Nomeação para Melhor Blogue de Fotografia de Viagens nos Blogger Travel Awards 2017 da BTL

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Última hora!

 

O Viajário ilustrado foi nomeado pelo júri para Melhor Blogue de Fotografia de Viagens nos Blogger Travel Awards 2017 da BTL Bolsa de Turismo de Lisboa , aquela que é a maior feira de turismo de Portugal. Os resultados da votação são divulgados no dia 18 de março.

Enorme gratidão pelo reconhecimento!

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#10 Em trânsito para um lugar estranho // À procura no mapa do país do sol nascente

Em trânsito para um lugar estranho // À procura no mapa do país do sol nascente

Revista Açores // 31 de julho a 6 de agosto

Ana Catarina Silva, a viajante

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Nasceu depressa tal a vontade de ver o mundo!

Criou-se numa casa em frente a uma linha ferroviária. Ao contrário dos que se mostravam preocupados com o ruído dos comboios, ela via em cada passagem, mil histórias por contar.

Um dia, sem malas feitas e apenas com bilhete de ida, seguiu num desses comboios, sabendo que flanaria pelo mundo em busca de histórias.

Carlos Brum Melo, o viajante ilustrador

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Com a bruma nas veias, e do longe da insularidade, avistou no mar uma miríade de futuros.

Ao pôr-do- sol, montava e desmontava sonhos até que decifrou que o seu rumo assentava na descoberta da complexidade do mundo e das relações entre os povos.

Na sua alma guardava a chave da sua expressão: a fotografia.

E dizem que nunca mais parou!

Enquanto viajante, senti que às minhas histórias faltava aquela luz que decompõe o rosto e expõe a alma. Por sua vez, paciente e perdido em ensaios, o viajante ilustrador sonhava com composições animadas pelas palavras dos homens. Ao que certa noite, como bons comilões de léguas que somos, cerramos os olhos e pedimos com coragem um desejo vertiginoso, daquele tipo que nos faz querer atirar de cabeça, mas cria tremeliques e dores de barriga: um viajário ilustrado! Um diário de viagens que começam e terminam na alma, coloridas com fotografias que fazem cócegas ao coração. Nisto a dona lua, cheia de propósitos e lições, lá nos tem iluminado o caminho. E embora ainda nos estejamos a tentar orientar nesta pluralidade de possibilidades – recordo a última crónica sobre Granada, Nicarágua, a qual termino questionado o viajante ilustrador: “estaremos na direção certa?” – o coração sentiu e a mente medrou.

Volvidos quatro meses de Viajário Ilustrado pela América Central, tempo durante o qual se tornou claro que ser viajante é ser malabarista, ora atirando ao ar a cautela ora o improviso, novos destinos agora se impõem…

Por estes dias os viajantes tiveram um novo teto. Há quem lhe chame aeroporto, nós preferimos chamar-lhe caixinha de surpresas… até podes saber o destino final, mas por vezes terás que improvisar o caminho até lá! Durante esse tempo decidimos recordar como tudo começou, pôr a leitura em dia, bem como a escrita.

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Bem, esperam-me 20 horas de viagem, ao que decidi principiar no avião uma nova leitura: O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey. A história de um pai que, depois de contagiado pelo filho no interesse por anime e manga (animação e banda desenhada de estilo japonês, respetivamente), decide visitar o país com um roteiro alternativo e pouco tradicional, em busca daquilo que designam como o “Verdadeiro Japão”. Uma narrativa curiosa e repleta de detalhes que colocam a descoberto a mania (tantas vezes instalada e reiterada) de que sabemos imenso acerca da cultura japonesa e que facilmente compreendemos o seu ponto de vista.

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Reflito, e partilho um pedacinho…

No Kabuki, a arte teatral japonesa que se distingue por sua famosa estilização dramática e pela maquilhagem produzida, Carey conta que, “deve haver uma cena em que duas pessoas estão despreocupadamente a falar; então, a partir de um detalhe da conversa, as personagens compreendem de repente os verdadeiros sentimentos uma da outra. Nesse momento, a acção é suspensa, os actores ficam estáticos, e do lado esquerdo do palco os badalos de madeira fazem battari! As duas personagens voltam à conversa como se nada tivesse acontecido; no entanto, no momento daquele battari!, tudo mudou. Enquanto muitas formas de teatro tentam preservar a continuidade narrativa, o Kabuki concentra-se nestes instantes cruciais de pausa e recomeço, recomeço e pausa”. O avião aterrou.

Fim de pausa.

