fotografar, eu folheava “Viagens”, de Paul Bowles. Imagino este viajante erudito como uma espécie de Indiana Jones que, nas suas vastas e perigosas aventuras – muitas vezes com a mulher, Jane – apenas reafirmava os seus compromissos de liberdade e desprendimento. Este casal foi, nos início do anos 90, revelado ao mundo numa adaptação cinematográfica de Bernardo Bertolucci (ingenuamente traduzida para português como “Chá no Deserto”), do romance de 1949, “O Céu que nos Protege”, e que conta com a banda sonora da autoria do grande compositor japonês, Ryuichi Sakamoto. Bowles era um nómada extravagante que amava o deserto e as regiões inóspitas, tal o seu conhecimento da cultura árabe. Em Marrocos visitou lugares interditos e experimentou tudo o que lhe era oferecido, desde o exotismo dos bordéis até às lutas entre os mercenários e os separatistas. Este homem do mundo tinha alma de vagabundo, mas agia como um aristocrata. De acordo com Daniel Blaufuks, fotógrafo português que, em 1991, publicou com Bowles o livro “My Tangier”, este último era “(…) um homem que tinha vivido a sua vida, traçado o seu destino, encontrado a sua alma. A sua casa e a sua pessoa irradiavam serenidade, apesar da sua biografia e do monte de malas na entrada lembrarem outras existências.”

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De regresso à realidade, dei o Viajante Ilustrador como perdido. Já um tanto ou quanto preocupada, lá fui dar com ele completamente estonteado com um espelho de água que havia encontrado naquelas sensuais dunas. Enquanto partilhava o deslumbrante momento, tentei apressa-lo, mas sem sucesso, ou não arrumasse ele o equipamento em câmara lenta com um largo e luminoso sorriso, cantarolando “Deitados nas dunas, alheios a tudo/ Olhos penetrantes/ Bebemos dos lábios, refrescos gelados/ Selamos segredos…”.

Muito perto dali, mais precisamente, em Khamlia, uma pequena aldeia onde a maioria da população se dedica à pastorícia, ao artesanato e à exploração de minério e sal-gema, homens nascidos da cadência fazem da música, hipnose. A sonoridade do povo Gnawa, descendente dos escravos da África Ocidental levados para o norte do Saara pelos árabes e conhecido pelos bérberes como o “povo negro do deserto”, materializa-se através de instrumentos parecidos com alaúdes, de umas castanholas metálicas e tambores. Ademais, usam uma mistura de Bambara, ou seja, de línguas bérberes e árabes, em que os músicos movimentam todo o corpo, à exceção da cabeça. Recordo a música Gnawa como uma espécie de fogo-de-artifício interior, que nos convida a um estado de consciência onírica. Ceticismos à parte, Hammou confidenciou-nos que estes ritmos ajudam a curar doenças e a entrar em estados de transe e êxtase místico que regulam as nossas emoções e até nos podem por a contatar com outros mundos.

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Dali seguimos em direção a Alnif, conhecida pelas suas deliciosas tâmaras, passando por Tazanine, importante pelo seu festival anual de henna, até ao oásis de Nkob. Ao longo do caminho, Hammou referiu que esta pequena vila bérbere, capital da tribo dos Ait Atta, é rodeada pelas montanhas do Jbel Saghro, reforçando que estas eram fantásticas para caminhadas, das quais é possível ver toda a região. Na verdade, pouco mais bastou para que Hammou e o Viajante Ilustrador esboçassem um rascunho de um trekking para fazer pela alvorada do dia seguinte.

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Cansados e famintos da viagem, pernoitamos na casa de uma família amiga de Hammou, que logo nos ofereceu um chá com menta, tal a sua hospitalidade. Já sentados entre pratos, entregamo-nos ao prazer do paladar com um cardápio maravilhoso: harira – a famosa sopa de Marrocos preparada com grão-de-bico, lentilhas, arroz, tomate, cenoura, ervas aromáticas e especiarias –, couscous com frango e leite de cabra ao estilo bérbere e fruta da época, como melancia e meloa. Naquele estado de alimentação consciente, falei de Epicuro a Hammou, dizendo-lhe que este sábio afirmava não conseguir imaginar uma vida de prazer sem um bom prato de comida, uma grande amizade ou tempo para filosofar… Nisto, Hammou propôs um brinde, dizendo: “A Epicuro e a todos os homens livres!”.

