Ganhando asas de papagaio // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

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Se antes já nos havíamos ocupado do fruto do cacau, na presente alvorada fomos presenteados com uma tentação. Na costa norte da ilha de Príncipe, esta assume o nome de Bom Bom Island Resort. Integrado em plena floresta tropical, entre colinas e praias paradisíacas, numa área designada pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera, este projeto celebra o equilíbrio entre a presença humana e o meio natural. A par de investimentos financeiros e de formação profissional na área do turismo sustentável, em particular na gestão e utilização da água, energia e resíduos, este promove também atividades como trilhos pedestres, excursões para a observação de aves e baleias, bem como passeios de canoa com pescadores locais. Aqui o tempo é dedicado ao inalienável direito ao prazer, ou não fosse fácil encantarmo-nos com o seu firmamento, assim como com as suas profundezas, onde a prática de snorkelling torna-se obrigatória para a descoberta ora de peixes exóticos, ora para a contemplação daquele colossal manto azul. Desejo de felicidade absoluta, versada em planos de liberdade sem freios, foi por nós ali cobiçada, à semelhança de Ícaro, que, imprudentemente, voou alto de mais e ao quase tocar o sol perdeu as suas asas de penas e cera. Liberdade, coisa traiçoeira e impiedosa, esta!

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Mas como diria Santo Agostinho, “Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência”, pelo que, celebrada a natureza, rumamos à cultura local, cumprindo com a Rota dos 4 Sabores, que incluiu a visita à Roça Paciência, onde produtos como o café, o cacau, a pimenta e a baunilha são dignificados. Perto das roças Belo Monte e Praia Inhame e outrora propriedade do Dr. Cupertino d’Andrade, hoje é um projeto de turismo integrado na agricultura, sujeita a um notável trabalho de restauro, funcionando como ainda escola de pedreiros. Um laboratório vivo de investigação e transformação de matérias-primas, representativas do universo de paladares e aromas da terra. Ainda, neste local de traça humilde e despojada, é impossível resistir à sua variedade de produtos de fabrico artesanal, desde as deliciosas compotas de cajá manga, sape sape, maracujá e ananás e creme de cacau, à maravilhosa mistura de muesli tropical.

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E porque nem só de alimento vive o Homem, conseguimos umas motas e acompanhados de Yorick, aceleramos até à Roça Trindade e desta seguimos até ao trilho do emblemático Pico do Papagaio, o mais concorrido pelos amantes de trekking por ser o que mais perto fica da cidade de Santo António e por se conseguir concluir no espaço de apenas meio-dia. Conquanto, foi ainda feita uma breve paragem, a fim de encontrar bom vinho de palma. Ou não fosse inevitável naquela ilha cruzarmo-nos com vinhateiros a cumprimentar-nos do cimo das palmeiras. Estes sobem a estas plantas, usando uns arames grossos que dão a volta ao tronco e prendem nos pés, para martelar a base das folhas, e lá espetar um garrafão que se encherá lentamente durante a noite. Depois basta esvaziá-lo para outro maior, filtrar a mistela com um funil e deixar fermentar um pouco. E eis que surge o vinho de palma, uma bebida muitíssimo apreciada, ou não fosse vendida pela módica quantia de 5000 dobras (o que dará talvez uns 0,20€?!) por caneca. De cor leitosa, embora o sabor seja estranho, não é nada mau, como que se de fruta se tratasse, mas menos doce, e a quantidade de álcool é fraquinha.

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Desvios feitos, avançamos, finalmente, para o Pico do Papagaio, a 680 metros de altitude, circundado pelo Parque Natural de Obô. Em amena cavaqueira, onde já se faziam planos notívagos de um jantarito na Rosita (Associação Cultural e Recreativa Rosa Pão) e uns copos no Mira Rio, tivemos o privilégio de observar macacos, pássaros endémicos e diversas plantas medicinais, sempre na expetativa de chegar ao cume e do seu alto ver a cidade mais pequena do mundo…

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Entretanto, as palavras sumiram-se. Que me restou? Uma dança de vitória! “I take it in, but don’t look down…/Cause I’m on top of the world, hey/ I’m on top of the world, hey” (On Top Of The World, Imagine Dragons).

 

in Revista Açores, 16 a 22 de julho

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Pedacinhos de terra rodeados de chocolate // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

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O dia amanheceu com chuva, apesar do calor e da opressiva humidade que se fazia sentia na chamada “jóia da coroa”. Enquanto esperávamos por Micky víamos miúdos a percorrer a cidade de Santo António à procura de garrafas de plástico. Curiosos com a situação, perguntamos o motivo de tal frenética caçada. Um dos gaiatos acabou por nos mostrar um panfleto com o mote “Plástico não. Um pequeno gesto está na nossa mão”. Tratava-se de uma campanha que pretende envolver a população na recolha do plástico, onde 50 garrafas podem ser trocadas por uma “Garrafa Biosfera Príncipe”. Esta última é reutilizável, em aço inoxidável e feita com materiais seguros e livres de plásticos, podendo ser reabastecida nos diferentes postos de água tratada e pura, instalados em toda a Ilha do Príncipe (classificada, desde 2012, como Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO). Tratando-se de uma razão de tal ordem nobre, juntamo-nos e colaboramos nesta recolha pelo ambiente.

