O homem pássaro // Tóquio, Japão

“Afinal, nada como uma orgia gastronómica, repleta de pratos exóticos e com sabores inusitados, para aprendermos o poder dos cinco…”

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Esta poderia ser a sinopse da longa experiência no Mandarin Oriental, no Tapas Molecular Bar. Naquela noite, Kento Ushikubo prometeu seduzir os nossos sentidos através de texturas diferenciadas, apresentações irrepreensíveis e sabores irreverentes, combinando para tal tradições culturais do Japão com a modernidade do mundo atual.

Numa sala com apenas oito lugares a cada jantar, este talentoso chef preparou-nos dezasseis pratos de culinária molecular autoral. E nada mais intrigante como começar esta refeição com a entrega de uma caixa de ferramentas com utensílios estranhamente descontextualizados para aquilo que supostamente era esperado!img_20160518_205010

Entre uma fita métrica, que se revelou um menu, até a uma pá ou a um martelo com funções reinventadas, assim se desenrolou um serão de duas horas a observar a confeção e a montagem de cada refeição. Durante este período não faltaram exibições de técnicas como a gelificação, a esferificação e/ou a emulsificação, assim como a espetacularidade do azoto líquido, terminando com um truque de magia, em que de um ovo saí um bonito origami. Se a cozinha molecular começou por ser considerada um movimento dos anos 90, em que o objetivo era conseguir uma gastronomia de emoções, de diversão e de um prazer multifacetado, Ushikubo fez mais que jus a esta pretensão.

Na verdade, aquele jantar foi a cereja no topo do bolo de uma jornada num país que tantas vezes me compeliu “a pensar (do lado de) fora da caixa”, solta de quaisquer amarras convencionais. Mas afinal, em que caixas estão presos os nossos pensamentos? Preconceitos? Aspetos culturais? Regras sociais?… A oportunidade de trilhar pelo solo nipónico, despertou-me de um sono de comodismo, libertou-me de um engessamento mental, a que tantas vezes nos autocondenamos.

Após o jantar, o Viajante Ilustrador acabou por ficar mais um bom tempo à conversa com o chef. Entretanto tentei formar uma memória, como que a jeito de uma fotografia noturna que obriga a uma longa exposição, da vista sobre aquele 38.º andar…

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Ali, pensava em como esta nação milenar tem uma forte ligação com os mitos e as lendas, com a inspiração das crenças e superstições japonesas. Toda a mitologia japonesa apresenta narrativas fortes e envolventes que despertam para uma plenitude de reflexões e ensinamentos… Se atribuir ao país uma nova personagem me pareceu muito ambicioso, divertiu-me a ideia de o fazer com a irreverente cidade de Tóquio. Se esta urbe fosse uma personagem, seria decerto uma figura masculina. Imaginei um homem elegante e sofisticado, que bondosa e pacientemente se procura dar aos outros, embora haja ainda uma parte de si vazia, ou não fosse o seu olhar, por vezes, distante. Imaginei um homem pássaro, tal como o Hiyoku, um pássaro imaginário, de um olho e uma só asa. Assim como o homem, o pássaro sente-se triste e solitário, e não desiste de encontrar a sua outra metade. E quando um Hiyoku a encontra, conta a lenda que os seus corpos se unem, como feixes de trigo, formando um único ser. E nesta fusão, tornam-se únicos e voam, em pura liberdade.

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Ouço o Viajante Ilustrador a chamar-me. Amanhã esperam-nos novos destinos, mais histórias, múltiplas imagens e sentires. Nisto despeço-me do homem pássaro e agradeço-lhe por me relembrar que a vida é breve, e que só nos resta tempo para amar, sendo que, mesmo para isso, passa num instante.

Pouco descansamos naquela noite ou não tivéssemos de cedo voltar ao aeroporto. Entre modernos pássaros gigantes de metal acabamos por ver o nascer do dia, recordando que os japoneses, aquando do Ano Novo, costumam reunir-se e ir até ao litoral ou até alguma montanha para assistir ao primeiro amanhecer. Senti-me como que a iniciar um novo ciclo de vida, ora ansiosa, ora esperançosa. Folheei uma última vez o meu caderno e li baixinho um poema haiku de Matsuo Basho, antes de seguir viagem: “o coração viajante não se enraíza/ antes quer ser/ braseira ambulante”, e a alma sossegou.

in Revista Açores, 1 a 7 de janeiro

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Banhos que se estranham, até que se entranham // Hakone e Tóquio, Japão

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Antes do adeus a Hakone, voltei a um onsen pela… bem, acho que perdi a conta! Os onsen são fontes termais vulcânicas naturais, em muito apreciadas pelos japoneses (ou não fossem mais de 100 000 no país!), que ajudam a melhorar a saúde e, consequentemente, promovem uma melhor qualidade de vida. Se originalmente estas fontes termais consistiam em banhos mistos, com o passar dos anos tornaram-se em algo cada vez mais raro. Atualmente, a grande maioria dos onsen possui o banho separado para homens e mulheres, para além de proibir o uso de vestuário para o efeito. Confesso que, se nas primeiras vezes me sentia desconfortável, com o tempo comecei a identificar-me com um dos slogans mais famosos de Pessoa, “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”! Nos onsen somos seres livres de quaisquer espartilhos físicos, socioeconómicos ou culturais, decididos a abolir eventuais modelos sociais ou preconceitos, juntamente com falsos pudores e tristes vaidades. Naqueles dias pude assim testemunhar, em primeira mão, que aquelas fontes termais são claramente uma forma de conexão entre a natureza e as pessoas, onde é possível ter conversas transformadoras com estranhos, fazer amigos, assim como ver colegas de trabalho ou famílias a divertirem-se._dsc9463