O sol nasceu.

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#9 Dança com alma nica, Granada (Nicarágua)

Dança com alma nica, Granada (Nicarágua)

Cientes das fronteiras da palavra, os nicas recorrem à dança, de forma única e destemida, como linguagem universal. Percebi-o nas noites loucas do Via Via em Léon ou nos jantares em casa de Manuela, na humilde e paradisíaca ilha de Ometepe. Através da dança, escreve-se com o corpo, desfiam-se pequenas e grandes narrativas, sendo que cada movimento triste ou alegre torna-se sublime e indubitavelmente tão humano! Manuela contava que em pequena o médico da aldeia prescrevia muitas doses de música e dança por dia. É certo que nunca vi a dança como uma paixão, todavia devo confessar que nunca o corpo me havia desobedecido como ali! Endiabrado, deixava-se levar por ritmos quentes e irrequietos, nos quais o coração se soltava do peito.

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De corpo travesso e de olhos postos no vulcão Concepción, acenava demoradamente à ilha de Ometepe. Depois de alguns dias na tranquilidade e na beleza ainda intocada daquela ínsula, era tempo de descobrir a exuberante Granada, cidade fundada em 1524 por Francisco Hernández de Córdoba, e historicamente considerada cidade irmã de Antigua, na Guatemala.

Granada é encantadora, suficientemente grande para ter uma boa estrutura turística e pequena o bastante para continuar pacata, com traços de cidade do interior. Mal chegamos fomos até à Praça Central, onde se situa a catedral pintada de um amarelo resplandecente e contagiante. Daqui, rapidamente se alcança a Calle La Calzada, uma artéria pedonal que sai do parque em direção às margens do imenso lago Cocibolca. Um passeio de mais de um quilómetro que nos conduz até ao local onde parte um ferryboat semanal com destino à ilha de Ometepe.

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Não muito longe da Praça Central fica aquela que é por muitos considerada a mais bonita igreja de Granada, de seu nome La Merced, e na qual vale a pena a subida à torre do campanário. Há ainda a igreja de Xalteva, o convento e igreja de São Francisco e muitos outros exemplares da arquitetura religiosa colonial. Um passeio de charrete é igualmente um bom plano, permitindo uma visita guiada pela cidade. Na verdade, se estava resistente àquela experiência, demasiado americanizada ou não me fizesse recordar os passeios no Central Park, foi maravilhoso ter conhecido José que nos brindou com relatos sobre a cidade e os seus ilustres moradores.

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Granada deve ser percorrida com o devido tempo, ao sabor do instinto e dos encontros, sem rumo definido. Os dias constroem-se por si, à conversa com os nativos sentados num banco de jardim ou numa barbearia com mais de meio século. Numa manhã, a caminho do mercado municipal, cruzamo-nos com uma mítica carrinha “pão de forma” que transporta um inconformismo sem idade. Aquele que faz as gerações mais velhas terem vontade de recuar até ao passado e as mais novas a identificarem-se com o seu espírito livre e rebelde. No vidro de trás, alguém teve a ousadia de escrever uma lição maior: “Si no te dedicas a lo que te gusta, estas desperdiciando tu única vida”. Ao que questiono o viajante ilustrador: estaremos na direção certa?

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in Revista Açores – Açoriano Oriental (págs. 28-29) // 10 a 16 de julho

#8 Tragar a vida, como quem degusta um puro // ilha de Ometepe (Nicarágua)

Tragar a vida, como quem degusta um puro // Ilha de Ometepe, Nicarágua

Desde catraia que ocupo a minha mente a imaginar grandes epopeias. Nesse tempo, acabava por ser repreendida, pois os meus pais não gostavam lá muito desta minha mania, e defendiam que um dia ainda haveria de arranjar um problema (dos sérios) por pensar de mais… Restava-me suspirar e fazer de conta que dali em diante começaria a pensar menos. Afinal, o que seria da vida sem um toque da magia que derruba o impossível? Talvez por este motivo me seja tão difícil pensar no meio do ruído e da confusão dos outros, ou não fosse a minha cabeça barulhenta e o meu coração suficientemente desassossegado.