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Volvido quase um par de horas, chegou o sereno e imperturbável Micky. De imediato, questionámos sobre se algo de errado ou grave haveria sucedido, até que ao nosso ar sério e grave, deu lugar um sorriso atrapalhado, quando ouvimos a nativa resposta de “móli móli”. Nisto percebemos que, mais do que uma expressão, esta simboliza a conjugação do verbo ser com o modo de vida santomense. Desconcertados com tal circunstância – ou não significasse aquela subtil chamada de atenção, uma urgente necessidade de desacelerar –, seguimos até à Roça Terreiro Velho, local pioneiro da cultura do cacau, debaixo de uma chuva fininha. Conta a história que esta planta do Brasil chegou à Ilha do Príncipe nas primeiras décadas do século XIX, inicialmente para fins ornamentais. Todavia, a cultura prosperou e o país tornou-se no maior produtor de cacau a nível mundial, tendo sido, mais tarde, disseminada para a Nigéria e Gana. De alguns anos a esta parte, esta roça é explorada por Claudio Corallo, um italiano que ousou revitalizar e aprimorar esta cultura, ou não fosse o cacau um dos alimentos sagrados para os Aztecas e para os Maias. Além do Terreiro Velho, Corallo tem ainda a plantação de Nova Moca, uma ex-dependência de Monte Café, na ilha de São Tomé. Nesta desenvolveu a cultura de café, sendo algumas das suas variedades das mais raras e requintadas do mundo, à semelhança do chocolate.

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Após uma lição pelo Micky sobre o cativante fruto do cacau, enquadrada numa paisagem absolutamente incólume, na qual sobressaia o pequeno ilhéu de Boné de Jóquei, tornar-se-ia inevitável, no nosso regresso a São Tomé, fazer uma visita à fábrica deste produtor. Naquele laboratório quase comestível, Corallo oferece-nos uma magnífica degustação de vários tipos de chocolate, e na qual eu tive a felicidade de encontrar o meu eleito: o de sal e pimenta. Ou não reverenciasse eu a combinação daquele sorvo inicial de salgado, que me recorda a minha tão saudosa terra-mãe de nome Aveiro, à beira ria e mar com as suas pirâmides de luz e sal; assim como me empurra (a pique) para a mordacidade, a vertigem e a ironia da vida. No meu mundo de fantasia, imagino Cláudio Corallo como uma espécie de Willy Wonka dos tempos modernos, realidade que me remete inequivocamente para o livro “Charlie e a Fábrica de Chocolate”, de Roald Dahl, que já mereceu duas adaptações para o cinema. É nesta simbiose entre memórias, afetos e duelos internos e externos, que recordo diálogos como “Afinal, onde está o sentimento no coração ou na cabeça?”

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Ainda nessa manhã o sol começou a espreitar entre as nuvens, e com ele veio uma incomensurável vontade de submergir no oceano. Às vezes, quase que me sentia uma tartaruga, tal o inesperado gosto pela água. Começamos por sondar a Praia Évora, mas acabámos por desfrutar do sol e do mar, assim como de uma bela grelhada de peixe, acompanhada de arroz e banana pála pála, na Praia de Ponta Mina. Mais do que um almoço convívio, um enaltecimento à oralidade das histórias.

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in Revista Açores, 2 a 8 de julhovi_32_ra

Pés na terra // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

E ao terceiro dia de viagem, aterramos na Ilha de Príncipe! Mais precisamente, 546 anos e 4 dias mais tarde que os primeiros navegadores portugueses, quando aquele pedaço de terra foi denominado de Ilha de Santo Antão ou Santo António Abade! Em verdade, o seu atual nome deveu-se à iniciativa do “príncipe perfeito”, D. João II, um rei que tanto estimava o seu único filho e herdeiro, Afonso, Príncipe de Portugal, que em sua honra decidiu batizar de “Príncipe” a ilha mais pequena do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Mal se poderia imaginar que, 16 anos mais tarde, este promissor mancebo iria encontrar o seu fim numa misteriosa queda de cavalo, e o pai, outras tantas angústias de sucessão…Mas história à parte, é absolutamente idílico aterrar naquela mágica ilha verde, naquele exíguo avião, como que a jeito de uma película de animação. Recordo-me de comentar, com um querido e grande amigo de São Jorge, que aterrar na Ilha de Príncipe nos reportava para a similar experiência vivida no arquipélago dos Açores, sendo que, até São Jorge, aquele vértice das ilhas do triângulo, tem bem mais habitantes do que Príncipe.

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À nossa espera estava o atento e paciente Micky, um benfiquista ferrenho que outrora desejou ser jogador de futebol, mas que as obrigações da vida acabaram por levar a melhor ao fintar-lhe esse sonho de infância e juventude. Enfim, não fosse a vida estar cheia dessas ousadias superiores…

Não perdemos tempo e logo nos primeiros vislumbres até Santo António, a cidade que tem lugar no Guiness como a mais pequena do mundo, foi evidente que aqueles dias seriam um antídoto para os males da alma.

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Chegados até à capital – em que a primeira impressão se prende, erradamente, a uma marginal decrépita, edifícios de arquitetura colonial em acelerado estado de degradação e meia dúzia de ruas esburacadas e quase intransitáveis – lá nos atiramos, sob os olhares mirones e curiosos dos nativos, para uma experiência genuinamente local na Pensão Palhota. De imediato, fomos avisados que a luz elétrica falha com frequência e que os restaurantes são poucos, pelo que convém marcar com antecedência, não pela eventual falta de mesa, mas pela ausência de comida.

