#3 Entre linhas maias e folias salvadorenhas // Guatemala e El Salvador

carlos brum melo

No adeus à Guatemala recordei um caleidoscópio que há uns anos me calhou em sorte num bazar. Em retrospetiva, olhar para este país é como ver através daquele tubo mágico. Aqui faz-se arquitetura e arte ao som de uma dança arrojada e única de cores, aqui a identidade maia sobrevive à modernidade. Um dos costumes que mais me fascinou e que (tão bem!) preserva este sentido de ligação e respeito pelos antepassados é o da tecelagem artesanal. Com o método de tear de cintura, uma forma de afirmação cultural, cada comunidade chega a ter o seu próprio padrão! Se na minha terra se diz que são as boas cozinheiras a conquistar os futuros maridos, por aqui o amor é entrelaçado pela mestria e pela fé das melhores tecedeiras. Todavia nunca esqueçamos que, para uma vida auspiciosa, é sempre bom tratar convenientemente os deuses!

carlos brum melo

Durante a viagem conhecemos um Xamã, uma espécie de líder espiritual, que ajuda os homens e as mulheres a encontrarem o amor, a prosperidade e a saúde. Mas afinal o que faz um Xamã? Estabelece a conexão entre o Homem e a Natureza. Numa cerimónia de fogo a que assistimos, este homem invocava os deuses, e através de uma fogueira com resina e velas de diferentes cores, representativas dos quatro pontos cardeais e elementos, libertava as impurezas do espírito. Aos deuses oferecia-se alguma comida e muita bebida alcoólica destilada, ou não soubessem estes viver bem! Contou-nos o filho do Xamã, o pequeno Max, que para criar o ser humano os deuses tiveram de fazer várias tentativas, que percorreram distintas fases e matérias como o barro, a madeira e o milho. Mas tudo isto e muito mais está explicado no Popol Vuh, um importante documento de compreensão da cultura maia.

carlos brum melo

“Estamos a chegar a La Hachadura!”, exclama Che.

Papeladas, algumas questões e longos minutos de espera. Passamos a fronteira. Uma linha invisível entre dois países. Em El Salvador as cores tornaram-se mais frias.

Afamado por ser um dos países mais violentos e perigosos do mundo, em agosto de 2015 apresentava uma média de 30 mortes por dia! Uma dura realidade para um povo que ainda cicatriza as feridas de uma sangrenta guerra civil de 12 anos e que vitimou milhares de pessoas.

No trajeto da Ruta de Las Flores descobrimos Juayúa. Uma cidade vibrante com uma forte herança colonial e que naquele mês de janeiro se encontrava especialmente repleta de gente… Algo ali se comemorava! Depois de um breve passeio de reconhecimento, paramos numa das barraquinhas daquilo que parecia ser uma festa de aldeia. Pedimos pupusas, um prato tipicamente salvadorenho que mais não é do que uma tortilha recheada com feijão vermelho cozido, queijo e/ou chicharrón (torresmo). Saciados da fome mas não da curiosidade, perguntámos a uma família sentada à nossa beira qual o motivo de tanta folia. O patriarca, filho da diáspora, explica que são as festas do Cristo Negro, de quem é devoto ou não tivesse vindo dos Estados Unidos para O celebrar.

carlos brum melo

Quisemos conhecer este Cristo Negro e contemplar a Sua imagem. Não pude deixar de pensar como num país com referência a Jesus Cristo, é tão difícil encontrar a paz, ou não se chamasse “o salvador”!

in Revista Açores, 10 de abril a 16 de abril

#2 Che, 100% chapin // Guatemala

“Lutam melhor os que têm belos sonhos”, disse-o um dia Che Guevara. Sentados no Parque Central de Antigua ouvimos a primeira de muitas histórias de Che… Não de Ernesto Guevara de la Serna, o argentino, mas de Ernesto Azurdia, o guatemalteco! Nascido e criado em Antigua, Che habituou-se a partilhar esta arrebatadora e charmosa cidade colonial com três vulcões: o Agua, o Fogo e o Acatenango.

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Não muito longe dali, noutro monstro de fogo e pedra, o vulcão Pacaya, vislumbrámos homens cowboys que de corpo solto ao vento, seguiam as rédeas do destino e brincavam com a sorte! Deliciado com as nossas caras de encanto perante tal imagem cinematográfica de liberdade romanceada, um velho cowboy experiente na cavalgada da vida meteu conversa connosco, enquanto assávamos marshmallows com a ajuda do calor daquele monstro. Eusebio descreveu que estar perto de um vulcão é como mergulhar na mente feminina. Se os diferentes vulcões têm formas próprias de se exprimir, as mulheres inventaram muitas mais. E nisto deixou um conselho ao viajante ilustrador: “se receias o silêncio de um vulcão, deverás temer muito mais o de uma mulher, ou não fosse devastador…”

Guate 02 - Foto 2

Maravilhosas e sonoras gargalhadas partilhámos com Che às custas desta lição, ou não fosse ele, como qualquer verdadeiro revolucionário, movido por grandes sentimentos de amor! A este propósito, Che contou que o maior sonho da sua gente é poder viver nos EUA, não importando se de forma legal ou não, o que interessa é que só há três maneiras lá chegar: de avião, de barco ou de “gringa”!

