A cidade fénix // Varsóvia, Polónia

Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir. (…)

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.

Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.

Czesław Miłosz

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Fé.

Tal como o escritor polaco nos convida a sentir, acredito ser este um dos sentimentos que melhor sustentou a renascida Varsóvia e as suas gentes. Invadida pelas tropas alemãs em 1939, a cidade foi alvo de bombardeamentos até 1944, deixando-a totalmente devastada. E não bastasse a dura luta dos polacos por altura da ocupação nazi, no pós-guerra enfrentaram mais um outro tanto de agruras com a ocupação soviética.

Confesso que ao rever os dias passados na Polónia, é-me inevitável não ser transportada para um cenário de beleza de traço melancólico mas também progressista, ou não fosse aquele um país de homens e mulheres de alma inquieta, desde as artes às ciências. Desassossegos à parte, e com o devido respeito a Marie Curie, Chopin e a Copérnico, aproveitamos aqueles dias soalheiros de outono para explorar a cidade.

O Castelo Real de Varsóvia foi a nossa primeira paragem. Contando com uma longa história, tanto foi residência da família real como local de debate para as sessões parlamentares, até ser completamente arruinada, em setembro de 1944, após um bombardeamento pelo exército alemão. Distaram 40 anos até que a sua reconstrução se efetivasse, devolvendo por fim esta fortaleza aos polacos.

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Da histórica rua de Nowy Swiat, que passa pelo monumento de Nicolau Copérnico e que se estende até a Praça das Três Cruzes, pelo caminho real rapidamente se chega até à zona da Cidade Velha (Stare Miasto – século XII) e da Cidade Nova (Nowe Miasto – século XIII). Neste percurso, onde é possível ainda dar uma olhadela no Museu Frederic Chopin (uma casa dedicada a um dos compositores mais importantes da história, onde se retrata a sua vida e onde se faz perdurar a sua obra), as ruas exibem casas pintadas de cores arejadas, embora cálidas, como amarelos, laranjas e verdes-pistácio, brotando de um chão de pedra rústica.

A Praça do Mercado (Rynek Starego Miasta) é igualmente imperdível, à semelhança do Barbakan (muralhas da Cidade Antiga) e da Basílica de São João Batista, a mais antiga das igrejas de Varsóvia.

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Ainda naquela tarde, dedicamos algum tempo ao Museu da Insurreição de Varsóvia (Warsaw Uprising Museum), que documenta o primeiro dia de agosto de 1944, no qual os polacos se revoltaram e criaram um exército clandestino, fazendo a maior operação de resistência durante a II Grande Guerra. O episódio durou 63 dias, findando a 2 de outubro do mesmo ano, quando as tropas alemãs se renderam. O museu é um tributo aos que lutaram e morreram pela independência do país, contando a história da Polónia desde a ocupação nazi até ao regime comunista.

A noite caía sobre a cidade, ao que nos pusemos a caminho do Palácio da Cultura e Ciência, um presente da União Soviética ao povo polaco.

Uma vez que Estaline não chegou a assistir à conclusão das obras – ou não fossem há muito conhecidas as circunstâncias bizarras da sua morte na manhã de 5 de março de 1953 –, só após a denúncia pelo seu sucessor, Nikita Krutschov, em 1956, é que o edifício viu serem removidas das fachadas as letras que queriam eternizar o nome daquele ditador. As cicatrizes permaneceram e o palácio parece ainda ser para a Polónia o símbolo daquilo que chamam “a ocupação”, prevenindo-nos como as memórias são uma forma de materialização de afetos. Entre silêncios e cliques de máquina, debruçamo-nos sobre o terraço, contemplando, respeitosamente, a ampla visão em 360 graus da Varsóvia moderna e sobrevivente.

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Colónia Açoriana // São Tomé e Príncipe

Já a caminho da cidade de São Tomé, a rádio local ajudava-nos a esquecer a iminência da despedida, ou não fosse ali tudo anunciado, desde a (peculiar) necrologia, às (longas) advertências administrativas, até às (“exorcizantes”) sessões da Igreja Universal de Deus.

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Aquele dia foi especial. Conquistamos um cantinho escondido da ilha apelidado de Colónia Açoriana, que nos fez sentir, estranhamente, em casa. Aquela aldeia sita no distrito de Cantagalo e próxima das localidades de Santa Cruz dos Argolares, São Lourenço, Amparo, Santa Cecília e Micondó foi, outrora, propriedade dos irmãos Domingos Machado da Silveira e Paulo, e João Jorge da Silveira e Paulo, naturais dos Açores. Embora nascidos numa modesta família de pedreiros e trabalhadores agrícolas na freguesia de Santo Amaro do Pico, em 1881, João Jorge decidiu ir para Lisboa estudar. Contudo, no ano imediato, partiu para São Tomé, onde o seu irmão mais velho, Domingos, já se havia fixado e era proprietário da roça Colónia Açoriana, na qual lhe deu sociedade.