Revitalizados pelo poder curativo da água, voltámos a Tóquio, em busca do Palácio Imperial. Conta a história que, em 1868, após a restauração Meiji e a resignação de Tokugawa Yoshinobu, a corte imperial japonesa mudou-se de Quioto para Tóquio, e o Edo-jo, a antiga fortaleza, foi convertida na residência do Imperador. Destruída durante a Segunda Guerra, foi reconstruída em 1968, sendo que a maior parte do palácio não está acessível ao público, à exceção do dia de aniversário do Imperador Akihito e do dia de Ano Novo. Porém, é possível visitar os Jardins Orientais, de forma a ter noção de como era esta área nos tempos áureos do Castelo Edo.

Depois de descansar um pouco o corpo e o espírito no Parque Ueno, seguimos até ao Museu Nacional, o mais importante do país em arte asiática. A ala Toyokan abriga uma extensa coleção de objetos da Coreia, China, Sudeste Asiático e Ásia Central, incluindo armas e esculturas. A ala Heiseikan é dedicada a itens arqueológicos das eras Jomon e Haniwa, a partir de 10.000 a.C.. O edifício principal Honkan exibe peças mais recentes, como espadas, armaduras e máscaras samurai, formando o mais completo conjunto de artefactos nipónicos do planeta._dsc2640

Um outro sítio imperdível em Tóquio é o complexo de templos Senso-ji ou Asakusa, ou não fosse o santuário budista mais antigo da cidade. Este foi, originalmente, erguido para preservar uma estátua da deusa Kannon, de apenas sete centímetros, encontrada no rio Sumida por dois irmãos pescadores. Logo à entrada, o imponente templo em vermelho e branco impressiona com o Kaminarimon (portão do trovão) e um distinto chōchin (tradicional lanterna de papel), sendo guardado à esquerda por Raijin, divindade do trovão, e à direita por Fujin, divindade do vento, de modo a afastar os maus espíritos e a dar as boas vindas aos seus peregrinos. No caminho do templo existem diversos rituais de purificação, quer através do caldeirão incensário, onde se pode espalhar incenso pelo corpo, quer através dos chafarizes de água purificada do templo, onde se pode beber da sua água e lavar as mãos. No final, podemos ainda tentar a sorte nos Omikuji (lotaria sagrada), onde, através de pequenos pedaços de papel enrolados, podemos desvendar qual será a nossa sorte para a vida futura. Nos arredores vale ainda a pena descobrir a chamada Nakamise, uma rua ladeada por lojas que vendem lembranças ou comidas típicas, assim como apreciar jardins ou outros templos, como um pagode de cinco andares, réplica do destruído aquando da guerra._dsc2628

Distraída no tempo, o Viajante Ilustrador relembrou-me da nossa sorte imediata, que nos convidava para um compromisso no Mandarin Oriental, no Tapas Molecular Bar, para aquele que seria o nosso último jantar no país do sol nascente. Afinal, nada como uma orgia gastronómica, repleta de pratos exóticos e com sabores inusitados, para aprendermos o poder dos cinco…

in Revista Açores, 18 a 24 de dezembro (págs. 28 e 29)

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Aos pé do Monte Fuji // Hakone, Japão

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Há uns anos descobri numa série de postais intitulada “Trinta e seis vistas do Monte Fuji”, uma das obras mais famosas de Hokusai, conhecido pela sua arte ukiyo-e, uma técnica de xilogravura japonesa. Talvez, numa primeira leitura, a maioria pense desconhecer, contudo se falarmos em “A Grande Onda de Kanagawa”, gravura que retrata uma enorme onda ameaçando a embarcação de pescadores, com o Monte Fuji ao fundo, decerto que surgirão exclamações do tipo “Oh, claro que conheço!”. Apesar de todas as obras desta série terem a sua importância, foi efetivamente com esta última que Hokusai ganhou prestígio.

Confesso que depois desta coleção, comecei a interessar-me pelo trabalho de Hokusai, como “Hokusai Manga”, que retrata a vida quotidiana do povo japonês de vários estratos sociais, utilizando uma visão caricatural. Outro facto interessante acerca deste artista é que também produziu obras relacionadas com a arte Shunga, entenda-se, trabalhos de arte erótica que visam uma perspetiva humanista do prazer mútuo entre homens e mulheres. De forma clara e inequívoca, onde o sexo é prazer e não pecado.