Inquietos para começar a explorar, principiamos o nosso lento, duro e corajoso trajeto de 4×4, até à Ponta do Sol e depois à Roça Sundy, uma fazenda colonial, outrora casa da família real portuguesa e responsável pela maior produção do cacau e café._DSC8216Nesta roça encontram-se plantações de cacau e café, um hospital (todas as grandes roças da ilha tinham um hospital próprio), uma capela e vestígios de caminhos-de-ferro consumidos pela larica do capim e do tempo. Estes últimos serviam as locomotivas que transportavam o cacau entre as roças. Foi também neste lugar que Arthur Eddington (astrofísico britânico do início do século XX) provou a Teoria da Relatividade de Albert Einstein durante um eclipse total ocorrido em 1919. Contudo, naquele momento não haveria melhor “fórmula mágica” capaz de transformar aquilo que eu sentia (tantas vezes complexo) em algo simples, como um mergulho demorado, naquele mar, em que a paleta de cores oscila entre um verde-água e um azul-cobalto.

_DSC8205_DSC8162Micky quis levar-nos a uma das suas praias preferidas, à Macaco. Ali existiu outrora um projeto de hotel por parte de um português, que não passou disso mesmo, restando agora alguns bungalows, uma piscina de água estagnada e um restaurante engolido pela vegetação galopante.

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Naquele cenário, que nos faz recordar a série televisiva Perdidos, é permitido a qualquer sobrevivente de um quotidiano agressivo e implacável, recuperar os afetos de uma infância ingénua e despreocupada, com todo o seu rol de ambições e desafios. Naquele fim de tarde, recordei todos aqueles e aquelas com quem nos cruzamos e percebi que todos e todas (sem exceção) pareciam felizes. Todos e todas afirmaram ainda, de forma segura e indubitável, que viviam no paraíso ou no melhor local do planeta. E eu dei-lhes (tanta) razão…

in Revista Açores, 4 a 10 de junhora_31.png

Mil mergulhos de sal e de saber // São Tomé e Príncipe, da parte sul da ilha até à cidade de São Tomé

Depois de uma noite bem dormida na Roça de São João dos Angolares, era tempo de partir à aventura, no encalço de praias desertas e da selva tropical, naquele que é um paraíso no meio do Golfo da Guiné, sob a linha do equador.

A primeira paragem foi na bela praia de Micondó, uma enseada de águas tranquilas, rodeada por uma densa vegetação de coqueiros. Após uma breve pausa, na qual o Viajante Ilustrador prescindiu da praia para conhecer uma fratria que, à revelia de seus pais, preferiu trocar a escola por uns banhos sol e mar, voltamos à estrada.

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Da aldeia de Ribeira Afonso até à Roça de Água Izé, não nos faltaram imagens de gente de rostos gentilmente sorridentes que contavam histórias de superação e esperança. Embora não fossem possuidores de riquezas, aqueles homens e mulheres reiteravam no seu duro quotidiano a bem-aventurança de viver num país onde tudo cresce com uma abundância assombrosa, ou não houvesse, em cada pedacinho de terra, a possibilidade de rapinar umas frutas como bananas, fruta pão, sape sape, canjamanga, abacaxi, abacate, jaca, papaia, safu e mangustão.

A Roça Agua-Izé, também conhecida como “Fazenda da Praia Rei”, foi fundada em 1854, por João Maria de Sousa e Almeida, e tornou-se célebre pelo facto de o seu principal proprietário ser de origem negra. Tornada sede da Companhia da Ilha do Príncipe, foi a primeira roça de São Tomé a implementar a cultura de cacau, possuindo uma das maiores e mais avançadas plantações. Dispunha, inclusive, de um cais próprio para a exportação e uma grande linha férrea.

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Contudo, Água-Izé não tem entradas nem limites bem definidos. Na zona baixa localiza-se a casa da administração, as oficinas, as serralharias, as carpintarias e os armazéns, sendo que a área das sanzalas distribui-se ao longo da encosta e os dois hospitais estão implantados na zona alta da estrutura da roça. A maioria dos edifícios existentes data de 1910-1920, incluindo o antigo hospital, erguido no ano de 1914.

Um pouco mais à frente cruzamo-nos com a Boca do Inferno, um local onde o mar é ventado por uma abertura nas rochas, como se nos empurrasse rapidamente, no sentido da cidade de São Tomé. Antes da capital, temos de passar pelo bairro de pescadores do Pantufo ou atravessar vila de Santana.  Pela primeira, serpenteamos a energética vibração são-tomense, pela segunda, encontramos no Club Santana, uma alternativa para quem prefere o conforto de uma praia privativa.

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Chegados à cidade, aproveitamos para dar uma voltinha pelo mercado para reconhecimento de local, de modo a que pudéssemos ficar a conhecer alguns dos melhores produtos locais daquela ilha, e deambulamos por uma das muitas heranças portuguesas, através de um passeio costeiro pela Baía Ana Chaves até ao Forte de São Sebastião.

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Mas rápido se fez noite e com ela veio uma imensa larica, pelo que nos aventuramos à descoberta do tão bem-afamado restaurante da Dona Teté! É no quintal desta linda e perfeitamente arranjada mulher – tal a elegância que ostentava do seu vestido de capolana colorido – que podem ser degustadas diversas iguarias como choco, polvo e uma outra tanta diversidade de peixe como cherne, barracuda, corvina ou pargo grelhados no carvão, preparados com um molho secreto, e acompanhados da famosa fruta-pão assada, banana frita e legumes.