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A Colónia Açoriana foi rica na produção de cacau, tornando-se, sob a gestão de João Jorge uma referência na ilha. À semelhança das grandes roças, a Colónia chegou a possuir um pequeno caminho-de-ferro, com um par de quilómetros, utilizado na condução do cacau seco para embarque. João Jorge regressou aos Açores no final daquele século e fixou-se em Angra do Heroísmo. Exerceu o cargo de Presidente da Junta Geral do Distrito de Angra do Heroísmo, entre 1905 e 1907, e entre 1908 e 1910. Adquiriu o Solar dos Noronhas, junto à Igreja da Conceição de Angra, onde construiu um imponente palacete (atualmente, designado como Palácio Silveira e Paulo), um dos imóveis mais marcantes da cidade.

Hoje, aquele ponto do mapa é uma memória quase esquecida dos portugueses, e em especial, dos açorianos. Ali vivem cerca de 510 pessoas, que desenvolvem atividade baseada em agricultura e na produção de cacau, sendo que a maioria vive numa base de autossubsistência. O secretário da Escola Primária da Colónia de nome João Maria explicou-nos ainda que acolhia uma média de 280 crianças, entre os 6 e os 14 anos de idade, provenientes da Roça Colónia Açoriana, Santa Cecília, Roça Caridade, Amparo e São Lourenço, orientados por 10 professores. Muitos foram os desabafos por ele deixados, desde a ausência de infraestruturas adequadas à insuficiência de material escolar, chegando ao ponto de, para imprimir documentos, ver-se obrigado a percorrer cerca de 70 quilómetros, ou se preferirem, duas horas de viagem (ida e volta).

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Debruçada numa mesa de madeira gasta pelos milhares de horas de aprendizagem e utopia, exultei a coragem daquela gente, que faz do verbo educar uma missão, recordando, de imediato, a conversa de alguns dias atrás com o inspirador Cristóvão Silva, da ilha de Príncipe. Mais do que ensinar, aqueles professores e aquelas professoras, tentam resistir, de modo firme e até ingénuo, ao caos social manifesto (e ainda mais latente) de uma sociedade consumida pela desmoralização de valores, que transborda fronteiras.

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No regresso até à estrada principal, vários miúdos gritavam-nos entusiasticamente “Branco, doce!”. Independentemente de tal gesto se dever ao facto de, muitas vezes, estranhos lhes deixarem guloseimas ou outras ofertas (realidade lamentável, uma vez que nada lhes acrescenta, bem pelo contrário, promove uma espécie de mendicidade infantil e coloca em risco a saúde dentária), aquele momento causou em mim uma sensação de revelação.

O arquipélago de São Tomé e Príncipe abriu a minha gaveta de infância, assim como uma imensa saudade dela. Após aquelas semanas, precisei de ver e abraçar retratos de gente presente e ausente; de ouvir vozes de todos os tempos; de sentir ora o vazio, ora o todo de alguns “adeus” e de outros “olá”; de reler livros e sacudir o pó de vinyl que tanto já me fizeram acreditar; de recordar sabores familiares; de me demorar em locais (só) meus…

She’s got a smile that it seems to me
Reminds me of childhood memories
Where everything was as fresh as the bright blue sky …
Now and then when I see her face
She takes me away to that special place
And if I stare too long I’d probably break down and cry…
Oh, oh, oh Sweet child o’ mine
Oh, oh, oh, oh/ Sweet love of mine…
[Guns N’ Roses]

No centro do mundo// A sul da ilha, pelo Ilhéu das Rolas e o Rio Malanza

Sobre a linha do Equador, com um pé no hemisfério norte e outro no hemisfério sul, homenageei todos aqueles que dedicaram a sua vida a elaborar e a interpretar mapas, ou não tivesse sido esta uma das ferramentas mais revolucionárias e úteis na progressão da humanidade.

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Que seria dos exploradores e até dos piratas sem a preciosa ajuda dos mapas para encontrar outros mundos ou tesouros escondidos? No Ilhéu das Rolas, reiterei, sem artimanhas ou batotices, que a descoberta e o espírito de aventura são inatos aos mapas, criando estes, ainda, uma língua universal, independentemente de fronteiras. Pena esquecermo-nos de estimular tal habilidade nas crianças e nos adultos de hoje, resfriando o mistério e a emoção da exploração individual ou coletiva, chegando mesmo a perder-se a possibilidade de conhecer novos caminhos ou destinos, para além daqueles já previamente programados.

Depois de alguns dias atrás termos falado com Didi, irmão de um dos pescadores locais, sobre uma eventual visita a este ilhéu do arquipélago de São Tomé e Príncipe, situado no Golfo da Guiné, finalmente dei por mim a caminhar sobre (mais um) paraíso terrestre. Contudo, e enquanto me debatia com a realidade de desacelarar o ritmo dos meus passos, na tentativa de esticar o tempo, mais acabava por ser engolida por uma película cinematográfica, em constante movimento de time lapse. Algo legítimo ou não estivesse num local em que tudo era absolutamente inspirador: desde a música de fundo da aldeia, à desocupação dos locais até aos brinquedos dos putos que, eles próprios, inventavam, fossem carrinhos feitos com latas velhas e arame ou trotinetes de restos de madeira e canas.

