Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir. (…)

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.

Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.

Czesław Miłosz

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Fé.

Tal como o escritor polaco nos convida a sentir, acredito ser este um dos sentimentos que melhor sustentou a renascida Varsóvia e as suas gentes. Invadida pelas tropas alemãs em 1939, a cidade foi alvo de bombardeamentos até 1944, deixando-a totalmente devastada. E não bastasse a dura luta dos polacos por altura da ocupação nazi, no pós-guerra enfrentaram mais um outro tanto de agruras com a ocupação soviética.

Confesso que ao rever os dias passados na Polónia, é-me inevitável não ser transportada para um cenário de beleza de traço melancólico mas também progressista, ou não fosse aquele um país de homens e mulheres de alma inquieta, desde as artes às ciências. Desassossegos à parte, e com o devido respeito a Marie Curie, Chopin e a Copérnico, aproveitamos aqueles dias soalheiros de outono para explorar a cidade.

O Castelo Real de Varsóvia foi a nossa primeira paragem. Contando com uma longa história, tanto foi residência da família real como local de debate para as sessões parlamentares, até ser completamente arruinada, em setembro de 1944, após um bombardeamento pelo exército alemão. Distaram 40 anos até que a sua reconstrução se efetivasse, devolvendo por fim esta fortaleza aos polacos.

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Da histórica rua de Nowy Swiat, que passa pelo monumento de Nicolau Copérnico e que se estende até a Praça das Três Cruzes, pelo caminho real rapidamente se chega até à zona da Cidade Velha (Stare Miasto – século XII) e da Cidade Nova (Nowe Miasto – século XIII). Neste percurso, onde é possível ainda dar uma olhadela no Museu Frederic Chopin (uma casa dedicada a um dos compositores mais importantes da história, onde se retrata a sua vida e onde se faz perdurar a sua obra), as ruas exibem casas pintadas de cores arejadas, embora cálidas, como amarelos, laranjas e verdes-pistácio, brotando de um chão de pedra rústica.

A Praça do Mercado (Rynek Starego Miasta) é igualmente imperdível, à semelhança do Barbakan (muralhas da Cidade Antiga) e da Basílica de São João Batista, a mais antiga das igrejas de Varsóvia.

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Ainda naquela tarde, dedicamos algum tempo ao Museu da Insurreição de Varsóvia (Warsaw Uprising Museum), que documenta o primeiro dia de agosto de 1944, no qual os polacos se revoltaram e criaram um exército clandestino, fazendo a maior operação de resistência durante a II Grande Guerra. O episódio durou 63 dias, findando a 2 de outubro do mesmo ano, quando as tropas alemãs se renderam. O museu é um tributo aos que lutaram e morreram pela independência do país, contando a história da Polónia desde a ocupação nazi até ao regime comunista.

A noite caía sobre a cidade, ao que nos pusemos a caminho do Palácio da Cultura e Ciência, um presente da União Soviética ao povo polaco.

Uma vez que Estaline não chegou a assistir à conclusão das obras – ou não fossem há muito conhecidas as circunstâncias bizarras da sua morte na manhã de 5 de março de 1953 –, só após a denúncia pelo seu sucessor, Nikita Krutschov, em 1956, é que o edifício viu serem removidas das fachadas as letras que queriam eternizar o nome daquele ditador. As cicatrizes permaneceram e o palácio parece ainda ser para a Polónia o símbolo daquilo que chamam “a ocupação”, prevenindo-nos como as memórias são uma forma de materialização de afetos. Entre silêncios e cliques de máquina, debruçamo-nos sobre o terraço, contemplando, respeitosamente, a ampla visão em 360 graus da Varsóvia moderna e sobrevivente.

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