De volta à grande ilha, era tempo de conhecer o norte. Muitas foram as paragens, ou não fossem ainda mais as praias tropicais – daquelas que moram no nosso imaginário com coqueiros vergados pelo vento acirrado, numa areia muito branca –, a decorar aquela encantadora costa.

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Saimos da cidade, desviamos em Conde até à praia de Micoló, seguindo depois em direcção a Morro Peixe, por uma estrada de terra batida. Chegamos a uma das praias mais icónicas, a do Governador, tomando assim o seu nome do famoso romance Equador, de Miguel Sousa Tavares. Na trama, seria neste local que o governador da colónia teria os seus encontros amorosos secretos. Logo, de imediato, surgiu a praia dos Tamarindos, que aparece quase como uma extensão.  Apesar de aparentemente remotas, ambas são muito populares junto dos locais.

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Ainda fizemos uma breve paragem na praia das Conchas, para nos demorarmos, de seguida, na praia Lagoa Azul. Nesta enseada cria-se a sensação de um lago e a água adquire uma tonalidade azul forte, convidativa a dar umas braçadas e a fazer um pouco de snorkelling. Apesar de pequena, as pirogas de pesca juntamente com a presença de imponentes embondeiros, criam um ambiente devaneador.

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Não muito longe dali, é possível visitar a Roça Agostinho Neto, antigamente chamada de Rio D’ Ouro, que é a maior roça de São Tomé, tendo recebido o nome atual após a independência nacional em 1975, em memória do primeiro presidente de Angola. É uma das mais emblemáticas e impressionantes estruturas agrícolas do país.

Entre muitas direções, caminhos e até furando o único túnel da ilha, almoçamos em Neves, a segunda maior cidade da ilha. Escondida numa ruela sem estrada de alcatrão, apresentava-se uma casa de madeira muito simples, de seu nome Santola. Naquele tasco, a existência torna-se, subitamente, simples. Umas “nacionais”, pão torrado com manteiga e banana-pão frita acompanhavam uns “bichos” enormes e frescos, que nos devolviam para o mar perante cada desfrutar. Estas santolas de casca mais mole, mas imensamente saborosas, vinham como entraram para a panela.

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Entretanto começamos a falar com um casal que nos sugeriu percorrer o caminho até à cidade piscatória de Santa Catarina, onde se situa o padrão dos descobrimentos que assinala o local onde desembarcaram em 1470, os primeiros descobridores portugueses, João de Santarém e Pêro Escobar. Partilhamos dicas, sendo que seguimos a sugestão de ir beber um copo no alojamento de turismo selvagem Mucumbli, situado sobre uma falésia basáltica a poucos metros do oceano, oferecendo um dos melhores pôr do sol da ilha. Achei o nome de tal ordem interessante que, ao pesquisar, descobri que Mucumbli é uma árvore de grande porte de interesse medicinal e considerada em alguns países da África Ocidental como mágica, tal como aquele deslumbrante espaço…

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Consolados, mas já um pouco esfalfados, pernoitamos na Roça Monte Forte, sendo que naquela noite, o universo advertiu-nos, mais uma vez, que os lugares se encontram nas pessoas e não nos mapas. À conversa com Osvaldo, filho do proprietário Jerónimo Mota, este quase octogenário, falou-nos dos seus trinta e três irmãos, sendo que a mais nova é uma menina de talvez três anos. Nascido no centro da cidade de São Tomé, começou a trabalhar na área comercial, mas a cultura da terra chamou por ele. De assalariado foi promovido a feitor, uma posição quase única para um homem de cor. Após a independência e nacionalização de todas as propriedades, candidatou-se à gestão de Monte Forte, onde se mantém até hoje.

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Embora Osvaldo pretenda continuar a estudar, até fora do seu país, notava-se a forte admiração que nutria por seu pai, não só pelo seu percurso suado e bem-sucedido, chegando até a exercer funções como deputado, mas sobretudo por ter sido capaz de manter a família firme e coesa, entre as várias mulheres da sua vida. Questionado sobre se consideraria seguir as pisadas do pai, respondeu com uma gargalhada demorada, sem nos revelar se seria de medo ou tentação!

in Revista Açores, 27 de agosto a 3 de setembro

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