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Explorada aquela abençoada terra, em que cada recanto tinha uma praia escondida, deixamo-nos ficar pela Praia Café. Para além de ser um local perfeito para fazer snorkeling, o areal branco ostentava uma vista de singular beleza, garantido ainda umas boas gargalhadas, com a visita de alguns porcos da aldeia em redor. Achei a situação deveras engraçada, recordando uma conversa com uns amigos que, no ano passado, estavam a planear uma viagem às Bahamas e mostravam-se esfuziantes com a ideia de explorar uma ilha de porcos nadadores. Sim, é verdade, ali os porcos nadam, todos os santos dias, em águas cristalinas de cor azul turquesa e são livres…

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Já com algum saudosismo à mistura, o final do dia aproximava-se e a maior área de mangal do país – cerca de 240 hectares – aguardava-nos. Ainda na ponte, entre uma ou outra buzinadela que nos distraía da explicação dada, percebemos que o rio Malanza – ou “malandro” como lhe chamam os locais devido à orientação da corrente variar conforme as marés –, é um ecossistema tropical de transição entre o mar e a terra. Um santuário ecológico rico em fauna como é o caso das galinhas-de-água, patos marinhos, garças-reais, maçaricos-das-rochas e até macacos a alimentar-se de frutos tropicais no meio da frondosa vegetação, sendo que estes últimos aparecem sobretudo no final da tarde. Apresenta também uma vegetação incrível com espécies de árvores típicas como a Avicennia (Mangue Branco), que absorve o sal, libertando-o depois pelas folhas, enquanto as raízes saem da água para que a planta respire e estabilize; ou como a Rhizophora (Mangue Vermelho), cuja madeira não deixa entrar o sal e as suas raízes descem do tronco até ao chão formando labirintos e esconderijos.

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No Malanza, a minha solidez fundiu-se naquele mundo líquido de árvores e raízes quase submersas, onde apenas o som dos seres mágicos que ali vivem quebram a severidade do silêncio. Quase que senti o meu corpo a mergulhar por entre as entranhas verdes e hipnotizantes daquele rio, enquanto as minhas pernas e os meus braços se transformavam em parques de diversão para os peixes. Já a minha cabeça  teimava vir à tona, mais parecendo uma  cobra preta que não desperdiça a oportunidade sentir o sol sobre os ramos que cobrem o leito do rio.

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in Revista Açores, 24 a 30 de setembro

As pessoas (e os lugares) que mais admiro são aquelas(es) que nunca acabam // No coração de São Tomé com Almada

No caminho de regresso à cidade, elaboramos um plano de exploração ao centro da ilha, no qual assinalamos como pontos obrigatórios: a Roça Monte Café, a 670 metros de altitude, com terrenos bastante propícios para a cultura de café arábica, e a Nova Moca, uma dependência que cultiva cacau orgânico utilizado na produção dos chocolates Claudio Corallo; a Cascata de São Nicolau; o Jardim Botânico Bom Sucesso, de onde partiriamos para um trilho até à Lagoa Amélia;  e um repasto na Roça da Saudade, onde Almada Negreiros nasceu em 1893.2

Lamentamos não ter mais alguns dias para a ascenção do Pico de São Tomé e para a visita à Roça Bombaim situada no limite do Parque Ôbo, ou não tivessemos sido traídos pelas chuvas e o acesso estivesse condicionado… Mas logo nos animamos ao pensar no que talvez Almada diria, ficando nós, pelo menos, com mais um par de motivos para regressar.

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BASTA PUM BASTA! E nisto crio na minha mente uma espécie de Manifesto Anti-Roteiros: Que se lixe o plano. Vejamos menos e vivamos mais! Morram os postais, vivam as histórias. PIM!

Assim foi aquele dia, passado a desfrutar do silêncio daquelas roças, da melodia das águas da cascata, da oportunidade de descobrir uma floresta primária densa, da cratera de um vulcão extinto onde se pode avistar uma grande diversidade de aves endémicas e até pequenos macacos, e das paisagens soberbas da ilha…

Confesso que chegado o final do dia, senti um especial entusiamo ao aproximar-me de um local que tanto queria conhecer, a Casa Museu Almada Negreiros. Acaso ou não, gosto do facto de partilhar a data de nascimento com este fabuloso homem das artes, acalentando a tola e ingénua ideia de que, talvez um dia, eu possa vir a ser bafejada por uma milésima parte da sua irrevência e genialidade, fruto da serendipidade do universo. Perdoem-me a ousadia!

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Almada foi um dos mais talentosos artistas portugueses e esteve na génese dos movimentos modernista e futurista, com a sua personalidade aguerrida, polémica e indomável. Dedicou-se a inúmeras áreas como a poesia, o teatro, as artes plásticas e a dança, ganhando a fama, conforme espelhado na fantástica exposição organizada pela Gulbenkian e patente em Lisboa até ao passado mês de junho, de omnívoro das artes, ou não tivesse desejado come-las a todas. E mais uma vez, acaso ou não, encontra o fim 77 anos depois, no mesmo quarto que o seu grande amigo Fernando Pessoa.

A caminho da Roça Saudade o ar fica mais fresco e a vegetação mais densa. Joaquim Victor nasceu naquele mesmo local, sendo a sua família dona de parte do terreno, onde se encontravam as ruínas da casa de três andares, colunas e alpendre, que ele descobriu ter sido a primeira do artista. Desde o fim de 2014 que ali funciona a Casa Almada Negreiros, um museu que há-de crescer, assim alimenta a esperança.