Já para o fim da noite, a Dona Teté sentou-se à nossa beira e, de forma crua e honesta, confidenciou-nos as suas duras escolhas de vida, as suas histórias de amor e desamor, as suas viagens desejadas e concretizadas, as suas recentes perdas e futuras ambições. Uma mulher vitoriosa que aprendeu a sonhar e a temperar a vida dos outros com o coração…

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in Revista Açores, 21 a 28 de Maio

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Os três mosqueteiros na roça // São Tomé e Príncipe, na parte sul da Ilha de São Tomé

Entre viagens é quase inevitável não dar por mim a debater com o Viajante Ilustrador sobre um dos maiores problemas filosóficos desde a Antiguidade: a passagem do tempo. Independentemente de recorrermos a argumentos, outrora veementemente defendidos por Platão, Aristóteles, Kant ou Hegel, acabamos sempre por concordar que a medida do tempo se torna subjetiva, quando cada um a pode percecionar de forma distinta, conforme as circunstâncias. Em verdade, devo admitir que estas tertúlias costumavam terminar com um suspiro, tal o lamento provocado pela escassez do tempo, desejando ambos, numa só vida, poder viver mil vidas!

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Porém, após esta viagem a São Tomé e Príncipe, iniciamos um processo de transformação. Este pedaço de terra, brotado de erupções vulcânicas e rodeado pelo mar, elucidou-nos acerca da palavra “transitoriedade”. Efetivamente, esta ganhou, neste país, uma renovada significação. Ali percebemos, de forma autêntica e humilde, que a finitude apenas faz com que tudo se intensifique, impondo a todos os que por ali passam uma nova medida de tempo. Se na maior ilha do arquipélago santomense se vive sobre um ritmo “leve-leve”, na mais pequena, é tudo ainda mais fácil e devagar, apropriando-se estas gentes de sorriso fácil da divisa “móli-móli”.

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São Tomé e Príncipe ensina-nos, desde o primeiro instante, a ser serenos e pacientes. Naquele que é um dos países mais pequenos de África, mas sobretudo um dos mais pacíficos naquele continente, respira-se uma brisa quente, húmida e aromatizada pelos frutos de cacau e café. E não fosse esta jornada, já em si, uma espécie de experiência social, tivemos o prazer de contar com a companhia do nosso bom amigo e viajante, Tiago Páscoa.

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Ao volante de um todo o terreno, decidimos principiar a nossa jornada pelo sul de São Tomé, até que, entre solavancos, abanões e travagens bruscas – uma espécie de treino para o que iriamos encontrar na virgem Ilha de Príncipe – lá estávamos nós mergulhados nas águas quentes e límpidas dos trópicos a beber uma água de cocô, mais concretamente, na bonita e selvagem praia Jalé. De seguida rumamos até à praia Piscina, que deve o seu nome à sua morfologia, numa envolvência tropical de um mar calmo, areias douradas e pinceladas de verde (tal os altos coqueiros ali residentes!). Logo ali perto, encontrámos também a praia Inhame, onde refrescados pela cerveja nacional Rosema, projetamos com o Didi, irmão de um dos pescadores locais, uma futura visita até ao Ilhéu das Rolas.

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E porque o ar do mar abre o apetite e dá sede, depois de uma breve pausa pela aldeia piscatória de Ribeira Peixe, abalamos até à Roça de São João dos Angolares do famoso João Carlos Silva. Afinal, quem não se recorda daquele programa televisivo, “Na Roça com os Tachos”?…

Chegados à Roça, de imediato, ficamos apaixonados por aquela antiga herdade que remonta aos tempos da colonização portuguesa. Tal como outras, é dotada de uma casa principal, hospital e senzalas. Aquele antigo palácio de administração, onde outrora moravam os patrões, é hoje uma pousada histórica recuperada, que respeita todo o traço original, com uma plantação ecológica e um projeto universal de arte contemporânea. No antigo hospital pode-se encontrar o Hospital da Criação, um projeto da Roça Mundo que visa o ensino do artesanato e das artes locais às mulheres daquela localidade, como forma de rendimento e inserção numa sociedade carenciada.

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Este local garante a qualquer indivíduo a oportunidade de se fundir com a Natureza, convidando-o a libertar-se de constrangimentos impostos pela atual era digital, onde a conectividade global progride a um ritmo inédito e avassalador, para simplesmente ouvir o acalentar do vento ou o chilrear dos aves endémicas que ali moram…

Após algum tempo de sossego e ócio, lá fomos nós, à laia de três mosqueteiros, fruir de um encontro na magnífica varanda daquela reinventada roça para degustar, sem pressa, alguns pratos típicos, mas também uma fusão de sabores africanos. Um dia encantador, no qual se exortou a amizade, a relação fraterna e altruísta entre os homens, advogando-se ainda o valor da honra e da justiça a par da aventura!

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in Revista Açores, 7 a 13 de Maio

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Uma despedida sobre a bruma marroquina // Zagora, Ouarzazate e Marraquexe, Marrocos

Numa breve pausa para um chá em Zagora, na qual apreciava um bonito ornamento na porta de um edifício, o Viajante Ilustrador apontava, entusiasticamente, na direção das pequenas dunas de Tinfou. Atento à minha distração com tal amuleto, Hammou falou-me de Hamsá, a mão de Fátima, filha do Profeta Mohamed, salientando que este era um símbolo de paciência, fé e resistência contra as dificuldades. De acordo com uma crença comum, a mão de Fátima tem sido um talismã de boa sorte e um dos mais populares no mundo islâmico para a proteção, pelo que as pessoas tendem a pendurá-la nas portas ou nas paredes das casas.