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Foi com esta minha “má” mania que cheguei à pequena aldeia de San Jorge, local de onde partem os barcos para a Ilha de Ometepe. Ali, imaginei a história de uma mulher que atormentada por um feitiço, se transformou numa ilha de pedra, protegida por dois gigantes de fogo. Sim, poderia ser o princípio de uma fantástica história… Mas voltando à realidade, quais os factos desta ilha? Nascida da união por um istmo de terra de dois vulcões – Concepción e Maderas – que emergiram das águas na sequência de sucessivas erupções, a última das quais em 1957, a Ilha de Ometepe é um paraíso ecológico. Para isso, conta com o lago Nicarágua que ocupa uma larga extensão do sudoeste do país e é apenas o maior de toda a América Central, apresentando uma “humilde” área de 8 624 quilómetros quadrados…

Entre fotos e blocos de notas, a modos de distrair o tempo, o viajante ilustrador metia conversa com um ocioso motociclista de estilo de vida incerta que lhe dizia que aquele lago era grande como o mar. Realmente, quando entrei no velho barco de madeira senti-me uma autêntica descobridora dos tempos modernos.

Vencendo as ondas encrespadas e os ventos manhosos, a verdade é que lá atracámos sãos e salvos! E se da tormenta restava memória, uma sensação de paz e tranquilidade nos acolheu naquelas terras vulcânicas. Se pintora fosse (bem que o tentei, mas falhei redondamente), faria uma bela tela composta por pequenas praias de areia escura, uma dúzia de aldeias em volta daqueles dois cones de lava e alguns homens e mulheres a trotear a cavalo.

Aquela tela passou naquele preciso instante a ser a nossa realidade! Ali pudemos desfrutar de encantadoras imagens, de revigorantes passeios pela floresta e de preguiçosas sestas, interrompidas pela curiosidade da pequena Carmen e pelo atrevimento do seu Manchita!

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Já há algum tempo que o viajante ilustrador tinha um projeto em mente, descobrir os “puros nicas”, os charutos nicaraguenses. Preso a este desejo, antes do início de cada alvorada, o viajante ilustrador punha-se a caminho da finca. Ao longo daquele caminho, tinha a companhia de bandos de macacos que ecoavam pela selva longos concertos de uivos guturais.

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Era recebido com uma caneca de café e um largo sorriso de Manuel Salvador Flores, o proprietário. Um homem de 58 anos, dono de uma serenidade invejável, que falava com paixão da sua esposa e dos seus cinco filhos! Trabalhador e visionário, começou desde tenra idade a dedicar-se ao cultivo de plátano. Hoje dedica-se apenas aquilo que o entusiasma: ao tabaco e ao café.

Se o seu café é de elevada qualidade, conta que o seu tabaco é simplesmente distinto. Ou não oferecesse o solo vulcânico de Ometepe uma riqueza diferenciadora em minerais, dando ao tabaco um sabor único, terroso e adocicado. Manuel partilhou connosco todo o processo de produção, desde a sementeira até à colheita e ao escoamento do produto. Falou de forma vaidosa de como o seu tabaco era vendido para uma das maiores e mais conceituadas fábricas, a Tabacos del Oriente, propriedade de Nestor Plasencia.

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Gostava de observar Manuel a enrolar de forma artesanal os charutos, num exercício de paciência e engenho, no qual contemplava o toque de cada folha, o aroma de cada elemento, o som do corte da “cabeça”, a degustação e a beleza daquele momento de prazer e de convívio. Naquele instante dava por mim a pensar: com ou sem charuto, quantas vezes nos deixamos envolver desta maneira pelos momentos, pelas pessoas, pela vida?

#7 Ama o teu ritmo // Léon e praia Las Peñitas, Nicarágua

Ama o teu ritmo // Léon e praia Las Peñitas, Nicarágua

Ali tão perto das nuvens, do alto da Catedral de León  (também conhecida por Basílica Catedral da Assunção de León), fecho os olhos e tento encontrar a pulsação da cidade. Léon preserva um espírito jovem, continuando com um batimento rápido e vibrante. Mas nesta sua velocidade tão própria, existe uma maturidade própria de quem tem experiência na vida, de quem já aprendeu a saber viver… Recordo um poema do fabuloso poeta nicaraguense Rúben Darío:

Ama tu ritmo y ritma tus acciones
bajo su ley, así como tus versos;
eres un universo de universos
y tu alma una fuente de canciones.

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Assim nos ensina Léon. Serena, ouço o “click” curioso da máquina do viajante ilustrador, ouço jovens universitários cheios de sonhos, ouço sons compassados de ferraduras em contacto com o empedrado das ruas, ouço a azáfama matinal no mercado central… e escuto o meu coração. Na busca pela identidade nicaraguense, volto a ativar os restantes sentidos e mal abro os olhos, feridos pelo mergulho na luz do branco celeste da cúpula, sinto-me leve e despreocupada, como as crianças que observo a correr no frontispício da imponente catedral.
Nessa manhã visitamos ainda a Igreja da Recoleção e a Galeria de Heróis e Mártires, que conta a história da revolução sandinista, um movimento de esquerda que derrubou o regime dos Somoza, uma família apoiada pelos americanos e que dominou o país por quarenta anos.