Ao pensar nisto, acabo por mergulhar em conceções freudianas, em que, divertida, imagino severas contendas entre as diferentes energias psíquicas, deliciando-me, especialmente, com aquela parte em que o “id” dá uma valente coça ao “superego”! Nesta viagem pela maionese, surge-me a controversa figura de Andy Warhol, com a sua famosa afirmação de que “O sexo é mais excitante na tela e entre as páginas, que entre os lençóis.” Será mesmo?…

De volta à realidade, percebo que chegámos a Hakone, uma área popular de fontes termais, sobretudo pela sua proximidade ao centro de Tóquio. Ali, em pleno parque nacional Fuko-Hakone-Izu, um dos destinos mais populares é o Vale Owakudani (ou do Inferno), criado por uma erupção vulcânica, aproximadamente, há 3000 anos._dsc2294

Antes de prosseguir, alerto apenas que qualquer semelhança com o Vale das Furnas é mera coincidência… ou não fosse ali possível ver uma zona vulcânica ativa com vapores sulfurosos, fontes termais e rios quentes, e até desvendar o mistério dos ovos negros de Owakudani (ou Kuro-tamago). Nas proximidades deste local, também encontrámos o lago Ashinoko ou Ashi, formado na caldeira do Monte Hakone, com o Fuji-san (ou Monte Fuji) ao fundo, ostentando os seus 3776 metros de altura. E que dizer do clima e da flora? Chuvoso, entre uma intensa bruma e um verde familiar! Aqui, deparámo-nos com os antepassados botânicos das azáleas, hortênsias e criptomérias que hoje decoram os Açores. Naqueles dias, senti o Viajante Ilustrador especialmente feliz, faltando-lhe apenas uma maçaroca de milho ou um bolo lêvedo para dizer que estava em casa…

Antes de nos aventurarmos na experiência dos onsen, a versão japonesa da Poça da Beija ou da piscina do Parque Terra Nostra, decidimos dar um passeio à volta do lago Ashi. Na verdade e embora o conceito de fontes termais não seja, em nada, estranho para os açorianos, as águas quentes assumem no Japão uma outra importância, merecedora da devida atenção e protagonismo._dsc2249

Durante a caminhada, descobrimos ainda o santuário Hakone-jinja, um local de culto da montanha de Hakone, por se tratar de um ponto de poder. Neste sítio de oração e esperança, e morada de árvores exuberantemente sagradas, abundavam proteções e poderes divinos, tais como a boa sorte no casamento e no parto._dsc2224

Como forma de celebração da natureza, decidimos ficar um pouco pela Porta da Paz, que flutuava graciosamente nas águas do Lago Ashi. Em silêncio, desejámos (tanto!) ver o imponente Monte Fuji, mas este teimou em não se revelar… Divertido, o Viajante Ilustrador lá me tentava animar, dizendo: “Percebes agora o que sentem os turistas que vão ver a Lagoa das Furnas, das Sete Cidades ou do Fogo? Se nos postais e nas fotografias é tudo lindo e maravilhoso, ali é só uma cortina de nevoeiro e sonho!”

in Revista Açores, 4 a 10 de dezembro (págs. 26 e 27)vi_19_ra.jpg

Apolvorados em takoyakis // Osaka, Japão

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Numa manhã estival, inclinada sobre uma das varandas do ferry, despedi-me da ilha santuário. Enquanto saboreava um resto de castella, que ainda guardava da nossa ida a Quioto, recordei uma frase de Thich Nhat Hanh, um autor de elevada humanidade que muito aprecio pelo seu pensamento crítico e reconciliador, capaz de nos libertar da impotência e mobilizar para a mudança. Não querendo desvirtuar as suas palavras, este monge budista de origem vietnamita terá dito que devemos caminhar como se os nossos pés beijassem a terra. Nisto, tive a certeza de ter beijado Miyajima.

Regressados a Hiroshima, voamos no comboio bala até Himeji, uma pacata cidade que poderia passar despercebida não fosse o seu imponente castelo, de uma beleza notável e de grande riqueza histórica.vi_18_02

O seu apelido de “Garça Branca” não se relaciona apenas com os elementos decorativos do castelo, nomeadamente, os seus beirais graciosos e curvos, mas principalmente com as suas paredes cobertas de alvenaria branca. Como os demais castelos da sua época, Himeji era feito de madeira, mas o acabamento em alvenaria aumentava a espessura das paredes, tornando-o resistente aos ataques com armas de fogo. Provavelmente poderão achar a imagem deste castelo familiar, ou não tivesse já servido de cenário em filmes como “007 – Só se vive duas vezes” (protagonizado por Sean Connery) ou “O último samurai” (protagonizado por Tom Cruise).

Após esta breve viagem até à história do Japão feudal, mergulhamos no Japão moderno de Osaka, a terceira maior cidade do arquipélago, embora seja a segunda mais industrializada. Decidimos tirar tempo para a percorrer a pé, e com o anoitecer, perdemo-nos numa espécie de neon party, onde os olhos acinzentados da vida tornaram-se coloridos, através de uma paleta de rosas, azuis, amarelos e verdes acentuados, criando uma experiência fotográfica vertiginosamente imersiva.