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in Revista Açores,  de 26 de março a 1 de abril

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Hendrix e Dylan no deserto // Dadés, Dodra e Merzouga, Marrocos

Após uma breve estadia no Vale das Rosas, partimos para as espetaculares Gargantas dos rios Dadés e Todra. Apesar da rivalidade entre ambas, aquela que mais se parece destacar é a de Todra, pelos seus 300 metros de altura escavados através das águas daquele rio. Ali, as estradas mais se assemelham a escadas até ao céu, e das quais se avistam altas montanhas, íngremes penhascos e imponentes vistas.

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Foi a partir deste momento da viagem que começamos a conhecer melhor Hammou, um homem parco em falas, mas abundante em fé. Era curiosa a forma como aquele bérbere se exprimia pois ocasionava breves pausas, nas quais tendia a dirigir e a suster o seu olhar enegrecido no firmamento. Esforçava-me por o observar, pensando que aquele homem com aquele gesto repetitivo, mais parecia um filho a tentar encontrar o aval do pai.

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Em verdade, para além dos ensinamentos de Alá, o que fazia Hammou alongar-se nas suas frugais conversas, era a sua família. Gostava de partilhar os convívios em casa de sua mãe, nos quais revia os seus irmãos e restantes familiares, assim como os momentos com a esposa e o seu filho de apenas quatro anos. Este rebento que gostava de futebol e torcia pelo Barça era, sem dúvida alguma, a figura que ganhava destaque nas suas palavras, assim como no seu olhar longânime. Já do pai não falava, até que um dia o questionei diretamente. De forma seca, respondeu-me que este teria morrido há tempo suficiente para nada haver a dizer sobre ele.

Atitude que bastou para perceber que, de findo, aquele pai pouco ou nada tinha na vida de Hammou. Ainda na rota até Erfoud, em que a dureza do caminho nos desperta a atenção para as aldeias cada vez mais autênticas e remotas, apenas sobrou tempo para uma pausa em Rissani, onde se encontra o mausoléu do Rei Moulay Ali Cherif, no qual descansa o fundador da Dinastia Alaouite. Ali ganhámos ânimo para chegar até às Dunas de Erg Chebbi, mais conhecidas por Merzouga.

Nos cerca de quarenta quilómetros seguintes, Hammou falou-nos da história desses povos naturais da região do Norte de Africa. Assim explicou que, se numa primeira fase, os bérberes viviam em tribos que cobriam uma parte significativa do deserto do Saara (principalmente numa região apelidada de Magreb, da qual fazem parte a Mauritânia, Marrocos, Argélia, Mali, Líbia e até uma parte da Tunísia), como nómadas que eram, desenvolveram a capacidade de viver e de encetar longas distâncias no deserto. Porém, apesar da sua identidade cultural comum, os bérberes nunca se constituíram como um povo uno em torno de um Estado.vi_25_03m

Enquanto escutava Hammou e o Viajante Ilustrador efusivamente a trocar opiniões, ou não fosse este último um apaixonado pela origem dos povos e a criação de estados, eu cá não conseguia abandonar o número quarenta. Na realidade, a viagem até às Dunas de Merzouga quase que funcionava como uma ampulheta do tempo necessário de preparação para algo novo. Se este pensamento foi, talvez, turvado pelos meus ensinamentos judaico-cristãos de infância, o meu instinto de Viajante persistia na ideia de que uma noite no deserto bastaria para qualquer um renascer do entorpecimento.

Dois dromedários esperavam-nos à entrada das dunas, sendo que, a jeito de brincadeira, tentei perceber se estes teriam nomes. Qual não foi o meu espanto, ao saber que seriam o Jimmy Hendrix e o Bob Dylan a levar-nos por aquela espécie de mar de areia onde os homens, em tempos, se deslocavam em caravanas. Sem perder tempo, o Viajante Ilustrador logo asseverou que iria com o Hendrix, e que eu ficaria bem com o Dylan, vá-se lá saber porquê!