O viajante ilustrador mostrava-se inquieto para ir para as ruas, ver as suas gentes e fotografar almas “nicas”. As bancas de rua na praça central vendiam pratos de tradicional gallo pinto (arroz com feijão frito que acompanha a maioria das refeições, inclusive pequeno-almoço), vigorón, um prato composto por yucca frita (um tubérculo parecido com batata muito utilizado em vários locais da América Central e Caraíbas), chicharrón (torresmos, pele de porco frita) e salada de couve. Além destes e de outros petiscos, não faltavam frutas, principalmente bananas, e bastantes refrescos, em especial bebidas gaseificadas por vezes mais económicas que a própria água, como coca-cola e pepsi.

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Naquele dia, a deambular pelas ruas à sua descoberta, aconselharam-nos a ir até Las Peñitas e Poneloya, duas praias que estão a menos de trinta minutos de León, e nas quais o sol nos brinda com um dos mais belos entardeceres do Pacífico… Decididos a seguir esta apetecível sugestão, rumamos até Las Peñitas. Ali desfrutamos de um mergulho maravilhoso, de um ceviche nicaraguense (uma delicada mistura de peixe cru marinado, cebola, pimentas, sumo de lima, com mais um ou outro ingrediente nicaraguense secreto), acompanhado de uma refrescante cerveza Toña.

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Não fosse aquele mar como um polvo que nos parece querer prender entre os seus tentáculos. E nós, não por agonia, mas puro prazer, simplesmente não conseguimos dali sair. Ficamos “apolvorados” naquele instante.

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#6 A paragem forçada em Choluteca // El Salvador, Honduras e Nicarágua

Deixar El Salvador transportou-me para aquela sensação de ter terminado um livro, mas ainda continuar a pensar nele… Se a história desta viagem apresentou-nos a locais de horror e sofrimento, ficou sobretudo ancorada a testemunhos de força e esperança. O povo salvadorenho não é mau, como nos querem fazer crer, mas sim desenraizado. Trata-se de gente de coração corajoso, ou não lutasse diariamente entre caminhos e atalhos pela sobrevivência. Mas não basta garantir o pão na mesa, é preciso também encontrar um sentido de identidade. Não me refiro a uma identidade individual, mas a uma reconstrução do singular no coletivo. Na ausência deste sentimento de pertença, facilmente se sucumbe, em horas de fraqueza e desorientação, aos problemas de uma sociedade que vive ainda no imediato e no apelativo, de preferência fáceis. Não obstante, acredito na geração de Lenin, acredito que a mudança está muito além da lógica, acredito que só acontece quando a sentimos primeiro dentro de nós. Che pareceu concordar comigo, embora me referisse que este é ainda um destino que evita ou receia.

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Este guatemalteco ressalva porém que o local que mais o atemoriza estava a aproximar-se, as Honduras. Teríamos que atravessar uma pequena distância neste país para chegar até à
Nicarágua. Na verdade, bastou nem cinco horas para perceber o porquê do temor às Honduras. Homens armados e de olhares pouco amistosos caminhavam à beira da estrada, junto de casas humildemente gradeadas e repletas de propaganda politica com um histórico duvidoso. Por ali, passavam ainda a pé mulheres e crianças desconfiados com a nossa presença, e em especial da lente do viajante ilustrador. Aquele cenário, árido em afetos, remetia-nos para uma velha película de cowboys onde a qualquer altura poderia surgir uma rixa ou mesmo um duelo. Embora Che evitasse parar, por certos momentos lá o fazia para nos mostrar os muitos vendedores de iguanas que procuravam negócio com estes répteis vivos. Na verdade, ali não se encontravam animais de estimação, mas uma iguaria em muito apreciada por estes lados.