Começamos por Amerika-mura, um epicentro da cultura juvenil, também conhecido como “Harajuku do Oeste” ou “Shibuya do Oeste”, com referência aos famosos bairros de Tóquio. Passando pelo mercado de Shinsaibashi-suji que nos levou até à ponte de Ebisu-bashi, chegamos até ao bairro de Dotonbori, entre Nihonbashi e Daikokubashi. Ali cruzamo-nos com o Glico-Man a correr para nós, ultrapassando todos os cenários possíveis e imaginários. Não muito longe daqui, visitamos também o templo de Mizukake, dedicado à imagem de Amitaba Mizukake-fudo, onde pudemos observar as pessoas a verter água sobre a estátua, acreditando assim conseguir maior prosperidade nos negócios, bem como realização pessoal no amor.vi_18_04

Neste centro, as especialidades gastronómicas japonesas abundam nas ruas, de takoyaki a yakisoba, ou de yakiniku a ramen, nunca esquecendo o sushi. E sendo o assunto comida, tenho de partilhar que em Dotonbori, mesmo junto ao rio, provamos os melhores takoyaki de todo o Japão. Uma mistura de farinha de trigo, água, ovos e caldo de peixe, que é derramada para uma chapa com cavidades esféricas, juntamente com o recheio de polvo cozido e muitos outros ingredientes, sendo que no fim é adicionado um molho de takoyaki, maionese, aonori ou atsuobushi. Era fabulosa quer a rapidez, quer a técnica daquela malta a mexer os bolinhos, ao som de uma música teatralmente vibrante intitulada Takoyaki-Hallelujah! Sim, os japoneses vivem muito a sério a loucura deste bolo recheado com polvo…vi_18_03

Durante o tempo de espera na fila, uns estudantes contavam ao Viajante Ilustrador como esta iguaria surgiu nesta cidade nos anos 30, através de um vendedor ambulante; e como os moradores de Osaka alimentam uma obsessão por comida, tendo mesmo uma expressão própria para o efeito, que traduzida significa que aqui se deve “comer até cair”. Animado com a conversa, o Viajante Ilustrador respondia-lhes “Sou maior que vocês, mas vamos ver se me aguento!”; enquanto eu, estupefacta com aquele movimento veloz e automático, matutava “Isto são muitos anos a virar takoyakis…”

in Revista Açores, 20 a 26 de novembro (págs. 26 e 27)

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A cobiçada vizinha de Hiroshima // Ilha de Miyajima, Japão

No cais, o Viajante Ilustrador contava-me como a história de Sadako Sasaki o havia impressionado… Na altura do ataque, Sadako era apenas uma criança de 2 anos de idade, condenada a uma morte prematura, quando sobre si caiu uma chuva negra. Ou não fosse 10 anos mais tarde, receber o terrível diagnóstico de leucemia, a apelidada “doença da bomba atómica”.vi_17_03

No verão de 1955, a melhor amiga de Sadako, Chizuko Hamamoto, foi visita-la ao hospital e fez-lhe um origami de um tsuru, a ave sagrada do Japão. Conta uma lenda popular que aquele que fizer 1000 tsurus de origami terá um pedido atendido pelos deuses. Alimentando-se desta fé, Sadako passava os dias a fazer os seus tsurus e a desejar a sua cura. A menina apenas conseguiu fazer 646 tsurus, pelo que, após o seu falecimento, os amigos fizeram os restantes 354.

Como suspirou alto o meu coração quando avistou o transporte que nos levaria para a ilha de Miyajima, tamanha a vontade de mergulhar na vida. Esta ilha é, literalmente, um santuário, não só religioso, mas também histórico e ecológico. Considerada sagrada por ser a moradia de várias divindades e representada pelo templo xintoísta Itsukushima – nome pelo qual também é conhecida – não era permitido aos comuns mortais sequer lá viver, quanto mais dar à luz ou mesmo morrer. Atualmente, já não existe este tipo de proibição, mas a tradição permanece, não existindo maternidades ou cemitérios.

vi_17_02Durante a viagem, cruzámo-nos com diversas explorações de ostras, ou não fosse a região de Hiroshima, a maior produtora de todo o Japão. Esta paisagem logo nos abriu o apetite, e assim que pisámos em terra, fomos diretos ao Kaki-ya, o lugar perfeito para quem é apreciador desta iguaria. Decerto que a nossa larica, em muito, conseguiu superar a dos veados atrevidos que nos esperavam à saída do ferry, a fim de nos sacar algo das mochilas!

Após um belo almoço e um passeio descontraído pela rua principal, foi impossível resistir aos Momiji-manji, uns bolos em formato de folhas recheados com pasta de feijão, chocolate ou creme de ovo. Há que dizer que a curiosidade foi satisfeita, mas continuámos a preferir as ostras. Ainda tentei convencer o Viajante Ilustrador a comprar uma shamoji, entenda-se uma colher de pau, ou não estivéssemos perante a maior colher de arroz do mundo e símbolo da ilha, a Ōshakushi. Infelizmente, o melhor que consegui foi ser ameaçada por uma!