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Após mostrar entusiasticamente o espaço, onde encontramos a certidão de nascimento do Mestre Almada, assim chamado na altura em que colaborava na Revista Orpheu, ou as réplicas de quadros e desenhos seus, Joaquim convidou-nos a degustar um jantar fantástico que me soube a versos de amor rebelde. Em verdade, aquela refeição despertou boas memórias de sabores já apreciados na ilha, em especial, na Roça de São João dos Angolares, como a omelete de micocó – afrodisíaca, insistiram sempre os anfitriões –, ou o fura-cueca, nome do molho picante.

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Um jantar destes merecia um café ou até uma bebida forte no Centro CACAU – Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopias, na cidade de São Tomé, conhecido pelas suas exposições em permanência, sessões de cinema, espectáculos ou venda de artesanato. Mal me sentei, recuei até à segunda década do século XX, com o Viajante Ilustrador e o querido amigo Tiago Páscoa. Arrisco afirmar que formamos, humildemente, uma tertúlia de alianças e quimeras…

in Revista Açores, 10 a 16 de setembro

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O chamamento do Norte // São Tomé e Príncipe

De volta à grande ilha, era tempo de conhecer o norte. Muitas foram as paragens, ou não fossem ainda mais as praias tropicais – daquelas que moram no nosso imaginário com coqueiros vergados pelo vento acirrado, numa areia muito branca –, a decorar aquela encantadora costa.

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Saimos da cidade, desviamos em Conde até à praia de Micoló, seguindo depois em direcção a Morro Peixe, por uma estrada de terra batida. Chegamos a uma das praias mais icónicas, a do Governador, tomando assim o seu nome do famoso romance Equador, de Miguel Sousa Tavares. Na trama, seria neste local que o governador da colónia teria os seus encontros amorosos secretos. Logo, de imediato, surgiu a praia dos Tamarindos, que aparece quase como uma extensão.  Apesar de aparentemente remotas, ambas são muito populares junto dos locais.

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Ainda fizemos uma breve paragem na praia das Conchas, para nos demorarmos, de seguida, na praia Lagoa Azul. Nesta enseada cria-se a sensação de um lago e a água adquire uma tonalidade azul forte, convidativa a dar umas braçadas e a fazer um pouco de snorkelling. Apesar de pequena, as pirogas de pesca juntamente com a presença de imponentes embondeiros, criam um ambiente devaneador.

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Não muito longe dali, é possível visitar a Roça Agostinho Neto, antigamente chamada de Rio D’ Ouro, que é a maior roça de São Tomé, tendo recebido o nome atual após a independência nacional em 1975, em memória do primeiro presidente de Angola. É uma das mais emblemáticas e impressionantes estruturas agrícolas do país.

Entre muitas direções, caminhos e até furando o único túnel da ilha, almoçamos em Neves, a segunda maior cidade da ilha. Escondida numa ruela sem estrada de alcatrão, apresentava-se uma casa de madeira muito simples, de seu nome Santola. Naquele tasco, a existência torna-se, subitamente, simples. Umas “nacionais”, pão torrado com manteiga e banana-pão frita acompanhavam uns “bichos” enormes e frescos, que nos devolviam para o mar perante cada desfrutar. Estas santolas de casca mais mole, mas imensamente saborosas, vinham como entraram para a panela.

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Entretanto começamos a falar com um casal que nos sugeriu percorrer o caminho até à cidade piscatória de Santa Catarina, onde se situa o padrão dos descobrimentos que assinala o local onde desembarcaram em 1470, os primeiros descobridores portugueses, João de Santarém e Pêro Escobar. Partilhamos dicas, sendo que seguimos a sugestão de ir beber um copo no alojamento de turismo selvagem Mucumbli, situado sobre uma falésia basáltica a poucos metros do oceano, oferecendo um dos melhores pôr do sol da ilha. Achei o nome de tal ordem interessante que, ao pesquisar, descobri que Mucumbli é uma árvore de grande porte de interesse medicinal e considerada em alguns países da África Ocidental como mágica, tal como aquele deslumbrante espaço…

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Consolados, mas já um pouco esfalfados, pernoitamos na Roça Monte Forte, sendo que naquela noite, o universo advertiu-nos, mais uma vez, que os lugares se encontram nas pessoas e não nos mapas. À conversa com Osvaldo, filho do proprietário Jerónimo Mota, este quase octogenário, falou-nos dos seus trinta e três irmãos, sendo que a mais nova é uma menina de talvez três anos. Nascido no centro da cidade de São Tomé, começou a trabalhar na área comercial, mas a cultura da terra chamou por ele. De assalariado foi promovido a feitor, uma posição quase única para um homem de cor. Após a independência e nacionalização de todas as propriedades, candidatou-se à gestão de Monte Forte, onde se mantém até hoje.

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Embora Osvaldo pretenda continuar a estudar, até fora do seu país, notava-se a forte admiração que nutria por seu pai, não só pelo seu percurso suado e bem-sucedido, chegando até a exercer funções como deputado, mas sobretudo por ter sido capaz de manter a família firme e coesa, entre as várias mulheres da sua vida. Questionado sobre se consideraria seguir as pisadas do pai, respondeu com uma gargalhada demorada, sem nos revelar se seria de medo ou tentação!

in Revista Açores, 27 de agosto a 3 de setembro

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As memórias e a swag insular // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

Era o último dia na ilha de Príncipe. Qual o plano? Simples… Não existia!