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Ainda distraídos por estes vendedores ilegais, fomos de imediato mandados parar pela policia hondurenha. Che, um guatemalteco com sangue comunista, parecia apreensivo e desconfiado com esta paragem forçada. Após uma breve conversa com os policias, voltou à carrinha para tirar do porta-luvas mais alguns documentos. Seguiram-se mais alguns dedos de conversa com a polícia, até que Che lá acabou por se dirigir até nós, demasiado zangado e indignado. Afinal de contas tinha toda a documentação necessária, contudo aqueles oficiais decidiram exigir um “novo” documento, alegadamente criado dias antes, para atravessar o país. Embora de acordo com o discurso da polícia, a ausência deste documento fosse grave, facilmente se poderia ultrapassar tal falha com alguns dólares americanos. Enquanto Che praguejava como forma de lamento com toda a corrupção neste país, olhei pelo vidro da carrinha de modo a me poder situar no mapa. Neste entretanto, apercebi-me que estava em Choluteca. Quase instantaneamente, não consegui controlar uma gargalhada sonora. De tal forma que Che e o viajante ilustrador me olharam confusos. No controlo de um riso com lágrima no olho, expliquei-lhes que nunca uma “chulice” havia sido tão bem enquadrada, ou não tivesse sido Che “chulado” em Choluteca!

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Entre a partilha de velhas histórias de outras viagens, lá acabamos por atravessar a fronteira da Nicarágua. Naquele dia fazia um calor insuportável, levando-nos a mais uma paragem, desta vez para beber uma Victoria, a cerveja nicaraguense. E dali o destino foi León. Perto das suas nuvens, tivemos o nosso merecido descanso, envoltos em tradições, arte e reminiscências coloniais, iniciamos um novo capítulo deste nosso viajário…

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#5 O Atlas de Lenin // El Salvador

Conviver com Lenin e sua família fez-me recordar uma parte (talvez esquecida) de mim. Porém, é-me impossível não dar uma feliz e sonora gargalhada ao pensar na ironia que é em plena América Central, depois de conhecer um Ernesto Azurdia, guatemalteco apelidado por todos como Che, cruzar-me agora com um Lenin em El Salvador… Interessante perceber o impacto da escolha de um nome na vida de uma pessoa! Mas este nosso Lenin não alimenta teorias ou práticas revolucionárias, apenas muitos desejos e sonhos. Com apenas 11 anos, este menino aspira ser vulcanólogo, querendo viajar pelo mundo para visitar todos os vulcões que puder. O viajante ilustrador não resistiu a contar-lhe com pormenor de onde vínhamos, e entre coordenadas e explicações mais ou menos científicas, os olhos de Lenin brilhavam como se refletissem reais explosões de pedra e fogo. E não é que o rapaz não descansou enquanto não encontrou o seu velho Atlas e descobriu os Açores?! Fruto da sua determinação e paciência, Lenin lá acabou por desenhar um círculo à volta do arquipélago. Não pude deixar de reparar como aquele Atlas exibia múltiplas anotações sobre possíveis vulcões a explorar. Recordei Eusebio, aquele velho cowboy que conhecemos aquando da visita ao vulcão Pacaya, afinal duas gerações tão distintas a partilhar da mesma paixão. Algo raro nos dias que correm…

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Lenin vive com a mãe Enelda e as irmãs Yas e Darling na casa de um tio paterno. Na verdade, não os achei felizes, mas sim conformados, pois houvesse a mínima hipótese de Enelda em se mudar com os filhos e esta iria sem olhar para trás. Não é fácil economicamente, explicava, sobretudo para uma mulher e ao menos ali estavam protegidos de uma realidade salvadorenha tantas vezes selvagem e dramática. Mas onde parava o patriarca daquela família? “Na América!” – respondeu a mãe sem rodeios ou hesitações. Partiu quando Lenin tinha apenas três anos e nunca mais lhe pôs a vista em cima. Passada quase uma década, dele pouco mais se sabe, além do dinheiro que manda mensalmente. Se outrora Enelda sofreu com esta distância, hoje confessa estar habituada. “Talvez até já tenha arranjado outra família!” – lança a dúvida de forma sarcástica… Contudo, naqueles dias percebemos que esta situação é a de muitas mulheres salvadorenhas, em que os maridos acabaram por emigrar e nunca mais pisaram aquela terra.

Talvez tenha ido para conseguir um futuro melhor para os filhos, pensamos nós, mas na verdade existia uma outra razão. O pai de Lenin foi uma das muitas vítimas da disseminação da violência pelo país. Enelda contou que o marido e o irmão mais velho deste eram ambos condutores de autocarros e um dia, já no final do trabalho, o seu cunhado que ia com algum avanço foi mandado parar por um grupo de homens, as conhecidas maras ou pandilhas de que Rafael Rivas nos falou aquando do nosso passeio. Os indivíduos entraram e sem qualquer dó ou piedade, ali o mataram a sangue frio. O pai de Lenin, enlutado e impotente, viu com os seus olhos o triste fim do seu querido irmão. Veio depois a polícia e pediu que ajudasse na identificação dos executores de tal bárbaro crime. Da verdade brotou o sofrimento e a trepidez, ao que o homem debandou. Fez-se um silêncio atemorizado, como se fosse menos assustador atirarmo-nos de um precipício vertiginoso. Não voltamos ao assunto. Yas perguntou-nos se gostaríamos de ver álbuns de fotografias e o ar ficou mais leve e o coração menos agitado.

