#6 A paragem forçada em Choluteca // El Salvador, Honduras e Nicarágua

Deixar El Salvador transportou-me para aquela sensação de ter terminado um livro, mas ainda continuar a pensar nele… Se a história desta viagem apresentou-nos a locais de horror e sofrimento, ficou sobretudo ancorada a testemunhos de força e esperança. O povo salvadorenho não é mau, como nos querem fazer crer, mas sim desenraizado. Trata-se de gente de coração corajoso, ou não lutasse diariamente entre caminhos e atalhos pela sobrevivência. Mas não basta garantir o pão na mesa, é preciso também encontrar um sentido de identidade. Não me refiro a uma identidade individual, mas a uma reconstrução do singular no coletivo. Na ausência deste sentimento de pertença, facilmente se sucumbe, em horas de fraqueza e desorientação, aos problemas de uma sociedade que vive ainda no imediato e no apelativo, de preferência fáceis. Não obstante, acredito na geração de Lenin, acredito que a mudança está muito além da lógica, acredito que só acontece quando a sentimos primeiro dentro de nós. Che pareceu concordar comigo, embora me referisse que este é ainda um destino que evita ou receia.

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Este guatemalteco ressalva porém que o local que mais o atemoriza estava a aproximar-se, as Honduras. Teríamos que atravessar uma pequena distância neste país para chegar até à
Nicarágua. Na verdade, bastou nem cinco horas para perceber o porquê do temor às Honduras. Homens armados e de olhares pouco amistosos caminhavam à beira da estrada, junto de casas humildemente gradeadas e repletas de propaganda politica com um histórico duvidoso. Por ali, passavam ainda a pé mulheres e crianças desconfiados com a nossa presença, e em especial da lente do viajante ilustrador. Aquele cenário, árido em afetos, remetia-nos para uma velha película de cowboys onde a qualquer altura poderia surgir uma rixa ou mesmo um duelo. Embora Che evitasse parar, por certos momentos lá o fazia para nos mostrar os muitos vendedores de iguanas que procuravam negócio com estes répteis vivos. Na verdade, ali não se encontravam animais de estimação, mas uma iguaria em muito apreciada por estes lados.

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Ainda distraídos por estes vendedores ilegais, fomos de imediato mandados parar pela policia hondurenha. Che, um guatemalteco com sangue comunista, parecia apreensivo e desconfiado com esta paragem forçada. Após uma breve conversa com os policias, voltou à carrinha para tirar do porta-luvas mais alguns documentos. Seguiram-se mais alguns dedos de conversa com a polícia, até que Che lá acabou por se dirigir até nós, demasiado zangado e indignado. Afinal de contas tinha toda a documentação necessária, contudo aqueles oficiais decidiram exigir um “novo” documento, alegadamente criado dias antes, para atravessar o país. Embora de acordo com o discurso da polícia, a ausência deste documento fosse grave, facilmente se poderia ultrapassar tal falha com alguns dólares americanos. Enquanto Che praguejava como forma de lamento com toda a corrupção neste país, olhei pelo vidro da carrinha de modo a me poder situar no mapa. Neste entretanto, apercebi-me que estava em Choluteca. Quase instantaneamente, não consegui controlar uma gargalhada sonora. De tal forma que Che e o viajante ilustrador me olharam confusos. No controlo de um riso com lágrima no olho, expliquei-lhes que nunca uma “chulice” havia sido tão bem enquadrada, ou não tivesse sido Che “chulado” em Choluteca!

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Entre a partilha de velhas histórias de outras viagens, lá acabamos por atravessar a fronteira da Nicarágua. Naquele dia fazia um calor insuportável, levando-nos a mais uma paragem, desta vez para beber uma Victoria, a cerveja nicaraguense. E dali o destino foi León. Perto das suas nuvens, tivemos o nosso merecido descanso, envoltos em tradições, arte e reminiscências coloniais, iniciamos um novo capítulo deste nosso viajário…

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#5 O Atlas de Lenin // El Salvador