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Enquanto caminhávamos despreocupados em direção ao Mercado Municipal, o Viajante Ilustrador citou uma expressão que bastante aprecio: “Não faças planos para a vida, que podes estragar os planos que a vida tem para ti.” Sábias palavras de um homem evolucionário (bem mais que revolucionário), que apreciava conversar rodeado dos seus bem-queridos gatos. O seu nome era Agostinho da Silva e afiançava que a vida ficaria empobrecida se lhe retirássemos a dimensão do imprevisto, evidenciando a ideia de que devemos estar sempre dispostos a partir, como um nómada. Este filósofo, poeta e ensaísta português, rejeitava uma sociedade centrada no lucro e elevava valores como a simplicidade e o espírito de exigência na vida do quotidiano, apoiando-se na meditação interior, na convivência aberta com o exterior e na envolvência na comunidade, sobretudo ao nível de uma ação predominantemente pedagógica.

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Acaso ou não, a verdade é que a vida consegue ser bem caricata… Ou não tivéssemos nós, após uma breve incursão pelo mercado com muitos sorrisos e polaroids, encontrado um sítio que, decerto, Agostinho da Silva teria gostava de contemplar, o centro de explicações de Cristóvão Silva, um cantinho que me fez recordar os meus tempos de escola primária. Ao entrar, recordei, de imediato, a minha sala de aula, com as mesas partilhadas e as cadeiras de madeira, nas quais as pernas eram de ferro pintado de verde-escuro, os armários compridos com misteriosas janelinhas de vidro e o emblemático quadro de giz, escrito pela minha professora Lucília. No recreio, os rapazes jogavam à bola e as miúdas brincavam à macaca, ao elástico ou trocavam folhinhas de cheiro. Não havia parque infantil, apenas um espaço verde aberto com uma árvore ao fundo, onde se deslizava desafogadamente a jeito de ganhar balanço e saltar à corda com o mundo e os nossos sonhos. Na hora do lanche, comia-se pão com manteiga ou uma peça de fruta, mas eu cá bebia sempre o leite que a escola oferecia, que era ainda mais delicioso no inverno, quando aquecido nos aquecedores da sala. Ia-se a pé para a escola, sozinhos e acompanhados pelas mães ou avós.

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Sou grata àquele professor quase a caminho dos 90 anos, por tais memórias valiosas! Cristóvão Silva contava que ensinar foi um dom divino que recebeu ainda catraio, e embora tenha começado a trabalhar em São Tomé, mais tarde, foi transferido para a ilha do Príncipe, e ali ficou. A lecionar um grupo de cerca de quinze crianças, afirma aceitar todas sem fazer distinções. Trabalhará até Deus lhe permitir e deseja que os seus alunos, através das suas aulas, enriqueçam os seus horizontes ao nível da aprendizagem e da cultura, mas sobretudo percebam a importância de exercer uma profissão pela paixão e não pelo dinheiro, exortando sempre o espírito de vontade individual a favor do bem comum.

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Depois desta visita especial e de uma comida de conforto na Juditinha, eu e o Viajante Ilustrador voamos na nossa mota apelidada de Swagger pela ilha… Desde a carenciada e sobrevivente comunidade piscatória da praia Burra até à exuberante Roça Belo Monte, hoje transformada num hotel de charme, e na qual se encontra a icónica praia Banana, em que a água assume a cor de azul-turquesa e o areal de branco peróla, despedimo-nos do paraíso, naquela que declarei ao Micky, como sendo a minha praia de eleição, a fim de corresponder ao desafio por ele lançado. A minha alma desassossegada precisou de parar para absorver tamanha beleza da praia Boi, na qual era possível contemplar o que existe debaixo da água numa distância superior a duzentos metros em direção ao horizonte, tal a virgindade natural daquele lugar. Vou sentir a tua falta, querido Príncipe! – partilhei. O motoqueiro, vulgo Viajante Ilustrador, logo após estacionar a mota de modo a proteger dos cocos, ripostou divertidamente: Leve leve! Móli móli! Deixa lá as saudades antecipadas e sente sim o swag deste sítio…

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in Revista Açores, 13 a 19 de agosto

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Santuário de tartarugas // Praia Grande, Ilha do Príncipe, São Tomé e Príncipe

_DSC9814Naquela noite estrelada, recordei uma fábula de Esopo que, decerto, nos acompanha a todos desde tenra idade: A Lebre e a Tartaruga. Acredito que, pelo menos uma vez na vida, qualquer um tenha usado este conto para demonstrar, contestar ou lamentar algo, evidenciando uma lição de amadurecimento e paciência, na qual a Tartaruga, com seu passo lento, mas firme, cruzou vitoriosamente a linha de chegada, ao contrário da Lebre, que demasiado confiante na sua velocidade, se deixou levar pela inépcia de uma soneca. Símbolo de longevidade e persistência, assim como de conexão entre a terra e a água, a tartaruga leva a vida ao seu tempo e ritmo, respeitando os próprios limites, como tantas vezes não o fazemos, lamentavelmente.