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Entre imagens de felicidade e esperança, jantamos pupusas pela milionésima vez, mas que bem que souberam! Antes de anoitecer fomos dar um passeio. Lenin queria muito partilhar connosco um lugar secreto, a sua janela mágica para o mundo. A mãe falava com orgulho dos filhos. De como Yas estudava engenharia civil na universidade, ou não fosse tempo de combater aquela sociedade machista, de ter Darling quase a fazer a sua festa de 16 anos, e de Lenin, um menino curioso que sempre nos dizia que era bom caminhar, pois ajuda a pensar!

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As viagens vão muito além de mapas e destinos, estão nos laços de afeto que levam o nosso coração até às nuvens. Hoje recebi uma carta. Hoje regressei a terras salvadorenhas. Hoje, à semelhança de Lenin, coloquei no meu Atlas um círculo a rodear El Salvador.

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in Revista Açores, 7 a 14 de Maio

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#4 Pirilampos à prova de bala // El Salvador

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Rafael Rivas sabe do que fala! De cabeça cheia e de coração apertado, este homem conheceu os dois lados de uma guerra civil entre o governo salvadorenho e grupos paramilitares. Uma chacina que durou 12 anos e da qual resultaram (oficialmente…) 75 mil mortos. Esta violência crescente atingiu o seu ápice com o assassinato do arcebispo Óscar Romero, na tarde de 24 de março de 1980, enquanto celebrava uma eucaristia. Nos altares, Romero defendia o diálogo de paz e denunciava a injustiça social, os altos níveis de pobreza e os crimes políticos. Nisto relembro o filme Salvador de Oliver Stone, no qual o realizador se revela um claro simpatizante com a causa da esquerda revolucionária camponesa, fazendo uma dura crítica ao governo dos EUA, aos militares de direita e aos seus esquadrões da morte.

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Se Rivas entrou neste conflito pelo exército salvadorenho, rapidamente decidiu guerrear por convicção, ou não estivesse farto da repressão, das desigualdades e dos massacres diários. Como ele próprio conta, naquela época os jovens tinham apenas quatro opções, aliás três, se desconsiderarmos a possibilidade de serem mortos: aceitar alistar-se no exército salvadorenho, fugir do país ou ir para as montanhas e juntar-se à guerrilha.

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Bastante emocionado, Rivas conduziu-nos até à aldeia de El Mozote, em Morazán, e falou-nos do massacre que aqui começou na manhã de 11 de dezembro de 1981 e durou até à tarde de 13, pelo Batalhão de Reação Imediata Atlacatl. Todos os homens, as mulheres e as crianças foram aniquilados. Desta carnificina, apenas Rufina Amaya escapou porque, na confusão da matança, conseguiu esconder-se atrás de uns arbustos e aí ficou quieta e calada até os soldados se retirarem. “Deus salvou-me porque precisava de alguém para contar a história ao mundo”, escreve-o no seu livro Luciérnagas en El Mozote (tradução livre, Pirilampos em El Mozote). Logo depois do massacre, jornalistas americanos desceram ao terreno e um mês depois recolheram o testemunho de Rufina. Os governos salvadorenho e norte-americano começaram por negar os factos, alegando que tinha sido efetuada uma operação na região e apenas algumas dezenas de guerrilheiros tinham sido mortos. Mas Rufina persistiu e nunca se calou!