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Ansiosos por chegar até ao outro lado das montanhas do Atlas, identificamos um conjunto de locais para explorar, na apelidada Hollywood de Marrocos, desde o Museu Kasbah de Taourirt, a praça Al-Mouahidine, os Estúdios de Cinema Atlas, os Estúdios de Cinema CLA até ao Kasbah de Tifoultoute. Por seu turno, o bairro de Tassoumaat, na antiga Medina, mesmo junto ao rio, assim como o lago Al-Mansour Ad-Dahbi, o Kasbah des Cigognes e os mercados foram também referenciados como boas alternativas.

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Ouarzazate, à semelhança da maioria das novas cidades no Saara, foi criada para servir de base para a Legião Estrangeira, tendo, no final dos anos 20 do século XX, assumido a forma de centro administrativo por parte dos franceses. Porém, na década de 80, esta cidade desenvolveu-se com a chegada de turistas em busca de aventura no deserto, ganhando especial destaque em virtude da atenção concedida pela indústria cinematográfica às paisagens envolventes. Por aqui filmaram-se grandes sucessos de Hollywood, como Lawrence da Arábia, Gladiador, O Reino dos Céus, O Príncipe da Pérsia, A Múmia, e mais recentemente alguns episódios da série A Guerra dos Tronos. Rodeada por oásis, palmeirais e montanhas desérticas, Ouarzazate possui atrações suficientes para manter ocupado qualquer visitante por uns dias.

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A nossa semana chegava ao fim, e com ela a hora de regressar a Marraquexe. Dali partiríamos para outro destino. Contudo, e mesmo antes da despedida, já dava por mim a sentir saudades deste país misteriosamente cativante. Naqueles dias, e graças ao nosso querido e bom amigo Hammou, começamos a entender melhor um pouco da complexa história daquela região, que ao longo dos séculos, foi objeto de desejo de muitos impérios, ou não tivesse sido acometida a várias invasões de árabes e europeus (inclusivamente de portugueses!), tendo apenas conquistado, em 1956, a sua independência! 

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Após adquirirmos as mais frescas especiarias no mercado tradicional de Mellah, naquela que seria a última das noites em Marrocos, deixamo-nos enrubescer pelo nosso sangue lusitano, ao invocar para a conversa a personagem histórica de D. Sebastião. Conhecido por “O Desejado” ou “O Adormecido”, transformou-se num mito após o seu desaparecimento na batalha de Alcácer Quibir, no norte de África. Neste último grande debate em terras africanas, entre dois portugueses e um árabe, corajosa e patrioticamente, discutiu-se a contemporaneidade deste mito messiânico, baseado na esperança da vinda de um Salvador, que libertaria o povo e restauraria a glória e o prestígio nacionais, como tão bem Sérgio Godinho entoa no seu tema Demónios de Alcácer Quibir.

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Ainda hoje se espera pelo retorno de D. Sebastião que, segundo a profecia, far-se-á numa manhã de nevoeiro, montado no seu cavalo branco, vindo de uma longínqua ilha onde esteve à espera da hora de regressar. Ora saturados de um entorpecedor saudosismo, ora de uma ideia derrotista de perda da identidade nacional, ali reiteramos um veemente “basta!”, decidindo, para além de um abraço de profunda gratidão, deixar a Hammou uma visão de esforço e de grandeza sobre os muitos heróis portugueses que acreditaram poder ir mais além, sobre a terra e sobre o mar…

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in Revista Açores, 23 a 29 de abril

Flanar, uma ânsia de vagar e de narrar // Algures nas montanhas de Jbel Saghro, Marrocos

Mal alvoreceu começamos a caminhar, ou não tivesse ficado o Viajante Ilustrador empolgado com a possibilidade de se encantar com a beleza das paisagens, mas sobretudo com a possibilidade de se cruzar com a autenticidade das gentes nómadas.vi_27_03m

Durante esta jornada recordei uma palavra, da qual gosto especialmente: flanar. Etimologicamente, esta elocução deve a sua origem ao verbo francês flanêr que significa caminhar sem destino certo, de modo ocioso, ou como afirmava Honoré de Balzac (de forma encantadoramente deliciosa), “flanar é uma ciência, é a gastronomia dos olhos”. Perante tal visão, não posso deixar de imaginar os viajantes quase como críticos gastronómicos, que sofrem de um apetite voraz por experiências humanas, ora previamente concertadas, ora fruto do acaso, em locais próximos ou distantes, familiares ou desconhecidos, desproporcionados ou sublimes.