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Entre caminhadas e algumas pausas na Praia Grande, a norte da cidade de Santo António, acompanhados dos experientes guardas de tartarugas Hualton e Lourenço, com as suas luzes vermelhas na imensa escuridão da noite, aguardamos pacientemente pela visita de uma ou outra tartaruga verde (chelonoa mydas) – ou mão-branca, conforme o seu nome local –, e se a sorte assim nos bafejasse, de uma tartaruga sada (aretmocheys imbricata) ou até de uma tartaruga ambulância (dermochelys coreacea). Neste santuário de desova de tartarugas no Golfo da Guiné, ano após ano, entre setembro e fevereiro, mais de uma centena de fêmeas sobe várias vezes à praia durante o recato noturno para deixar os seus ovos enterrados na areia. Cada fêmea faz entre duas a cinco posturas por época, separadas por doze noites, das quais os ovos demoram cerca de dois meses a incubar. Na tentativa de evitar predadores, a tartaruga mãe tapa o buraco, suaviza a areia para esconder a sua localização, e volta indiferente para o oceano. Após a eclosão, as tartarugas marinhas bebés cavam até à superfície para determinar se é noite ou dia. Em regra, quando está escuro, irrompem para fora do buraco e fazem uma louca corrida para o oceano!

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Hualton ainda nos explicou que as tartarugas marinhas existem há mais de 150 milhões de anos e conseguiram sobreviver a todas as mudanças do planeta, mas atualmente são dos seres mais vulneráveis. De acordo com estimativas cientificas, de cada mil filhotes nascidos, apenas um chega à idade adulta. Afinal, o grande problema das tartaruguinhas é que, se elas desaparecerem, também o ecossistema marinho fica mais pobre, sendo a sua importância ecológica muito grande, principalmente nas zonas onde os peixes se vão reproduzir e desenvolver. São Tomé e Príncipe podia ser o maior santuário mundial da desova de tartarugas marinhas, já que, das sete espécies existentes, cinco são atraídas para estas maravilhosas praias do Equador. Nos últimos anos, a população de tartarugas cresceu bastante na ilha do Príncipe, tendo a espécie sada, em vias de extinção, encontrado neste local a desejada proteção.

Psiu!!!

Já passava das 21:00, quando a primeira de três mãos brancas que avistamos naquele dia depositou na areia o conjunto de ovos; e das 23:00, quando duas tartarugas sada deixaram um rasto sem postura. Durante o percurso, ainda encontramos indícios da passagem da colossal tartaruga ambulância, provavelmente da noite anterior. Mais parecendo uma criança, tornei-me guarda de tartarugas, auxiliando Hualton e Lourenço na medição do comprimento e largura da carapaça, assim como no preenchimento das fichas de registo da patrulha noturna.

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Após esta experiência, elevei a minha admiração pelas tartarugas marinhas e deixei de lado a imagem inocente, e até talvez infantil, de as imaginar a surfar através correntes oceânicas ou a mergulhar em torno dos recifes de coral. Na verdade, estas nascem sem as mães, lançando-se sozinhas ao mar, contra ondas e marés, e esquivando-se a eventuais obstáculos e predadores, sem levar em conta as armadilhas humanas. Arrisco-me desta experiência a tirar uma outra lição, quiçá complementar a da fábula de Esopo: Ousemos dar um salto nesta “corrente” da vida!”

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in Revista Açores, 30 de julho a 5 de agosto

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Ganhando asas de papagaio // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

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Se antes já nos havíamos ocupado do fruto do cacau, na presente alvorada fomos presenteados com uma tentação. Na costa norte da ilha de Príncipe, esta assume o nome de Bom Bom Island Resort. Integrado em plena floresta tropical, entre colinas e praias paradisíacas, numa área designada pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera, este projeto celebra o equilíbrio entre a presença humana e o meio natural. A par de investimentos financeiros e de formação profissional na área do turismo sustentável, em particular na gestão e utilização da água, energia e resíduos, este promove também atividades como trilhos pedestres, excursões para a observação de aves e baleias, bem como passeios de canoa com pescadores locais. Aqui o tempo é dedicado ao inalienável direito ao prazer, ou não fosse fácil encantarmo-nos com o seu firmamento, assim como com as suas profundezas, onde a prática de snorkelling torna-se obrigatória para a descoberta ora de peixes exóticos, ora para a contemplação daquele colossal manto azul. Desejo de felicidade absoluta, versada em planos de liberdade sem freios, foi por nós ali cobiçada, à semelhança de Ícaro, que, imprudentemente, voou alto de mais e ao quase tocar o sol perdeu as suas asas de penas e cera. Liberdade, coisa traiçoeira e impiedosa, esta!

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Mas como diria Santo Agostinho, “Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência”, pelo que, celebrada a natureza, rumamos à cultura local, cumprindo com a Rota dos 4 Sabores, que incluiu a visita à Roça Paciência, onde produtos como o café, o cacau, a pimenta e a baunilha são dignificados. Perto das roças Belo Monte e Praia Inhame e outrora propriedade do Dr. Cupertino d’Andrade, hoje é um projeto de turismo integrado na agricultura, sujeita a um notável trabalho de restauro, funcionando como ainda escola de pedreiros. Um laboratório vivo de investigação e transformação de matérias-primas, representativas do universo de paladares e aromas da terra. Ainda, neste local de traça humilde e despojada, é impossível resistir à sua variedade de produtos de fabrico artesanal, desde as deliciosas compotas de cajá manga, sape sape, maracujá e ananás e creme de cacau, à maravilhosa mistura de muesli tropical.