Conviver com Lenin e sua família fez-me recordar uma parte (talvez esquecida) de mim. Porém, é-me impossível não dar uma feliz e sonora gargalhada ao pensar na ironia que é em plena América Central, depois de conhecer um Ernesto Azurdia, guatemalteco apelidado por todos como Che, cruzar-me agora com um Lenin em El Salvador… Interessante perceber o impacto da escolha de um nome na vida de uma pessoa! Mas este nosso Lenin não alimenta teorias ou práticas revolucionárias, apenas muitos desejos e sonhos. Com apenas 11 anos, este menino aspira ser vulcanólogo, querendo viajar pelo mundo para visitar todos os vulcões que puder. O viajante ilustrador não resistiu a contar-lhe com pormenor de onde vínhamos, e entre coordenadas e explicações mais ou menos científicas, os olhos de Lenin brilhavam como se refletissem reais explosões de pedra e fogo. E não é que o rapaz não descansou enquanto não encontrou o seu velho Atlas e descobriu os Açores?! Fruto da sua determinação e paciência, Lenin lá acabou por desenhar um círculo à volta do arquipélago. Não pude deixar de reparar como aquele Atlas exibia múltiplas anotações sobre possíveis vulcões a explorar. Recordei Eusebio, aquele velho cowboy que conhecemos aquando da visita ao vulcão Pacaya, afinal duas gerações tão distintas a partilhar da mesma paixão. Algo raro nos dias que correm…

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Lenin vive com a mãe Enelda e as irmãs Yas e Darling na casa de um tio paterno. Na verdade, não os achei felizes, mas sim conformados, pois houvesse a mínima hipótese de Enelda em se mudar com os filhos e esta iria sem olhar para trás. Não é fácil economicamente, explicava, sobretudo para uma mulher e ao menos ali estavam protegidos de uma realidade salvadorenha tantas vezes selvagem e dramática. Mas onde parava o patriarca daquela família? “Na América!” – respondeu a mãe sem rodeios ou hesitações. Partiu quando Lenin tinha apenas três anos e nunca mais lhe pôs a vista em cima. Passada quase uma década, dele pouco mais se sabe, além do dinheiro que manda mensalmente. Se outrora Enelda sofreu com esta distância, hoje confessa estar habituada. “Talvez até já tenha arranjado outra família!” – lança a dúvida de forma sarcástica… Contudo, naqueles dias percebemos que esta situação é a de muitas mulheres salvadorenhas, em que os maridos acabaram por emigrar e nunca mais pisaram aquela terra.

Talvez tenha ido para conseguir um futuro melhor para os filhos, pensamos nós, mas na verdade existia uma outra razão. O pai de Lenin foi uma das muitas vítimas da disseminação da violência pelo país. Enelda contou que o marido e o irmão mais velho deste eram ambos condutores de autocarros e um dia, já no final do trabalho, o seu cunhado que ia com algum avanço foi mandado parar por um grupo de homens, as conhecidas maras ou pandilhas de que Rafael Rivas nos falou aquando do nosso passeio. Os indivíduos entraram e sem qualquer dó ou piedade, ali o mataram a sangue frio. O pai de Lenin, enlutado e impotente, viu com os seus olhos o triste fim do seu querido irmão. Veio depois a polícia e pediu que ajudasse na identificação dos executores de tal bárbaro crime. Da verdade brotou o sofrimento e a trepidez, ao que o homem debandou. Fez-se um silêncio atemorizado, como se fosse menos assustador atirarmo-nos de um precipício vertiginoso. Não voltamos ao assunto. Yas perguntou-nos se gostaríamos de ver álbuns de fotografias e o ar ficou mais leve e o coração menos agitado.

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Entre imagens de felicidade e esperança, jantamos pupusas pela milionésima vez, mas que bem que souberam! Antes de anoitecer fomos dar um passeio. Lenin queria muito partilhar connosco um lugar secreto, a sua janela mágica para o mundo. A mãe falava com orgulho dos filhos. De como Yas estudava engenharia civil na universidade, ou não fosse tempo de combater aquela sociedade machista, de ter Darling quase a fazer a sua festa de 16 anos, e de Lenin, um menino curioso que sempre nos dizia que era bom caminhar, pois ajuda a pensar!