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Mas divagações à parte, recordo que descobri este verbo no livro Wanderlust: a history of walking, de Rebecca Solnit, que aborda a forma como, atualmente, as pessoas se deslocam, esquecendo-se de conhecer o mundo através do seu corpo, tocando-o com os seus pés. Caminhar envolve autoconhecimento, quando não nos oferece uma oportunidade de inspiração e de criatividade. Parafraseando Anatole France, “É bom colecionar coisas, mas é melhor caminhar. Porque caminhar também é uma forma de colecionar coisas: as coisas que a gente vê, as coisas que a gente pensa”._DSC4454_DSC4481

Entregues ao silêncio, como que na tentativa de tocar a terra e ouvir a batida do seu coração, observávamos como o sol tingia de dourado os rebordos das janelas inventadas da montanha, das quais caprinos nos observavam atentamente, como que a jeito de entediados e bisbilhoteiros vizinhos, que de tão bem conhecerem aqueles caminhos de pó e pedra, logo adivinham não sermos gente dali. Curioso como numa afronta à gravidade, as sabidas cabras alpinistas desciam todos os dias do alto para ir beber ao que sobrava de um rio, pondo-nos a pensar como conseguiam elas chegar até sítios tão inóspitos, de que nem Judas se lembraria! Seguindo estas endiabradas criaturas, uma ou outra figura humana eremítica acompanhava-as neste exercício de sobrevivência. Nómadas, afirmava Hammou. Homens e mulheres que seguem os seus animais, entre a aridez e a abundância, carregando a casa às costas, ora montando, ora desmontando tendas, conforme a natureza o ditar. Na certeza de que tudo o que transportam é realmente necessário e útil, lá fazem por manter uma dispensa na qual se encontra chá, leite e queijo (fresco ou seco ao sol) de cabra, pão, tâmaras e umas quantas reservas de água.

vi_27_002mPor mais agradável que seja a ideia romântica de um viajante itinerante, desapegado do mundano que faz da natureza a sua única bússola pelo caminho da montanha, questiono-me se não chegará aquele dia em que alguns, simplesmente, escolhem ficar? Nómadas ou sedentários, quantos de nós já não desejaram avidamente partir, mas se distantes, somente almejamos chegar?

O sol começava a queimar de tal forma, que decidimos parar um pouco para comer, descansar e falar um pouco com quem por ali vivia. O Viajante Ilustrador começou assim a fotografar uma família bérbere. Embora agradados pela atenção que obtinham, era evidente a vergonha e o incómodo sentidos por acharem impróprio reproduzir o corpo, considerado sagrado, numa fotografia. Fugidia, a matriarca refugiou-se em sua casa, regressando depois acompanhada do neto. Longe das câmaras contou-nos a sua história. Parida nas montanhas, toda a vida entre aqui e ali se criou e viveu, até que ousou ser mais do que lhe disseram do que podia ser. Quis ter um cartão como os outros, escolhendo deixar de ser uma cidadã da montanha, para ser uma cidadã de um país. Quis acreditar que os seus filhos e os seus netos mereciam ver o que estava para além dos cumes. Agora, entre paredes de memórias de angústia e alegria, coloca no neto todos os sonhos do mundo. Perguntamos pelos pais daquele observador rapaz. Lado a lado com o neto, elevou a face e encarou de frente o horizonte, dizendo “Preferem ficar pela montanha”.

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_DSC4520in Revista Açores, 9 a 15 de abril

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Uma espécie de ode aos homens livres // De Merzouga até Nkob, Marrocos

vi_26_03mEnquanto o Viajante Ilustrador aproveitava o ar, ainda fresco, nas dunas de Merzouga para fotografar, eu folheava “Viagens”, de Paul Bowles. Imagino este viajante erudito como uma espécie de Indiana Jones que, nas suas vastas e perigosas aventuras – muitas vezes com a mulher, Jane – apenas reafirmava os seus compromissos de liberdade e desprendimento. Este casal foi, nos início do anos 90, revelado ao mundo numa adaptação cinematográfica de Bernardo Bertolucci (ingenuamente traduzida para português como “Chá no Deserto”), do romance de 1949, “O Céu que nos Protege”, e que conta com a banda sonora da autoria do grande compositor japonês, Ryuichi Sakamoto. Bowles era um nómada extravagante que amava o deserto e as regiões inóspitas, tal o seu conhecimento da cultura árabe. Em Marrocos visitou lugares interditos e experimentou tudo o que lhe era oferecido, desde o exotismo dos bordéis até às lutas entre os mercenários e os separatistas. Este homem do mundo tinha alma de vagabundo, mas agia como um aristocrata. De acordo com Daniel Blaufuks, fotógrafo português que, em 1991, publicou com Bowles o livro “My Tangier”, este último era “(…) um homem que tinha vivido a sua vida, traçado o seu destino, encontrado a sua alma. A sua casa e a sua pessoa irradiavam serenidade, apesar da sua biografia e do monte de malas na entrada lembrarem outras existências.”

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De regresso à realidade, dei o Viajante Ilustrador como perdido. Já um tanto ou quanto preocupada, lá fui dar com ele completamente estonteado com um espelho de água que havia encontrado naquelas sensuais dunas. Enquanto partilhava o deslumbrante momento, tentei apressa-lo, mas sem sucesso, ou não arrumasse ele o equipamento em câmara lenta com um largo e luminoso sorriso, cantarolando “Deitados nas dunas, alheios a tudo/ Olhos penetrantes/ Bebemos dos lábios, refrescos gelados/ Selamos segredos…”.