Avançamos no dorso destes cavalos do deserto sem medo, embora completamente aturdidos, naquela que foi uma espécie de busca (ora exterior, pela fotografia, ora interior, pela emocionalidade da palavra) por um local de indescritível tentação e beleza, ainda que no fim garanta a salvação divina da alma. Por esta altura as palavras começaram a escassear, tal a beleza daquela paisagem imensa e falsamente estéril, até que, contemplando o sumptuoso sol africano, perdemo-nos no tempo, no espaço e na matéria…

in Revista Açores, 12 a 19 de Março

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Agitando o kasbah // Ouarzazate, Marrocos

Por entre os vales verdejantes e os rasgos enrubescidos subimos na paciente companhia de Hammou até ao ponto mais alto deste trecho do Alto Atlas, o Tizi n’Tichka, a mais de 2200 metros de altitude, que une a estrada entre Marraquexe e Ouarzazate.

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Após contemplar o Pequeno Atlas, seguimos por um caminho à esquerda que nos conduziu até Telouet, sendo esta uma etapa imprescindível para imergirmos na Rota dos Kasbahs. É então momento de parar o 4×4 e passamos a ouvir The Clash e o seu álbum de 1982, Combat Rock, onde consta a épica música, Rock the Casbah. A composição, que intencionalmente procura “agitar o kasbah”, mistura termos norte-africanos, urdus, árabes e judeus, e ficciona a prevalência do rock sobre restrições à liberdade cultural nas regiões do Médio-Oriente e do norte de África.

Das planícies Haouz, passando pelas margens do Rio Zat, ascendendo aos picos do Atlas, até às terras áridas perto de Ouarzazate, impera um cenário pautado por uma sucessão de ksour (plural de ksar), fortalezas ou aldeias fortificadas da população berbere, e de kasbahs, casas  muralhadas igualmente de origem berbere, como Ounilla ou Telouet. Este último foi abandonado em 1956, tendo sido por largas décadas a sede do poder do clã dos Glaoui, um dos mais poderosos grupos de berberes do sul marroquino. Construídas em adobe (argila, estrume e palha, secados ao sol) e com adornos em ladrilho cru que apresentam padrões associados ao seu criador, estas estruturas defensivas albergavam no seu interior verdadeiras urbes, casando todos os tons possíveis de ocre e vermelho. Doravante, contudo, as comunidades foram-se dispersando e muitos dos kasbahs acabaram nas atuais ruínas da paisagem da ala sul do Atlas, de Telouet aos vales do Dadés e do Todra, do Vale do Draa às regiões orientais do Ziz e do Tafilalet.

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“Não demasiado longe deste itinerário, existe um outro local de paragem obrigatória – Aït Ben-Haddou – na encruzilhada das rotas entre o norte de África e Tombuctu, cidade no centro do Mali, onde a compra e venda de livros chegou a ser mais lucrativa do que o comércio de ouro e escravos. Aït-BenHaddou, outrora Aït Aïssa, sugere que a sua denominação constitui uma homenagem à fundação deste local por um lendário viajante. Todavia, existe uma outra história, contada pelos locais, que alude à figura de Kahîna, uma rainha cristã a quem eram conferidos poderes mágicos, e que se terá oposto ao progresso do islamismo na região. ”

Este famoso ksar de Aït Ben-Haddou, classificado como Património da Humanidade pela UNESCO e localizado perto de Ouarzazate, foi cenário de diversos filmes, como Lawrence da Arábia, Gladiador, Um Chá no Deserto ou Babel. O ksar era ocupado, sobretudo, por algumas famílias mais pobres, que ali buscavam a proteção face a intempéries, bandidos ou tribos nómadas que assaltavam os oásis depois das colheitas. Estas aldeias tendiam a ter apenas uma rua principal com contacto direto às safras, funcionando como fortalezas comunitárias para as populações sedentárias. Curiosamente, algumas mantêm-se habitadas até hoje! Nestes locais, havia sempre uma residência que dominava a cidadela e garantia a proteção, constituindo um elemento distintivo da arquitetura berbere.

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Este povo continua a predominar na região, conservando ao longo dos tempos uma identidade própria, nomeadamente através da língua. Embora os seus hábitos antecedam a chegada dos árabes, convivem de forma pacífica e integrada, sendo que uma larga maioria acolheu o islamismo.

Findos os desvios, lá chegamos até Ouarzazate, uma cidade modernizada, fundada pelos franceses, igualmente conhecida pelas suas produções cinematográficas nos estúdios Atlas. Dali continuamos a nossa rota em direção ao lago Al Mansour, passando pelo palmal de Skoura, terminando no Vale das Rosas.