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Naqueles dias contemplámos o santuário de Itsukushima, mandado construir pelo senhor da guerra Taira-no-Kiyomori em 1168, e assente em pilares sobre a água, dando a ilusão de que flutua; o Senjō-kaku, um espaçoso edifício que tem o tamanho de cerca de 1000 tapetes tatami; ou o pagode de 5 andares, que se destaca pela sua cor rubra. Outro local impressionante foi o templo Daishō-in, o mais importante da seita budista Shingon, no sopé do Monte Misen. Apesar de ter bastante que ver, nomeadamente, a grande variedade de estátuas; o mais marcante é a cave Henjokutsu, onde se encontram várias representações de ícones budistas. Ali a fraca iluminação, aliada ao ar impregnado de incenso, fazem da visita a este local uma experiência singular. Assim, entre trilhos e paragens, lá chegámos ao centro da ilha, ao Monte Misen. Diz a lenda que Kobo Daishi terá passado 100 dias a meditar nesta montanha sagrada no ano de 806, tendo acendido uma chama que continua viva até aos dias de hoje. Esse fogo foi usado para acender a chama eterna do Memorial da Paz de Hiroshima.vi_17_04

Apaixonados pelo silêncio e pela quietude da ilha, à semelhança de Quioto, pernoitámos num ryokan. Ao meu olhar, uma casa mágica, ou não fossem as salas amplas, confortáveis e prosaicas de dia, transformar-se à noite em espaços intimistas, donos de uma poesia maviosa. Há momentos em que as palavras se tornam escassas e imprecisas, pelo que é nosso dever dispensá-las, de forma assertiva e simples. Há noites em que basta seguir o ancestral rito de descalçar os sapatos, vestir os quimonos, beber um chá e fechar as portas de correr com os seus pequenos quadrados de papel de arroz

in Revista Açores, 6 a 12 de novembro (págs. 26 e 27)

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Luz Branca, Chuva Negra e Árvores Sobreviventes // Hiroshima, Japão

“Hiroshima é uma cidade queimada, uma cidade de cinzas, uma cidade de morte, uma cidade de destruição, as pilhas de cadáveres são um protesto mudo contra a desumanidade da guerra.

[…] compreendi […] que a guerra é um assassino sádico dos seres humanos, sejam jovens ou velhos, sejam homens ou mulheres.”

Chuva Negra, Masuji Ibuse

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Quis o destino que visitássemos Hiroshima na mesma semana em que houve uma cimeira do G7, e naquela que foi a primeira vez que um presidente americano em funções, Barack Obama, visitou o Memorial do bombardeamento de 6 de agosto de 1945. Para os americanos, um mal necessário para colocar um ponto final na guerra e salvar vidas; para os japoneses, uma hecatombe!

Mas recuemos no tempo até 1918, data do fim da Primeira Guerra Mundial. Durante este período, eram claras as marcas profundas nos derrotados, especialmente na Alemanha, que tentava recompor-se apesar de se tratar do país com as punições de guerra mais severas. Situação esta que agudizou o descontentamento social, facilitando a ascensão de ideologias autoritárias. A Alemanha nazi de Hitler encontrava como aliadas uma Itália fascista de Mussolini e, posteriormente, um Japão liderado por Tojo Hideki e pelo imperador Hirohito, formando os Países do Eixo; enquanto os Aliados, com a liderança dos Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética, lutavam contra esta tríade de ideais expansionistas e militaristas.

Foi neste cenário de conflito bélico que, em 1939, Einstein convenceu Roosevelt a construir a bomba atómica antes que os alemães o assim fizessem, e bastaram apenas alguns anos de pesquisa, para no verão de 1945 esta bomba estar a ser testada com sucesso.vi_16_03

Nesta altura, já a Alemanha e a Itália se haviam rendido. Contudo, como símbolo do poder dos Estados Unidos, uma primeira bomba nuclear chamada “Little Boy”, acabou por ser lançada em Hiroshima; e três dias depois, uma segunda bomba, de nome “Fat Man”, em Nagasaki, colocava um fim à Segunda Guerra Mundial.

Do “Little Boy” sabe-se que detonou no ar, a 576 metros acima do Hospital Cirúrgico de Shima. A temperatura no núcleo da explosão foi de mais de um milhão de graus centígrados, e a três quilómetros de distância, a bola de fogo era múltiplas vezes mais luminosa que o sol! Os prédios sumiram com a vegetação, transformando a cidade num deserto.

Volvidas poucas horas, uma chuva negra caiu sobre o céu, carregada de radioatividade das cinzas. Os sobreviventes, desesperados e desidratados, tentavam beber a água que caía, não imaginando que mais males poderiam dali advir. No período subsequente, a evolução foi rápida e dolorosa. Para além de queimaduras e outras deformidades, as pessoas apresentavam sinais estranhos como a perda total de cabelo ou vómitos.

Na época, Hiroshima tinha cerca de 330 mil habitantes. O efeito imediato do bombardeamento vitimou cerca de 50 mil pessoas e feriu 80 mil. Nos meses e anos seguintes, outras 130 mil sucumbiram com os seus danos colaterais.