Muito perto dali, mais precisamente, em Khamlia, uma pequena aldeia onde a maioria da população se dedica à pastorícia, ao artesanato e à exploração de minério e sal-gema, homens nascidos da cadência fazem da música, hipnose. A sonoridade do povo Gnawa, descendente dos escravos da África Ocidental levados para o norte do Saara pelos árabes e conhecido pelos bérberes como o “povo negro do deserto”, materializa-se através de instrumentos parecidos com alaúdes, de umas castanholas metálicas e tambores. Ademais, usam uma mistura de Bambara, ou seja, de línguas bérberes e árabes, em que os músicos movimentam todo o corpo, à exceção da cabeça. Recordo a música Gnawa como uma espécie de fogo-de-artifício interior, que nos convida a um estado de consciência onírica. Ceticismos à parte, Hammou confidenciou-nos que estes ritmos ajudam a curar doenças e a entrar em estados de transe e êxtase místico que regulam as nossas emoções e até nos podem por a contatar com outros mundos.

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Dali seguimos em direção a Alnif, conhecida pelas suas deliciosas tâmaras, passando por Tazanine, importante pelo seu festival anual de henna, até ao oásis de Nkob. Ao longo do caminho, Hammou referiu que esta pequena vila bérbere, capital da tribo dos Ait Atta, é rodeada pelas montanhas do Jbel Saghro, reforçando que estas eram fantásticas para caminhadas, das quais é possível ver toda a região. Na verdade, pouco mais bastou para que Hammou e o Viajante Ilustrador esboçassem um rascunho de um trekking para fazer pela alvorada do dia seguinte.

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Cansados e famintos da viagem, pernoitamos na casa de uma família amiga de Hammou, que logo nos ofereceu um chá com menta, tal a sua hospitalidade. Já sentados entre pratos, entregamo-nos ao prazer do paladar com um cardápio maravilhoso: harira – a famosa sopa de Marrocos preparada com grão-de-bico, lentilhas, arroz, tomate, cenoura, ervas aromáticas e especiarias –, couscous com frango e leite de cabra ao estilo bérbere e fruta da época, como melancia e meloa. Naquele estado de alimentação consciente, falei de Epicuro a Hammou, dizendo-lhe que este sábio afirmava não conseguir imaginar uma vida de prazer sem um bom prato de comida, uma grande amizade ou tempo para filosofar… Nisto, Hammou propôs um brinde, dizendo: “A Epicuro e a todos os homens livres!”.

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in Revista Açores,  de 26 de março a 1 de abril

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Hendrix e Dylan no deserto // Dadés, Dodra e Merzouga, Marrocos

Após uma breve estadia no Vale das Rosas, partimos para as espetaculares Gargantas dos rios Dadés e Todra. Apesar da rivalidade entre ambas, aquela que mais se parece destacar é a de Todra, pelos seus 300 metros de altura escavados através das águas daquele rio. Ali, as estradas mais se assemelham a escadas até ao céu, e das quais se avistam altas montanhas, íngremes penhascos e imponentes vistas.

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Foi a partir deste momento da viagem que começamos a conhecer melhor Hammou, um homem parco em falas, mas abundante em fé. Era curiosa a forma como aquele bérbere se exprimia pois ocasionava breves pausas, nas quais tendia a dirigir e a suster o seu olhar enegrecido no firmamento. Esforçava-me por o observar, pensando que aquele homem com aquele gesto repetitivo, mais parecia um filho a tentar encontrar o aval do pai.

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Em verdade, para além dos ensinamentos de Alá, o que fazia Hammou alongar-se nas suas frugais conversas, era a sua família. Gostava de partilhar os convívios em casa de sua mãe, nos quais revia os seus irmãos e restantes familiares, assim como os momentos com a esposa e o seu filho de apenas quatro anos. Este rebento que gostava de futebol e torcia pelo Barça era, sem dúvida alguma, a figura que ganhava destaque nas suas palavras, assim como no seu olhar longânime. Já do pai não falava, até que um dia o questionei diretamente. De forma seca, respondeu-me que este teria morrido há tempo suficiente para nada haver a dizer sobre ele.

Atitude que bastou para perceber que, de findo, aquele pai pouco ou nada tinha na vida de Hammou. Ainda na rota até Erfoud, em que a dureza do caminho nos desperta a atenção para as aldeias cada vez mais autênticas e remotas, apenas sobrou tempo para uma pausa em Rissani, onde se encontra o mausoléu do Rei Moulay Ali Cherif, no qual descansa o fundador da Dinastia Alaouite. Ali ganhámos ânimo para chegar até às Dunas de Erg Chebbi, mais conhecidas por Merzouga.

Nos cerca de quarenta quilómetros seguintes, Hammou falou-nos da história desses povos naturais da região do Norte de Africa. Assim explicou que, se numa primeira fase, os bérberes viviam em tribos que cobriam uma parte significativa do deserto do Saara (principalmente numa região apelidada de Magreb, da qual fazem parte a Mauritânia, Marrocos, Argélia, Mali, Líbia e até uma parte da Tunísia), como nómadas que eram, desenvolveram a capacidade de viver e de encetar longas distâncias no deserto. Porém, apesar da sua identidade cultural comum, os bérberes nunca se constituíram como um povo uno em torno de um Estado.vi_25_03m

Enquanto escutava Hammou e o Viajante Ilustrador efusivamente a trocar opiniões, ou não fosse este último um apaixonado pela origem dos povos e a criação de estados, eu cá não conseguia abandonar o número quarenta. Na realidade, a viagem até às Dunas de Merzouga quase que funcionava como uma ampulheta do tempo necessário de preparação para algo novo. Se este pensamento foi, talvez, turvado pelos meus ensinamentos judaico-cristãos de infância, o meu instinto de Viajante persistia na ideia de que uma noite no deserto bastaria para qualquer um renascer do entorpecimento.

