Sobre a linha do Equador, com um pé no hemisfério norte e outro no hemisfério sul, homenageei todos aqueles que dedicaram a sua vida a elaborar e a interpretar mapas, ou não tivesse sido esta uma das ferramentas mais revolucionárias e úteis na progressão da humanidade.

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Que seria dos exploradores e até dos piratas sem a preciosa ajuda dos mapas para encontrar outros mundos ou tesouros escondidos? No Ilhéu das Rolas, reiterei, sem artimanhas ou batotices, que a descoberta e o espírito de aventura são inatos aos mapas, criando estes, ainda, uma língua universal, independentemente de fronteiras. Pena esquecermo-nos de estimular tal habilidade nas crianças e nos adultos de hoje, resfriando o mistério e a emoção da exploração individual ou coletiva, chegando mesmo a perder-se a possibilidade de conhecer novos caminhos ou destinos, para além daqueles já previamente programados.

Depois de alguns dias atrás termos falado com Didi, irmão de um dos pescadores locais, sobre uma eventual visita a este ilhéu do arquipélago de São Tomé e Príncipe, situado no Golfo da Guiné, finalmente dei por mim a caminhar sobre (mais um) paraíso terrestre. Contudo, e enquanto me debatia com a realidade de desacelarar o ritmo dos meus passos, na tentativa de esticar o tempo, mais acabava por ser engolida por uma película cinematográfica, em constante movimento de time lapse. Algo legítimo ou não estivesse num local em que tudo era absolutamente inspirador: desde a música de fundo da aldeia, à desocupação dos locais até aos brinquedos dos putos que, eles próprios, inventavam, fossem carrinhos feitos com latas velhas e arame ou trotinetes de restos de madeira e canas.

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Explorada aquela abençoada terra, em que cada recanto tinha uma praia escondida, deixamo-nos ficar pela Praia Café. Para além de ser um local perfeito para fazer snorkeling, o areal branco ostentava uma vista de singular beleza, garantido ainda umas boas gargalhadas, com a visita de alguns porcos da aldeia em redor. Achei a situação deveras engraçada, recordando uma conversa com uns amigos que, no ano passado, estavam a planear uma viagem às Bahamas e mostravam-se esfuziantes com a ideia de explorar uma ilha de porcos nadadores. Sim, é verdade, ali os porcos nadam, todos os santos dias, em águas cristalinas de cor azul turquesa e são livres…

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Já com algum saudosismo à mistura, o final do dia aproximava-se e a maior área de mangal do país – cerca de 240 hectares – aguardava-nos. Ainda na ponte, entre uma ou outra buzinadela que nos distraía da explicação dada, percebemos que o rio Malanza – ou “malandro” como lhe chamam os locais devido à orientação da corrente variar conforme as marés –, é um ecossistema tropical de transição entre o mar e a terra. Um santuário ecológico rico em fauna como é o caso das galinhas-de-água, patos marinhos, garças-reais, maçaricos-das-rochas e até macacos a alimentar-se de frutos tropicais no meio da frondosa vegetação, sendo que estes últimos aparecem sobretudo no final da tarde. Apresenta também uma vegetação incrível com espécies de árvores típicas como a Avicennia (Mangue Branco), que absorve o sal, libertando-o depois pelas folhas, enquanto as raízes saem da água para que a planta respire e estabilize; ou como a Rhizophora (Mangue Vermelho), cuja madeira não deixa entrar o sal e as suas raízes descem do tronco até ao chão formando labirintos e esconderijos.

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No Malanza, a minha solidez fundiu-se naquele mundo líquido de árvores e raízes quase submersas, onde apenas o som dos seres mágicos que ali vivem quebram a severidade do silêncio. Quase que senti o meu corpo a mergulhar por entre as entranhas verdes e hipnotizantes daquele rio, enquanto as minhas pernas e os meus braços se transformavam em parques de diversão para os peixes. Já a minha cabeça  teimava vir à tona, mais parecendo uma  cobra preta que não desperdiça a oportunidade sentir o sol sobre os ramos que cobrem o leito do rio.

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in Revista Açores, 24 a 30 de setembro

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