Depois de uma inquietante visita vi_16_02ao Museu e ao Memorial da Paz de Hiroshima, eu e o viajante ilustrador trocávamos impressões sobre o que havíamos visto, recordando o documentário “Luz Branca, Chuva Negra: A destruição de Hiroshima e Nagasaki”, que partilha os testemunhos emocionantes de sobreviventes ao ataque nuclear, conhecidos como “hibakusha”.

Atendendo aos efeitos da explosão, muitos recearam que nada mais medrasse nas décadas seguintes. Porém, na primavera imediata, novos brotos começaram a nascer nos solos estéreis e radioativos, e árvores surgiram, as chamadas “hibaku jumoku”. Hoje, 71 anos depois, a cidade ganhou vida, assumindo-se como um símbolo para a paz mundial.vi_16_04

Em Hiroshima sentimos o dever de nunca esquecer e nunca tolerar, que os nossos amigos ou inimigos voltem a ponderar semelhante realidade, cabendo a cada um de nós fazer cumprir a Humanidade. Sem subterfúgios: jamais poderemos justificar o injustificável!

in Revista Açores, 23 a 29 de outubro (págs. 26 e 27)

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Castella … à vista! // Japão, Quioto

Há tempos li um artigo sobre o novo documentário de Miguel Gonçalves Mendes, “O Sentido da Vida”. Conta a história de um jovem brasileiro portador de paramiloidose, uma doença rara e incurável de origem portuguesa. Talvez em busca de respostas ou, quem sabe, de esperanças, esse mesmo jovem decide traçar a rota daquela que se supõe ter sido a primeira viagem a disseminar esta enfermidade há 500 anos, por altura dos Descobrimentos. Apesar de ter achado um projeto deveras interessante e arrojado, ficará sempre na minha memória uma das músicas da banda sonora, uma versão do fado “Barco Negro” pela voz da cantora japonesa Kumiko Tsumori.

Como me alegra o coração ouvir Kumiko, ou não fosse a sua interpretação deste fado, em japonês – quem diria! -, trazer à tona as heranças portuguesas ainda presentes no Japão. Resquícios de um período em que o país sofreu grandes transformações, influenciadas pelo contato com o Ocidente, seja na culinária ou na língua, com mais de sessenta palavras de origem portuguesa ainda utilizadas no quotidiano japonês._dsc0749

Quando ouço aquele som, fecho os olhos e viajo até 1512, ao reinado de D. Manuel I. Neste tempo, chegava a notícia de que existiria um arquipélago, de nome “Cipango” ou “Ji-pangu”, local onde o sol nasce, em chinês. Segundo Marco Polo seria “uma ilha grande, de gente branca, de boas maneiras, formosos e de uma riqueza incalculável”. Esta descrição deixava o novo país envolto numa névoa de fabulosas fortunas!

Apesar das incertezas, os primeiros europeus a chegar ao país do sol nascente terão sido António Mota, Francisco Zeimoto e António Peixoto, após uma tempestade. Estes portugueses terão chegado num junco à praia de Tanegashima em 1543.

Em 1549, os jesuítas portugueses começaram logo a tentar evangelizar o Japão, e com a religião vieram também hábitos alimentares que ainda hoje perduram e se fundiram com a gastronomia japonesa, como a tempura, o pão, a kasutera ou a castella…_dsc0748

Daí até à introdução do pão-de-ló na cidade de Nagasaki, em 1571, passaram-se poucos anos, tendo esta doçaria, bem portuguesa, sido batizada como castella. Embora a origem deste nome permaneça uma incógnita, existem variadas teorias, desde o bolo ser preparado com claras em castelo, até ao facto de Portugal ter perdido a independência para Castela em 1580 e de os lusitanos passarem a ser conhecidos por castelhanos.

Numa tarde chuvosa tivemos o enorme prazer de conhecer a Castella do Paulo, um pedacinho de Portugal, em plena cidade de Quioto, na altura a ser decorado para celebrar os Santos Populares. Como foi engraçadíssimo observar bandeirolas, harmónios, lanternas, manjericos e sardinhas de papel, onde não faltava a poesia do povo! Este espaço tão deliciosamente “tuga” é propriedade de Paulo Duarte e da esposa japonesa Tomoko Duarte._dsc0783

Em 1992, o jovem Paulo viajou para o Japão, tendo trabalhado em Quioto como pasteleiro. Agora um chef experiente, reivindica ser o único estrangeiro que, até hoje, aprendeu a confecionar a castella em Nagasaki, na histórica casa Shooken.

Se encontrar Portugal no Japão nos causou satisfação, mas não surpresa, descobrir os Açores, provocou-nos um pasmo de maravilhamento! E não é que a Tomoko já veio dez vezes aos Açores! Até publicou um livro sobre a doçaria das diversas ilhas de bruma, no qual tenta documentar, em especial, as tradições das Festas do Espírito Santo, e voltou este verão a Santa Maria para aprender a fazer o biscoito de orelha. Nisto ainda nos conta que um dos bolos mais vendidos da confeitaria, sobretudo para casamentos nipónicos, é o açoriano… Nesse momento, quase desatei às gargalhadas quando olhei para a cara do viajante ilustrador, sem saber se aquela sua expressão de estupefação seria da castella que saboreava ou das tantas aventuras que a Tomoko tinha para partilhar. Sem dúvida, um caso para dizer: meme devéras ??!!_dsc0739

in Revista Açores (páginas 26 e 27) // 9 a 15 de outubro

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A velha e a nova Quioto // Japão, Quioto

Ser incompreendido tornara-se o meu único motivo de orgulho, portanto não me via compelido a desenvolver esforços para ser compreendido. (…) A minha solidão engordava dia a dia. Como um porco.