“Shareef don’t like it

Rockin’ the Casbah
Rock the Casbah
Shareef don’t like it
Rockin’ the Casbah
Rock the Casbah”

in Revista Açores, 26 de fevereiro a 4 de março

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O coração da Medina // Marraquexe, Marrocos

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“Marraquexe viu chegar e partir gerações sucessivas de homens que a amaram como a nenhuma favorita dos seus haréns, que por ela se bateram e mataram, plantaram jardins minuciosos e geométricos, palácios de luminosos azulejos e pátios estudados para que  a sombra do Sol durante o dia ou a da Lua à noite nunca revelasse tudo, exactamente, mas apenas aquilo que é devido à condição humana: ‘que pena que já não possas ver mais… a mais bela das cidades do Sul”

Sul, Miguel Sousa Tavares

Depois de termos passado o dia anterior a visitar alguns dos principais monumentos da “cidade vermelha”, como a Medersa Ben Youssef, o Palácio Badii, os Jardins da Menara, o Palácio Bahia, os Túmulos Saadis, o Bairro de Mellah, o Museu Dar Si Said e outros tantos, naquela manhã dei por mim a recordar uma das primeiras conversas que tive com o Viajante Ilustrador (já lá vão sete anos…) acerca da sua paixão sobre labirintos.vi_23_02

Confesso muito já ter esquecido, mas mantive a ideia de se tratar de um dos símbolos mais antigos da humanidade e, porventura, gravado na memória coletiva do ser humano, independente da raça e cultura.

Empolgado, lá me disse que um dos labirintos mais conhecidos no mundo é o construído por Dédalo em Knossos, a mando do rei Minos de Creta, para conter o Minotauro — um monstro com cabeça de touro e corpo de homem, fruto do amor da rainha pelo touro sagrado —, perante o qual eram sacrificados anualmente sete rapazes e sete raparigas, e que foi morto por Teseu. Por outro lado, o maior labirinto, o “Caminho de Jerusalém”, foi construído na Catedral de Chartres, em França, onde os peregrinos judeus, –  impossibilitados de irem à Cidade Santa -, substituíam o percurso por este enredo, ajoelhados, acreditando que no final estariam transformados, plenamente preparados para os desafios da vida. Achei ainda curioso o facto de me ter relatado que na Índia, quando uma criança está prestes a nascer, os pais desenham num papel um labirinto com onze voltas, para que aquela prospere, representando a compreensão da espiritualidade, numa fusão entre divindade e força. Em verdade, a ideia de o conceito de labirinto estar associado à condução do homem ao seu próprio centro interior, apaixonou-me, à semelhança dos souks!

Situados na parte norte da cidade velha e especializados por setores de comércio de artesanato, os souks são um labirinto de ruelas estreitas e escuras, aparentemente intermináveis, que se ramificam como raízes rebeldes, mas vigorosas… Concretamente, existem dezoito souks principais em Marraquexe, de como é exemplo, o Rabia, indicado para a compra de tapetes, ou o Smata, ideal para arranjar umas babouches (sapatos tradicionais marroquinos).vi_23_04

Porém, houve um pelo qual nos enamorámos, o souk Sebbaghine (ou des Teinturiers, isto é, dos tintureiros)! Este souk fez brilhar o olhar fotográfico do Viajante Ilustrador, dando contornos cénicos a uma deambulação exótica e misteriosa, simples e opulenta por aqueles becos escuros apinhados de peles e tecidos de seda tingidos a secar em cordas ao sol, mais parecendo um arco-íris. Ali, como em todos os souks, negociar é um verbo maior, ou não fizesse esta arte de bem regatear parte da tradição de comercialização do mundo árabe, tornando-se numa regra absoluta.vi_23_03

Perdidos no tempo e no espaço, entre uma infinidade de
objetos, de ervas e especiarias marroquin
as, a produtos de beleza, tapetes, até peças de couro ou abajures, naqueles souks imaginamo-nos curandeiros ou loucos contadores de histórias sobre dentistas ou até videntes!