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E porque nem só de alimento vive o Homem, conseguimos umas motas e acompanhados de Yorick, aceleramos até à Roça Trindade e desta seguimos até ao trilho do emblemático Pico do Papagaio, o mais concorrido pelos amantes de trekking por ser o que mais perto fica da cidade de Santo António e por se conseguir concluir no espaço de apenas meio-dia. Conquanto, foi ainda feita uma breve paragem, a fim de encontrar bom vinho de palma. Ou não fosse inevitável naquela ilha cruzarmo-nos com vinhateiros a cumprimentar-nos do cimo das palmeiras. Estes sobem a estas plantas, usando uns arames grossos que dão a volta ao tronco e prendem nos pés, para martelar a base das folhas, e lá espetar um garrafão que se encherá lentamente durante a noite. Depois basta esvaziá-lo para outro maior, filtrar a mistela com um funil e deixar fermentar um pouco. E eis que surge o vinho de palma, uma bebida muitíssimo apreciada, ou não fosse vendida pela módica quantia de 5000 dobras (o que dará talvez uns 0,20€?!) por caneca. De cor leitosa, embora o sabor seja estranho, não é nada mau, como que se de fruta se tratasse, mas menos doce, e a quantidade de álcool é fraquinha.

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Desvios feitos, avançamos, finalmente, para o Pico do Papagaio, a 680 metros de altitude, circundado pelo Parque Natural de Obô. Em amena cavaqueira, onde já se faziam planos notívagos de um jantarito na Rosita (Associação Cultural e Recreativa Rosa Pão) e uns copos no Mira Rio, tivemos o privilégio de observar macacos, pássaros endémicos e diversas plantas medicinais, sempre na expetativa de chegar ao cume e do seu alto ver a cidade mais pequena do mundo…

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Entretanto, as palavras sumiram-se. Que me restou? Uma dança de vitória! “I take it in, but don’t look down…/Cause I’m on top of the world, hey/ I’m on top of the world, hey” (On Top Of The World, Imagine Dragons).

 

in Revista Açores, 16 a 22 de julho

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Pedacinhos de terra rodeados de chocolate // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

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O dia amanheceu com chuva, apesar do calor e da opressiva humidade que se fazia sentia na chamada “jóia da coroa”. Enquanto esperávamos por Micky víamos miúdos a percorrer a cidade de Santo António à procura de garrafas de plástico. Curiosos com a situação, perguntamos o motivo de tal frenética caçada. Um dos gaiatos acabou por nos mostrar um panfleto com o mote “Plástico não. Um pequeno gesto está na nossa mão”. Tratava-se de uma campanha que pretende envolver a população na recolha do plástico, onde 50 garrafas podem ser trocadas por uma “Garrafa Biosfera Príncipe”. Esta última é reutilizável, em aço inoxidável e feita com materiais seguros e livres de plásticos, podendo ser reabastecida nos diferentes postos de água tratada e pura, instalados em toda a Ilha do Príncipe (classificada, desde 2012, como Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO). Tratando-se de uma razão de tal ordem nobre, juntamo-nos e colaboramos nesta recolha pelo ambiente.

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Volvido quase um par de horas, chegou o sereno e imperturbável Micky. De imediato, questionámos sobre se algo de errado ou grave haveria sucedido, até que ao nosso ar sério e grave, deu lugar um sorriso atrapalhado, quando ouvimos a nativa resposta de “móli móli”. Nisto percebemos que, mais do que uma expressão, esta simboliza a conjugação do verbo ser com o modo de vida santomense. Desconcertados com tal circunstância – ou não significasse aquela subtil chamada de atenção, uma urgente necessidade de desacelerar –, seguimos até à Roça Terreiro Velho, local pioneiro da cultura do cacau, debaixo de uma chuva fininha. Conta a história que esta planta do Brasil chegou à Ilha do Príncipe nas primeiras décadas do século XIX, inicialmente para fins ornamentais. Todavia, a cultura prosperou e o país tornou-se no maior produtor de cacau a nível mundial, tendo sido, mais tarde, disseminada para a Nigéria e Gana. De alguns anos a esta parte, esta roça é explorada por Claudio Corallo, um italiano que ousou revitalizar e aprimorar esta cultura, ou não fosse o cacau um dos alimentos sagrados para os Aztecas e para os Maias. Além do Terreiro Velho, Corallo tem ainda a plantação de Nova Moca, uma ex-dependência de Monte Café, na ilha de São Tomé. Nesta desenvolveu a cultura de café, sendo algumas das suas variedades das mais raras e requintadas do mundo, à semelhança do chocolate.

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Após uma lição pelo Micky sobre o cativante fruto do cacau, enquadrada numa paisagem absolutamente incólume, na qual sobressaia o pequeno ilhéu de Boné de Jóquei, tornar-se-ia inevitável, no nosso regresso a São Tomé, fazer uma visita à fábrica deste produtor. Naquele laboratório quase comestível, Corallo oferece-nos uma magnífica degustação de vários tipos de chocolate, e na qual eu tive a felicidade de encontrar o meu eleito: o de sal e pimenta. Ou não reverenciasse eu a combinação daquele sorvo inicial de salgado, que me recorda a minha tão saudosa terra-mãe de nome Aveiro, à beira ria e mar com as suas pirâmides de luz e sal; assim como me empurra (a pique) para a mordacidade, a vertigem e a ironia da vida. No meu mundo de fantasia, imagino Cláudio Corallo como uma espécie de Willy Wonka dos tempos modernos, realidade que me remete inequivocamente para o livro “Charlie e a Fábrica de Chocolate”, de Roald Dahl, que já mereceu duas adaptações para o cinema. É nesta simbiose entre memórias, afetos e duelos internos e externos, que recordo diálogos como “Afinal, onde está o sentimento no coração ou na cabeça?”