Este negro episódio da história salvadorenha não retirou qualquer esperança a este guerrilheiro nascido em Perquín, pelo contrário, fez-lhe brotar da alma uma coragem acrescida. Decidido a lutar nesta terra de insurgentes, este agora guia da Ruta de la Paz, relembrou onde tantas vezes foi buscar ânimo e determinação para as vitórias, à Radio Venceremos. Confessa ainda hoje ouvir as cassetes desta emissora clandestina, com vozes de amigos e amigas que há muito partiram, mas que encorajavam como ninguém a luta da extinta guerrilha esquerdista da FMLN. A emissão sempre começava por: “Radio Venceremos, a transmitir o seu sinal de liberdade desde Morazán, pela conquista da democracia e da paz para El Salvador. Radio Venceremos, a voz operária, camponesa e guerrilheira…”

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Distraído nesta lembrança, Rivas olha o horizonte e ganha fôlego para um presente comprometido e um futuro incerto nesta sua tão amada terra. Ao contrário do que seria de esperar, o fim da guerra significou para a maioria dos salvadorenhos o aumento da insegurança real e imaginada, a disseminação da ameaça e do inimigo na forma de maras ou pandilhas. Pedi esclarecimento, ao que Rivas me explicou tratarem-se de gangs constituídos por jovens de zonas pobres com origem na emigração salvadorenha nos EUA, grande parte repatriada para EL Salvador nos anos 90…

Sentada nas escadas do Museo de la Revolución Salvadoreña deixei de escutar Rivas, que entretanto debatia entusiasticamente possíveis soluções para o seu país com o viajante ilustrador. Não conseguia deixar de pensar em Rufina Amaya, a ver o fuzilamento do marido, a ouvir os gritos de horror dos seus quatro filhos… Agarrei no seu livro com força, como se através dele a pudesse abraçar. Rufina foi uma mulher pirilampo que na noite mais escura, escolheu iluminar a vida!

in Revista Açores, 24 a 30 de abril

#3 Entre linhas maias e folias salvadorenhas // Guatemala e El Salvador

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No adeus à Guatemala recordei um caleidoscópio que há uns anos me calhou em sorte num bazar. Em retrospetiva, olhar para este país é como ver através daquele tubo mágico. Aqui faz-se arquitetura e arte ao som de uma dança arrojada e única de cores, aqui a identidade maia sobrevive à modernidade. Um dos costumes que mais me fascinou e que (tão bem!) preserva este sentido de ligação e respeito pelos antepassados é o da tecelagem artesanal. Com o método de tear de cintura, uma forma de afirmação cultural, cada comunidade chega a ter o seu próprio padrão! Se na minha terra se diz que são as boas cozinheiras a conquistar os futuros maridos, por aqui o amor é entrelaçado pela mestria e pela fé das melhores tecedeiras. Todavia nunca esqueçamos que, para uma vida auspiciosa, é sempre bom tratar convenientemente os deuses!

carlos brum melo

Durante a viagem conhecemos um Xamã, uma espécie de líder espiritual, que ajuda os homens e as mulheres a encontrarem o amor, a prosperidade e a saúde. Mas afinal o que faz um Xamã? Estabelece a conexão entre o Homem e a Natureza. Numa cerimónia de fogo a que assistimos, este homem invocava os deuses, e através de uma fogueira com resina e velas de diferentes cores, representativas dos quatro pontos cardeais e elementos, libertava as impurezas do espírito. Aos deuses oferecia-se alguma comida e muita bebida alcoólica destilada, ou não soubessem estes viver bem! Contou-nos o filho do Xamã, o pequeno Max, que para criar o ser humano os deuses tiveram de fazer várias tentativas, que percorreram distintas fases e matérias como o barro, a madeira e o milho. Mas tudo isto e muito mais está explicado no Popol Vuh, um importante documento de compreensão da cultura maia.

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“Estamos a chegar a La Hachadura!”, exclama Che.

Papeladas, algumas questões e longos minutos de espera. Passamos a fronteira. Uma linha invisível entre dois países. Em El Salvador as cores tornaram-se mais frias.

Afamado por ser um dos países mais violentos e perigosos do mundo, em agosto de 2015 apresentava uma média de 30 mortes por dia! Uma dura realidade para um povo que ainda cicatriza as feridas de uma sangrenta guerra civil de 12 anos e que vitimou milhares de pessoas.

No trajeto da Ruta de Las Flores descobrimos Juayúa. Uma cidade vibrante com uma forte herança colonial e que naquele mês de janeiro se encontrava especialmente repleta de gente… Algo ali se comemorava! Depois de um breve passeio de reconhecimento, paramos numa das barraquinhas daquilo que parecia ser uma festa de aldeia. Pedimos pupusas, um prato tipicamente salvadorenho que mais não é do que uma tortilha recheada com feijão vermelho cozido, queijo e/ou chicharrón (torresmo). Saciados da fome mas não da curiosidade, perguntámos a uma família sentada à nossa beira qual o motivo de tanta folia. O patriarca, filho da diáspora, explica que são as festas do Cristo Negro, de quem é devoto ou não tivesse vindo dos Estados Unidos para O celebrar.