Nos dias seguintes percebemos claramente que Che havia herdado a rebeldia dos seus antepassados, assumindo-se como político durante alguns anos. Inspirado pelo avô materno, Froilan de León, Che contava que este seu familiar foi um membro ativo do partido comunista. Um camarada que, após duas ditaduras caracterizadas pelo despotismo político interno e pelo favorecimento dado aos investidores norte-americanos, ajudou Juan José Arévalo, um professor de filosofia, a ser presidente da Guatemala! Uma mudança de governação que, na opinião deste vaidoso neto, promoveu um quadro de reformas políticas e sociais que favoreceram os trabalhadores urbanos e os camponeses, retirando poderes ao pequeno número de grandes latifundiários e aos militares. Cumpria-se assim a insígnia guatemalteca “Libre Crezca Fecundo”, ou seja, “Livre Cresça Fecundo”. Esta política ainda foi seguida pelo sucessor de Arévalo, Jacobo Arbenz Guzmán, mas este acabou por ser deposto com o apoio do governo dos EUA em 1954. Na perspetiva de Che, esta situação acabou por limitar o país no seu eventual desenvolvimento, embora a proximidade entre estes dois governos tenha permitido criar as condições para a construção de um Estado de Direito.

Che é um idealista incorrigível, “100% chapin” (uma expressão genuína tão bem utilizada pelos guatemaltecos!), que na sua luta contra a injustiça social, apelava incessantemente à necessidade de um espírito incorruptível. Envoltos neste debate de ideias e em plena América Central, tão longe das nossas ilhas de bruma, demos a conhecer a Che um povo disperso não por nove ilhas, mas pelo mundo, falámos-lhe da condição de açorianidade e da luta pela autonomia, assente numa divisa que orgulhosamente nos define: “Antes morrer livres que em paz sujeitos”!

Che quis saber mais sobre os Açores, nós muito mais sobre a Guatemala, até que ficámos todos cansados de tanto querer saber! É importante descansar a cabeça e deixar o coração sonhar. Num desses momentos, perguntei a Che quais os seus maiores desejos, ao que respondeu sem hesitar: “uma boa relação com Deus, felicidade e êxito”. Curiosa questionei Che: “Que pensará Deus de ti?” Levantando-se em direção à carrinha retorquiu: “Anita, Deus não tempo para essas coisas, Ele tem muito que fazer e nós também. O presente é de luta e o futuro pertence-nos. Vamos, El Salvador está quase!”

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in Revista Açores, 27 de março a 2 de abril de 2016

#1 Merlin, o mago com alma de quetzal

Muito antes de saber sequer da existência do Lago Atitlán era já uma apaixonada por incríveis histórias e enigmáticas personagens. Na verdade foi esta paixão que um dia me levou até Aldous Huxley. Recordo-me do primeiro livro que li deste grande escritor, Admirável Mundo Novo, uma parábola que nos faz submergir numa sociedade que deixou, lamentavelmente, de dignificar o Homem.

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Sinto que devo, de algum modo, esta viagem a Huxley… Ou não fosse um dia estar a falar com um colega de universidade e aquele me dizer que adorava conhecer o Lago Atitlán, descrito por Huxley como um dos lagos mais bonitos do mundo. A vida foi generosa e, após quase doze anos, mergulho finalmente no Atitlán…

Depois de uns dias em Antigua, antiga capital da Guatemala, apanhamos um chicken bus. Estes velhos autocarros escolares americanos são vendidos em leilão e neste país de todas as cores recomeçam a sua vida. Se antes tinham vidas rotineiras, neste novo lugar levam uma vida amalucada, carregando a toda a velocidade pessoas e animais por estradas de terra e lama. A tinta amarela é substituída por murais coloridos e louvores a Jesus e a São Cristóvão, padroeiro dos viajantes e condutores. O Che (a conhecer em próximas aventuras!) contou-nos que os motoristas destes autocarros vão para o céu quando morrem, pois toda a vida os passageiros rezaram por eles!

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A travessia de barco entre Panajachel e San Marcos foi como se entrássemos noutra dimensão e ao desembarcamos no cais de madeira fomos invadidos por uma sensação de espiritualidade. Neste cantinho idílico com vista para o vulcão San Pedro descobrimos imensos centros de massagens, holísticos e de meditação. Para alguns pode parecer que não se passa muita coisa em San Marcos mas esta é, sem dúvida, uma das razões do seu encanto. Aqui só há uma regra: desfrutar da natureza e contempla-la com gratidão.

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Num final de tarde no Atitlán, sem relógio ou compromisso, tivemos o privilégio de conhecer o Merlin. Noutra vida batizado de Alain Galtie, este hippie do século XXI e adepto de comida saudável vive com quatro gatos felizes e lê calendários maias. Farto da sociedade automatizada e acelerada, Merlin decidiu transformar-se num conselheiro, não do Rei Artur, mas de todos. Este mago moderno é um homem com sangue e alma de quetzal que, como esta ave, morre quando privado de liberdade.

Talvez o Merlin, tal como o seu homónimo personagem, seja confundido com um louco que, na versão contemporânea da lenda, troca as terras europeias pelas guatemaltecas. Bizarramente sábio, o Merlin sorri com um olhar bondoso, o Merlin é… calidad!

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in Revista Açores, 13-19 de Março de 2016

100% chapin! foi com esta genuína expressão, e tão bem usada pelos guatemaltecos, que Eusebio nos cumprimentou enquanto assávamos marshmallows naquele monstro de fogo e pedra – o vulcão Pacaya. para Eusebio, homem experiente em matérias do coração, estar perto de um vulcão é como mergulhar na mente feminina. se os diferentes vulcões têm formas próprias de se exprimir, as mulheres inventaram muitas mais. antes da despedida, deixa um conselho ao viajante ilustrador: “se receias o silêncio de um vulcão, deverás temer muito mais o de uma mulher, ou não fosse devastador… “!

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