Dois dromedários esperavam-nos à entrada das dunas, sendo que, a jeito de brincadeira, tentei perceber se estes teriam nomes. Qual não foi o meu espanto, ao saber que seriam o Jimmy Hendrix e o Bob Dylan a levar-nos por aquela espécie de mar de areia onde os homens, em tempos, se deslocavam em caravanas. Sem perder tempo, o Viajante Ilustrador logo asseverou que iria com o Hendrix, e que eu ficaria bem com o Dylan, vá-se lá saber porquê!

Avançamos no dorso destes cavalos do deserto sem medo, embora completamente aturdidos, naquela que foi uma espécie de busca (ora exterior, pela fotografia, ora interior, pela emocionalidade da palavra) por um local de indescritível tentação e beleza, ainda que no fim garanta a salvação divina da alma. Por esta altura as palavras começaram a escassear, tal a beleza daquela paisagem imensa e falsamente estéril, até que, contemplando o sumptuoso sol africano, perdemo-nos no tempo, no espaço e na matéria…

in Revista Açores, 12 a 19 de Março

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Agitando o kasbah // Ouarzazate, Marrocos

Por entre os vales verdejantes e os rasgos enrubescidos subimos na paciente companhia de Hammou até ao ponto mais alto deste trecho do Alto Atlas, o Tizi n’Tichka, a mais de 2200 metros de altitude, que une a estrada entre Marraquexe e Ouarzazate.

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Após contemplar o Pequeno Atlas, seguimos por um caminho à esquerda que nos conduziu até Telouet, sendo esta uma etapa imprescindível para imergirmos na Rota dos Kasbahs. É então momento de parar o 4×4 e passamos a ouvir The Clash e o seu álbum de 1982, Combat Rock, onde consta a épica música, Rock the Casbah. A composição, que intencionalmente procura “agitar o kasbah”, mistura termos norte-africanos, urdus, árabes e judeus, e ficciona a prevalência do rock sobre restrições à liberdade cultural nas regiões do Médio-Oriente e do norte de África.

Das planícies Haouz, passando pelas margens do Rio Zat, ascendendo aos picos do Atlas, até às terras áridas perto de Ouarzazate, impera um cenário pautado por uma sucessão de ksour (plural de ksar), fortalezas ou aldeias fortificadas da população berbere, e de kasbahs, casas  muralhadas igualmente de origem berbere, como Ounilla ou Telouet. Este último foi abandonado em 1956, tendo sido por largas décadas a sede do poder do clã dos Glaoui, um dos mais poderosos grupos de berberes do sul marroquino. Construídas em adobe (argila, estrume e palha, secados ao sol) e com adornos em ladrilho cru que apresentam padrões associados ao seu criador, estas estruturas defensivas albergavam no seu interior verdadeiras urbes, casando todos os tons possíveis de ocre e vermelho. Doravante, contudo, as comunidades foram-se dispersando e muitos dos kasbahs acabaram nas atuais ruínas da paisagem da ala sul do Atlas, de Telouet aos vales do Dadés e do Todra, do Vale do Draa às regiões orientais do Ziz e do Tafilalet.

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“Não demasiado longe deste itinerário, existe um outro local de paragem obrigatória – Aït Ben-Haddou – na encruzilhada das rotas entre o norte de África e Tombuctu, cidade no centro do Mali, onde a compra e venda de livros chegou a ser mais lucrativa do que o comércio de ouro e escravos. Aït-BenHaddou, outrora Aït Aïssa, sugere que a sua denominação constitui uma homenagem à fundação deste local por um lendário viajante. Todavia, existe uma outra história, contada pelos locais, que alude à figura de Kahîna, uma rainha cristã a quem eram conferidos poderes mágicos, e que se terá oposto ao progresso do islamismo na região. ”

Este famoso ksar de Aït Ben-Haddou, classificado como Património da Humanidade pela UNESCO e localizado perto de Ouarzazate, foi cenário de diversos filmes, como Lawrence da Arábia, Gladiador, Um Chá no Deserto ou Babel. O ksar era ocupado, sobretudo, por algumas famílias mais pobres, que ali buscavam a proteção face a intempéries, bandidos ou tribos nómadas que assaltavam os oásis depois das colheitas. Estas aldeias tendiam a ter apenas uma rua principal com contacto direto às safras, funcionando como fortalezas comunitárias para as populações sedentárias. Curiosamente, algumas mantêm-se habitadas até hoje! Nestes locais, havia sempre uma residência que dominava a cidadela e garantia a proteção, constituindo um elemento distintivo da arquitetura berbere.

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Este povo continua a predominar na região, conservando ao longo dos tempos uma identidade própria, nomeadamente através da língua. Embora os seus hábitos antecedam a chegada dos árabes, convivem de forma pacífica e integrada, sendo que uma larga maioria acolheu o islamismo.

Findos os desvios, lá chegamos até Ouarzazate, uma cidade modernizada, fundada pelos franceses, igualmente conhecida pelas suas produções cinematográficas nos estúdios Atlas. Dali continuamos a nossa rota em direção ao lago Al Mansour, passando pelo palmal de Skoura, terminando no Vale das Rosas.

“Shareef don’t like it

Rockin’ the Casbah
Rock the Casbah
Shareef don’t like it
Rockin’ the Casbah
Rock the Casbah”

in Revista Açores, 26 de fevereiro a 4 de março

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