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Quisemos conhecer este Cristo Negro e contemplar a Sua imagem. Não pude deixar de pensar como num país com referência a Jesus Cristo, é tão difícil encontrar a paz, ou não se chamasse “o salvador”!

in Revista Açores, 10 de abril a 16 de abril

#2 Che, 100% chapin // Guatemala

“Lutam melhor os que têm belos sonhos”, disse-o um dia Che Guevara. Sentados no Parque Central de Antigua ouvimos a primeira de muitas histórias de Che… Não de Ernesto Guevara de la Serna, o argentino, mas de Ernesto Azurdia, o guatemalteco! Nascido e criado em Antigua, Che habituou-se a partilhar esta arrebatadora e charmosa cidade colonial com três vulcões: o Agua, o Fogo e o Acatenango.

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Não muito longe dali, noutro monstro de fogo e pedra, o vulcão Pacaya, vislumbrámos homens cowboys que de corpo solto ao vento, seguiam as rédeas do destino e brincavam com a sorte! Deliciado com as nossas caras de encanto perante tal imagem cinematográfica de liberdade romanceada, um velho cowboy experiente na cavalgada da vida meteu conversa connosco, enquanto assávamos marshmallows com a ajuda do calor daquele monstro. Eusebio descreveu que estar perto de um vulcão é como mergulhar na mente feminina. Se os diferentes vulcões têm formas próprias de se exprimir, as mulheres inventaram muitas mais. E nisto deixou um conselho ao viajante ilustrador: “se receias o silêncio de um vulcão, deverás temer muito mais o de uma mulher, ou não fosse devastador…”

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Maravilhosas e sonoras gargalhadas partilhámos com Che às custas desta lição, ou não fosse ele, como qualquer verdadeiro revolucionário, movido por grandes sentimentos de amor! A este propósito, Che contou que o maior sonho da sua gente é poder viver nos EUA, não importando se de forma legal ou não, o que interessa é que só há três maneiras lá chegar: de avião, de barco ou de “gringa”!

Nos dias seguintes percebemos claramente que Che havia herdado a rebeldia dos seus antepassados, assumindo-se como político durante alguns anos. Inspirado pelo avô materno, Froilan de León, Che contava que este seu familiar foi um membro ativo do partido comunista. Um camarada que, após duas ditaduras caracterizadas pelo despotismo político interno e pelo favorecimento dado aos investidores norte-americanos, ajudou Juan José Arévalo, um professor de filosofia, a ser presidente da Guatemala! Uma mudança de governação que, na opinião deste vaidoso neto, promoveu um quadro de reformas políticas e sociais que favoreceram os trabalhadores urbanos e os camponeses, retirando poderes ao pequeno número de grandes latifundiários e aos militares. Cumpria-se assim a insígnia guatemalteca “Libre Crezca Fecundo”, ou seja, “Livre Cresça Fecundo”. Esta política ainda foi seguida pelo sucessor de Arévalo, Jacobo Arbenz Guzmán, mas este acabou por ser deposto com o apoio do governo dos EUA em 1954. Na perspetiva de Che, esta situação acabou por limitar o país no seu eventual desenvolvimento, embora a proximidade entre estes dois governos tenha permitido criar as condições para a construção de um Estado de Direito.

Che é um idealista incorrigível, “100% chapin” (uma expressão genuína tão bem utilizada pelos guatemaltecos!), que na sua luta contra a injustiça social, apelava incessantemente à necessidade de um espírito incorruptível. Envoltos neste debate de ideias e em plena América Central, tão longe das nossas ilhas de bruma, demos a conhecer a Che um povo disperso não por nove ilhas, mas pelo mundo, falámos-lhe da condição de açorianidade e da luta pela autonomia, assente numa divisa que orgulhosamente nos define: “Antes morrer livres que em paz sujeitos”!

Che quis saber mais sobre os Açores, nós muito mais sobre a Guatemala, até que ficámos todos cansados de tanto querer saber! É importante descansar a cabeça e deixar o coração sonhar. Num desses momentos, perguntei a Che quais os seus maiores desejos, ao que respondeu sem hesitar: “uma boa relação com Deus, felicidade e êxito”. Curiosa questionei Che: “Que pensará Deus de ti?” Levantando-se em direção à carrinha retorquiu: “Anita, Deus não tempo para essas coisas, Ele tem muito que fazer e nós também. O presente é de luta e o futuro pertence-nos. Vamos, El Salvador está quase!”

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in Revista Açores, 27 de março a 2 de abril de 2016