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As viagens vão muito além de mapas e destinos, estão nos laços de afeto que levam o nosso coração até às nuvens. Hoje recebi uma carta. Hoje regressei a terras salvadorenhas. Hoje, à semelhança de Lenin, coloquei no meu Atlas um círculo a rodear El Salvador.

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in Revista Açores, 7 a 14 de Maio

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#4 Pirilampos à prova de bala // El Salvador

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Rafael Rivas sabe do que fala! De cabeça cheia e de coração apertado, este homem conheceu os dois lados de uma guerra civil entre o governo salvadorenho e grupos paramilitares. Uma chacina que durou 12 anos e da qual resultaram (oficialmente…) 75 mil mortos. Esta violência crescente atingiu o seu ápice com o assassinato do arcebispo Óscar Romero, na tarde de 24 de março de 1980, enquanto celebrava uma eucaristia. Nos altares, Romero defendia o diálogo de paz e denunciava a injustiça social, os altos níveis de pobreza e os crimes políticos. Nisto relembro o filme Salvador de Oliver Stone, no qual o realizador se revela um claro simpatizante com a causa da esquerda revolucionária camponesa, fazendo uma dura crítica ao governo dos EUA, aos militares de direita e aos seus esquadrões da morte.

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Se Rivas entrou neste conflito pelo exército salvadorenho, rapidamente decidiu guerrear por convicção, ou não estivesse farto da repressão, das desigualdades e dos massacres diários. Como ele próprio conta, naquela época os jovens tinham apenas quatro opções, aliás três, se desconsiderarmos a possibilidade de serem mortos: aceitar alistar-se no exército salvadorenho, fugir do país ou ir para as montanhas e juntar-se à guerrilha.

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Bastante emocionado, Rivas conduziu-nos até à aldeia de El Mozote, em Morazán, e falou-nos do massacre que aqui começou na manhã de 11 de dezembro de 1981 e durou até à tarde de 13, pelo Batalhão de Reação Imediata Atlacatl. Todos os homens, as mulheres e as crianças foram aniquilados. Desta carnificina, apenas Rufina Amaya escapou porque, na confusão da matança, conseguiu esconder-se atrás de uns arbustos e aí ficou quieta e calada até os soldados se retirarem. “Deus salvou-me porque precisava de alguém para contar a história ao mundo”, escreve-o no seu livro Luciérnagas en El Mozote (tradução livre, Pirilampos em El Mozote). Logo depois do massacre, jornalistas americanos desceram ao terreno e um mês depois recolheram o testemunho de Rufina. Os governos salvadorenho e norte-americano começaram por negar os factos, alegando que tinha sido efetuada uma operação na região e apenas algumas dezenas de guerrilheiros tinham sido mortos. Mas Rufina persistiu e nunca se calou!

Este negro episódio da história salvadorenha não retirou qualquer esperança a este guerrilheiro nascido em Perquín, pelo contrário, fez-lhe brotar da alma uma coragem acrescida. Decidido a lutar nesta terra de insurgentes, este agora guia da Ruta de la Paz, relembrou onde tantas vezes foi buscar ânimo e determinação para as vitórias, à Radio Venceremos. Confessa ainda hoje ouvir as cassetes desta emissora clandestina, com vozes de amigos e amigas que há muito partiram, mas que encorajavam como ninguém a luta da extinta guerrilha esquerdista da FMLN. A emissão sempre começava por: “Radio Venceremos, a transmitir o seu sinal de liberdade desde Morazán, pela conquista da democracia e da paz para El Salvador. Radio Venceremos, a voz operária, camponesa e guerrilheira…”

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Distraído nesta lembrança, Rivas olha o horizonte e ganha fôlego para um presente comprometido e um futuro incerto nesta sua tão amada terra. Ao contrário do que seria de esperar, o fim da guerra significou para a maioria dos salvadorenhos o aumento da insegurança real e imaginada, a disseminação da ameaça e do inimigo na forma de maras ou pandilhas. Pedi esclarecimento, ao que Rivas me explicou tratarem-se de gangs constituídos por jovens de zonas pobres com origem na emigração salvadorenha nos EUA, grande parte repatriada para EL Salvador nos anos 90…