Este é um excerto do romance O Pavilhão Dourado, de Yukio Mishima, que decorre na região de Quioto, em especial no Templo Kinkaku-ji, e nos narra a história de Mizoguchi, órfão de pai e aspirante a sacerdote, que padece de um complexo de inferioridade insuperável devido à sua fragilidade física e, sobretudo, à sua gaguez. Uma obra inquietante de um autor que levou ao extremo a relação entre literatura e realidade, ao cometer o ritual suicida dos samurais, o seppuku ou harakiri.vi_14_01m

Lida a obra, ali estávamos nós: no Templo do Pavilhão Dourado, oficialmente chamado de Templo Rokuon-ji. O edifício original foi mandado construir por um shōgun de nome Ashikaga Yoshimitsu, sendo que, mais tarde, o filho converteu-o num templo zen budista. Este pagode de três andares, praticamente todo coberto de folhas de ouro puro, rodeado do lago espelhado Kyōko­chi e um belo jardim japonês é, com certeza, um dos locais mais visitados desta antiga capital do Japão.

Todavia, não menos procurado que a floresta de bambu do templo Tenryu-ji. Neste bosque silencioso, o murmúrio do vento faz balançar suavemente os pináculos de bambu com cor de jade, que nos guiam na esperança de encontrar um caminho mágico até possíveis destinos sonhados e, de alma, ansiados.vi_14_03m

vi_14_02mAbsortos em tamanha beleza, voltámos ao mercado de Nishiki. Aqui, no tempo em que não existiam frigoríficos, as abundantes águas subterrâneas juntamente com o cavado de poços eram usados para preservar o peixe. Atualmente, este antigo mercado de peixe é o mercado grossista central de Quioto, onde a maioria das lojas de peixe foi substituída por estabelecimentos de pickles, frutas, doces, e outros. Aqui desfrutámos de produtos e costumes da cozinha japonesa Washoku, caracterizada por um profundo respeito pela natureza, e a qual prioriza a sazonalidade dos ingredientes e a beleza da sua combinação.

Nesse final de tarde, arranjámos ainda bilhetes para o festival Kamogawa Odori no bairro de Pontocho. Aqui as gueixas apresentam, de forma brilhante e inesquecível, as suas performances públicas, quer na época das cerejeiras em flor, quer na época das folhas vermelhas dos bordos, celebrando a mudança de cada estação. Após uma cerimónia do chá, caracterizada por servir e beber o matcha (um chá verde pulverizado) em ambiente de simplicidade e de grande elegância em cada gesto de preparação, as gueixas exibem um espetáculo sublime de arte e dança, bem como uma veemente peça kabukiesque. Esta representação dramática é encenada por maikos (aprendizes) e gueixas, baseando-se no repertório kabuki, embora inverta a sua tradição, dado que é exclusivamente representada por mulheres, mesmo quando se trata de papéis masculinos.

Entre passeios, fotografias e palavras, lá acabamos por regressar ao hotel cápsula. Antes de seguir para a ala feminina e o viajante ilustrador para a masculina, perdemo-nos em mais dois dedos de conversa com um grupo de viajantes e os tipos da receção. Estes últimos explicaram-nos que este conceito de hotel surgiu no Japão no final dos anos 70, destinado a ser cama e abrigo para pessoas que trabalhassem até tarde e que já não conseguissem transporte para casa. Porém, nos últimos anos, tornaram-se populares devido à crise financeira global que atingiu a economia japonesa, havendo pessoas desempregadas que chegaram a ter de viver nesta realidade.vi_14_04m

Já deitada na cápsula, abri o meu caderno de notas e deparei-me com um poema haiku. Um haiku não deve durar mais do que uma respiração, para que ele coincida com a nossa intimidade:

Sob as amendoeiras em flor /Agita-se e fervilha/ a humanidade.

As luzes apagaram-se, mas a esperança permaneceu.

 

in Revista Açores – Açoriano Oriental (págs. 26 e 27) // 25 de setembro a 1 de outubro

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Viajar é despertar // Quioto, Japão

Ouço uma música instrumental, na qual rapidamente percebo tratar-se do meu despertador. Alone in Kyoto dos Air, é esse o som, com tanto de sonhador e contemplativo como de destemido e ousado, que me tem acompanhado todas as manhãs desde que aterrei no país do sol nascente. Senti-me uma bem-aventurada, ou não fosse finalmente ouvir essa música no sítio certo, naquela que foi a capital do império japonês por mais de 1000 anos.