Juro que se Marraquexe quer dizer “parte depressa”, algo em mim me diz que isto só pode ser um grave equívoco, pois a minha mente teimou no contrário, desejando somente ali ficar, como que à espera do verso final de um teimoso poema suspenso.

in Revista Açores, 11 a 18 de março

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A assembleia dos vivos // Marraquexe, Marrocos

Debruço-me sobre a janela e espreito Marrocos. O Viajante Ilustrador desperta de um sono desassossegado pela chegada e rapidamente tira a câmara, tentando fotografar de longe um labirinto chamado Marraquexe.

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Aterramos. Um bafo intenso invadiu-me o corpo: 36 graus! Abandono a forma de cubo de gelo e um pesado inchaço apodera-se de mim. Hammou aproxima-se e graceja, “Hoje está fresco!” Numa curta viagem até ao coração da cidade vermelha, trocamos breves impressões com este homem que mesmo antes de dizer o seu nome, se afirma berbere. E nós, mesmo antes de o conhecermos, já o sentíamos como o amigo Hammou, o berbere!

Deixou-nos num Riad situado a escassos passos de Djemaa El Fna. De imediato procuramos um terraço e entregamo-nos por instantes à indolência e ao prazer de um chá de menta e de um repasto revigorante. Apreciando lentamente a nossa tagia, fomos interrompidos por uma sonoridade que invadiu a cidade. Após um instante de alerta, olhamos um para o outro e suspiramos de alívio: o Adhan! Acabavamos de ouvir uma das cinco chamadas para a oração muçulmana.

Sem relógio e desapegados de compromissos, perdemo-nos nas ruelas dos souks de Marraquexe. Deambulamos por este dédalo durante mais de três horas, até que lá conseguimos voltar à vibrante e mágica Djemaa El Fna, o coração da medina. Do alto de um dos cafés desta praça, não conseguia desviar o olhar da Koutobia, que teimava em recordar os homens da sua obrigação da fé. Contemplamos do exterior a beleza e imponência desta mesquita, uma vez que a entrada é proibida a não muçulmanos. O que importa é que esta mesquita é considerada, pela maioria dos marroquinos, como aquela que tem o minarete mais sublime de todo o norte da África. Construída por Yacoub Al Mansour, num desejo de conseguir erguer sete mesquitas para entrar no céu e ser recebido por catorze virgens, acabou por ficar às portas do mesmo, ou não tivesse perecido antes de finalizar a sétima … “Raios partam ao azar!”, exclama o Viajante Ilustrador à laia de galhofa.vi_22_02

Ainda no topo deste minarete, encontram-se quatro esferas de cobre de tamanhos decrescentes, um quesito tradicional nas mesquitas do país. Porém, reza a lenda que as esferas são de ouro puro e terão sido doadas pela esposa de Yacoub el Mansour, como penitência por ter quebrado o jejum de três dias durante o Ramadão (a tradição diz que comeu três uvas!). Outra história remete para os muezzin, que ali fazem o chamamento dos muçulmanos na hora das orações, voltados em direção a Caaba, em Meca. Assim, conta-se que, sem nenhuma prova tangível, como o minarete tinha vista direta para um harém, apenas os muezzins cegos lá podiam subir, ou não fossem aqueles que partilham do dom da visão cair em tentação e dar uma espreitadela durante os períodos de culto. Na verdade, a cidade de Marraquexe é um livro repleto de lendas lacónicas e fábulas, sendo que a Koutoubia não se livra igualmente do seu próprio universo de histórias.vi_22_03

Repleta de vendedores de sumos de laranja, de doces, de lamparinas; de bancas de comida; de aguadeiros; de tatuadoras de henna; de contadores de histórias; de videntes; de malabaristas; de homens com macacos; de encantadores de cobras e até de vigaristas, Djemaa El Fna transforma-se à noite num festejo desenfreado. Ali, personagens humanas e animais exibem os seus arrojados talentos. O significado do seu nome, “assembleia dos mortos”, remonta às execuções de criminosos que ali tiveram lugar há muitos séculos, é reinventado, convertendo-se numa “assembleia dos vivos”. E é nesta dualidade de vida e de morte, de realidade e fantasia, que acabamos sugados pela luxúria das paixões e pela euforia da audácia, como que a ludibriar a iminente finitude da memória. Ali, todos são ninguém e todos são de parte nenhuma, gozando de uma liberdade isenta de qualquer esforço.

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in Revista Açores, 15 a 21 de janeiro de 2017vi_22_ra