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Ainda nessa manhã o sol começou a espreitar entre as nuvens, e com ele veio uma incomensurável vontade de submergir no oceano. Às vezes, quase que me sentia uma tartaruga, tal o inesperado gosto pela água. Começamos por sondar a Praia Évora, mas acabámos por desfrutar do sol e do mar, assim como de uma bela grelhada de peixe, acompanhada de arroz e banana pála pála, na Praia de Ponta Mina. Mais do que um almoço convívio, um enaltecimento à oralidade das histórias.

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in Revista Açores, 2 a 8 de julhovi_32_ra

Pés na terra // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

E ao terceiro dia de viagem, aterramos na Ilha de Príncipe! Mais precisamente, 546 anos e 4 dias mais tarde que os primeiros navegadores portugueses, quando aquele pedaço de terra foi denominado de Ilha de Santo Antão ou Santo António Abade! Em verdade, o seu atual nome deveu-se à iniciativa do “príncipe perfeito”, D. João II, um rei que tanto estimava o seu único filho e herdeiro, Afonso, Príncipe de Portugal, que em sua honra decidiu batizar de “Príncipe” a ilha mais pequena do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Mal se poderia imaginar que, 16 anos mais tarde, este promissor mancebo iria encontrar o seu fim numa misteriosa queda de cavalo, e o pai, outras tantas angústias de sucessão…Mas história à parte, é absolutamente idílico aterrar naquela mágica ilha verde, naquele exíguo avião, como que a jeito de uma película de animação. Recordo-me de comentar, com um querido e grande amigo de São Jorge, que aterrar na Ilha de Príncipe nos reportava para a similar experiência vivida no arquipélago dos Açores, sendo que, até São Jorge, aquele vértice das ilhas do triângulo, tem bem mais habitantes do que Príncipe.

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À nossa espera estava o atento e paciente Micky, um benfiquista ferrenho que outrora desejou ser jogador de futebol, mas que as obrigações da vida acabaram por levar a melhor ao fintar-lhe esse sonho de infância e juventude. Enfim, não fosse a vida estar cheia dessas ousadias superiores…

Não perdemos tempo e logo nos primeiros vislumbres até Santo António, a cidade que tem lugar no Guiness como a mais pequena do mundo, foi evidente que aqueles dias seriam um antídoto para os males da alma.

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Chegados até à capital – em que a primeira impressão se prende, erradamente, a uma marginal decrépita, edifícios de arquitetura colonial em acelerado estado de degradação e meia dúzia de ruas esburacadas e quase intransitáveis – lá nos atiramos, sob os olhares mirones e curiosos dos nativos, para uma experiência genuinamente local na Pensão Palhota. De imediato, fomos avisados que a luz elétrica falha com frequência e que os restaurantes são poucos, pelo que convém marcar com antecedência, não pela eventual falta de mesa, mas pela ausência de comida.

Inquietos para começar a explorar, principiamos o nosso lento, duro e corajoso trajeto de 4×4, até à Ponta do Sol e depois à Roça Sundy, uma fazenda colonial, outrora casa da família real portuguesa e responsável pela maior produção do cacau e café._DSC8216Nesta roça encontram-se plantações de cacau e café, um hospital (todas as grandes roças da ilha tinham um hospital próprio), uma capela e vestígios de caminhos-de-ferro consumidos pela larica do capim e do tempo. Estes últimos serviam as locomotivas que transportavam o cacau entre as roças. Foi também neste lugar que Arthur Eddington (astrofísico britânico do início do século XX) provou a Teoria da Relatividade de Albert Einstein durante um eclipse total ocorrido em 1919. Contudo, naquele momento não haveria melhor “fórmula mágica” capaz de transformar aquilo que eu sentia (tantas vezes complexo) em algo simples, como um mergulho demorado, naquele mar, em que a paleta de cores oscila entre um verde-água e um azul-cobalto.

_DSC8205_DSC8162Micky quis levar-nos a uma das suas praias preferidas, à Macaco. Ali existiu outrora um projeto de hotel por parte de um português, que não passou disso mesmo, restando agora alguns bungalows, uma piscina de água estagnada e um restaurante engolido pela vegetação galopante.

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Naquele cenário, que nos faz recordar a série televisiva Perdidos, é permitido a qualquer sobrevivente de um quotidiano agressivo e implacável, recuperar os afetos de uma infância ingénua e despreocupada, com todo o seu rol de ambições e desafios. Naquele fim de tarde, recordei todos aqueles e aquelas com quem nos cruzamos e percebi que todos e todas (sem exceção) pareciam felizes. Todos e todas afirmaram ainda, de forma segura e indubitável, que viviam no paraíso ou no melhor local do planeta. E eu dei-lhes (tanta) razão…

in Revista Açores, 4 a 10 de junhora_31.png