Quioto possui uma quantidade infindável de templos e shrines (santuários) espalhados para todos os lados. Os templos, em geral, são de culto budista e os shrines são xintoístas. Ambos apresentam uma arquitetura maravilhosa e utilizam mormente a madeira, sendo até certo ponto semelhantes, pelo que é fácil confundi-los.

Mas essa confusão não é à toa! A própria história do budismo e do xintoísmo no Japão está estreitamente ligada, embora o xintoísmo seja de origem mais antiga. Porém, o mais comum, é o japonês se dizer seguidor de ambas religiões. É interessante, inclusive, como tanto o budismo como o xintoísmo não pedem exclusividade aos seus seguidores._dsc0203

No encalço da espiritualidade, começamos por visitar o milenar Kiyomizu-dera, o segundo templo mais antigo da cidade, fundado em 778, mesmo antes de Quioto se tornar capital. O seu nome significa “templo da água pura”, devido a uma nascente nas montanhas e à cascata de Otowa. A nascente é onde os fundadores Gyoei-koji e Enchin-shonin praticavam meditação, sentados debaixo da cascata. Atualmente, as águas estão divididas em três fluxos. A água de cada fluxo oferece, supostamente, um benefício diferente: longevidade, realização no amor e sucesso académico. Os visitantes são aconselhados a beber um gole de cada uma das águas de cada vez. Pois caso bebam dois goles, os benefícios são reduzidos para metade, e três, os benefícios são reduzidos para um terço, e quem bebe gananciosamente, não recebe nada. Indicações que refletem o antigo ensinamento de que não se deve ser ganancioso. Antes de beber da água, deve-se ajoelhar humildemente ao Gyoei-koji que está consagrado por trás da cascata de Otowa e purificar o corpo e a alma.

Mas o destaque do Kiyomizudera, tesouro cultural do Japão e patrimônio cultural da humanidade, é o edifico principal, o Hondo. Uma varanda que se situa num precipício, e que é apoiada por 139 pilares e 90 vigas que são somente encaixadas uma nas outras, sem utilizar pregos!

Também naquele complexo de edifícios e pagodes, vivemos uma das experiências mais interessantes dos últimos tempos, no denominado salão Zuigudō. Uma reconstrução de 1718, dedicada a mãe de Buda. Ali, depois de tirar os sapatos e pagar uma parca entrada de 100 yenes, participamos na Tainai meguri, uma peregrinação até ao seu _dsc0163útero.

Na descida somos surpreendidos por uma escuridão total, em muito incómoda, e para alguns, até assustadora. A única forma de orientação é agarrar uma corda que nos leva até uma pedra mal iluminada com uma imagem gravada em sânscrito, que simboliza o ventre de uma mãe. Entrar no Tainai meguri ensina-nos a confiar cegamente na nossa fé. Depois desta experiencia única, foi-nos dito que cada ser renasce e todas as suas orações são ouvidas.

Dali seguimos para Ishibei-koji, talvez uma das ruas mais bonitas de Quioto, até ao templo de Kodaiji. Construído por uma viúva em 1606 como uma homenagem ao seu falecido marido guerreiro, Kodaiji é um refúgio zen-budista com um interior ornamentado e jardins serenos, que sobrevive até hoje, após vários incêndios e batalhas, como uma demonstração de paz e tranquilidade.

Depois de recuperar energias no parque Maruyama-koen, partimos à descoberta do santuário Yasaka-jinja, no qual é adorado Susanoo-no-Mikoto; do templo Chion-in, onde se pode apreciar o maior portal duplo de madeira do Japão e as “sete maravilhas” do santuário; e do Shoren-in, um templo onde o Deus do fogo é venerado pela família Imperial._dsc0124

Terminamos o dia no Monte Inari a visitar o Fushimi Inari Taisha, um santuário xintoísta dedicado a Inari, deus do arroz, da fertilidade, da agricultura, das raposas, e do sucesso e prosperidade nos negócios. Com mais de mil toris vermelho-alaranjados, que simbolizam a transição para o sagrado, foi-me impossível não recordar de imediato o livro “Memórias de uma Gueixa”, de Arthur Golden, mas sobretudo a adaptação ao cinema de Rob Marshall. Ou não tivessem sido ali filmadas algumas das cenas mais marcantes desta película…

Em tom de brincadeira, perguntei ao Viajante Ilustrador, se não tinha curiosidade em ver uma gueixa, citando-lhe um trecho do filme no qual é dito que uma mulher quando caminha deve dar a impressão de ondas sobre um banco de areia… Atrevido e confiante, o Viajante anuiu, dizendo que tal havia de acontecer na estreita rua de Ponto-chō.

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À entrada daqueles 500 metros de ruela, paralelos ao rio Kamogawa, explica-se que este nome provém da palavra inglesa “point” (ponto), ou mais provavelmente da palavra portuguesa “ponte”, ou mesmo de “ponto”; e a junção com a palavra japonesa “-chō” que significa cidade, quarteirão ou rua. Distraída com a etimologia e origem da palavra perco de vista o Viajante Ilustrador, até que o contemplo ao longe com um largo e maroto sorriso e uma polaroid na mão…

in Revista Açores – Açoriano Oriental (págs. 26 e 27) // 11 a 17 de setembro

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