Sentada nas escadas do Museo de la Revolución Salvadoreña deixei de escutar Rivas, que entretanto debatia entusiasticamente possíveis soluções para o seu país com o viajante ilustrador. Não conseguia deixar de pensar em Rufina Amaya, a ver o fuzilamento do marido, a ouvir os gritos de horror dos seus quatro filhos… Agarrei no seu livro com força, como se através dele a pudesse abraçar. Rufina foi uma mulher pirilampo que na noite mais escura, escolheu iluminar a vida!

in Revista Açores, 24 a 30 de abril

#3 Entre linhas maias e folias salvadorenhas // Guatemala e El Salvador

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No adeus à Guatemala recordei um caleidoscópio que há uns anos me calhou em sorte num bazar. Em retrospetiva, olhar para este país é como ver através daquele tubo mágico. Aqui faz-se arquitetura e arte ao som de uma dança arrojada e única de cores, aqui a identidade maia sobrevive à modernidade. Um dos costumes que mais me fascinou e que (tão bem!) preserva este sentido de ligação e respeito pelos antepassados é o da tecelagem artesanal. Com o método de tear de cintura, uma forma de afirmação cultural, cada comunidade chega a ter o seu próprio padrão! Se na minha terra se diz que são as boas cozinheiras a conquistar os futuros maridos, por aqui o amor é entrelaçado pela mestria e pela fé das melhores tecedeiras. Todavia nunca esqueçamos que, para uma vida auspiciosa, é sempre bom tratar convenientemente os deuses!

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Durante a viagem conhecemos um Xamã, uma espécie de líder espiritual, que ajuda os homens e as mulheres a encontrarem o amor, a prosperidade e a saúde. Mas afinal o que faz um Xamã? Estabelece a conexão entre o Homem e a Natureza. Numa cerimónia de fogo a que assistimos, este homem invocava os deuses, e através de uma fogueira com resina e velas de diferentes cores, representativas dos quatro pontos cardeais e elementos, libertava as impurezas do espírito. Aos deuses oferecia-se alguma comida e muita bebida alcoólica destilada, ou não soubessem estes viver bem! Contou-nos o filho do Xamã, o pequeno Max, que para criar o ser humano os deuses tiveram de fazer várias tentativas, que percorreram distintas fases e matérias como o barro, a madeira e o milho. Mas tudo isto e muito mais está explicado no Popol Vuh, um importante documento de compreensão da cultura maia.

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“Estamos a chegar a La Hachadura!”, exclama Che.

Papeladas, algumas questões e longos minutos de espera. Passamos a fronteira. Uma linha invisível entre dois países. Em El Salvador as cores tornaram-se mais frias.

Afamado por ser um dos países mais violentos e perigosos do mundo, em agosto de 2015 apresentava uma média de 30 mortes por dia! Uma dura realidade para um povo que ainda cicatriza as feridas de uma sangrenta guerra civil de 12 anos e que vitimou milhares de pessoas.

No trajeto da Ruta de Las Flores descobrimos Juayúa. Uma cidade vibrante com uma forte herança colonial e que naquele mês de janeiro se encontrava especialmente repleta de gente… Algo ali se comemorava! Depois de um breve passeio de reconhecimento, paramos numa das barraquinhas daquilo que parecia ser uma festa de aldeia. Pedimos pupusas, um prato tipicamente salvadorenho que mais não é do que uma tortilha recheada com feijão vermelho cozido, queijo e/ou chicharrón (torresmo). Saciados da fome mas não da curiosidade, perguntámos a uma família sentada à nossa beira qual o motivo de tanta folia. O patriarca, filho da diáspora, explica que são as festas do Cristo Negro, de quem é devoto ou não tivesse vindo dos Estados Unidos para O celebrar.

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Quisemos conhecer este Cristo Negro e contemplar a Sua imagem. Não pude deixar de pensar como num país com referência a Jesus Cristo, é tão difícil encontrar a paz, ou não se chamasse “o salvador”!

in Revista Açores, 10 de abril a 16 de abril