Era o último dia na ilha de Príncipe. Qual o plano? Simples… Não existia!

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Enquanto caminhávamos despreocupados em direção ao Mercado Municipal, o Viajante Ilustrador citou uma expressão que bastante aprecio: “Não faças planos para a vida, que podes estragar os planos que a vida tem para ti.” Sábias palavras de um homem evolucionário (bem mais que revolucionário), que apreciava conversar rodeado dos seus bem-queridos gatos. O seu nome era Agostinho da Silva e afiançava que a vida ficaria empobrecida se lhe retirássemos a dimensão do imprevisto, evidenciando a ideia de que devemos estar sempre dispostos a partir, como um nómada. Este filósofo, poeta e ensaísta português, rejeitava uma sociedade centrada no lucro e elevava valores como a simplicidade e o espírito de exigência na vida do quotidiano, apoiando-se na meditação interior, na convivência aberta com o exterior e na envolvência na comunidade, sobretudo ao nível de uma ação predominantemente pedagógica.

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Acaso ou não, a verdade é que a vida consegue ser bem caricata… Ou não tivéssemos nós, após uma breve incursão pelo mercado com muitos sorrisos e polaroids, encontrado um sítio que, decerto, Agostinho da Silva teria gostava de contemplar, o centro de explicações de Cristóvão Silva, um cantinho que me fez recordar os meus tempos de escola primária. Ao entrar, recordei, de imediato, a minha sala de aula, com as mesas partilhadas e as cadeiras de madeira, nas quais as pernas eram de ferro pintado de verde-escuro, os armários compridos com misteriosas janelinhas de vidro e o emblemático quadro de giz, escrito pela minha professora Lucília. No recreio, os rapazes jogavam à bola e as miúdas brincavam à macaca, ao elástico ou trocavam folhinhas de cheiro. Não havia parque infantil, apenas um espaço verde aberto com uma árvore ao fundo, onde se deslizava desafogadamente a jeito de ganhar balanço e saltar à corda com o mundo e os nossos sonhos. Na hora do lanche, comia-se pão com manteiga ou uma peça de fruta, mas eu cá bebia sempre o leite que a escola oferecia, que era ainda mais delicioso no inverno, quando aquecido nos aquecedores da sala. Ia-se a pé para a escola, sozinhos e acompanhados pelas mães ou avós.

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Sou grata àquele professor quase a caminho dos 90 anos, por tais memórias valiosas! Cristóvão Silva contava que ensinar foi um dom divino que recebeu ainda catraio, e embora tenha começado a trabalhar em São Tomé, mais tarde, foi transferido para a ilha do Príncipe, e ali ficou. A lecionar um grupo de cerca de quinze crianças, afirma aceitar todas sem fazer distinções. Trabalhará até Deus lhe permitir e deseja que os seus alunos, através das suas aulas, enriqueçam os seus horizontes ao nível da aprendizagem e da cultura, mas sobretudo percebam a importância de exercer uma profissão pela paixão e não pelo dinheiro, exortando sempre o espírito de vontade individual a favor do bem comum.

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Depois desta visita especial e de uma comida de conforto na Juditinha, eu e o Viajante Ilustrador voamos na nossa mota apelidada de Swagger pela ilha… Desde a carenciada e sobrevivente comunidade piscatória da praia Burra até à exuberante Roça Belo Monte, hoje transformada num hotel de charme, e na qual se encontra a icónica praia Banana, em que a água assume a cor de azul-turquesa e o areal de branco peróla, despedimo-nos do paraíso, naquela que declarei ao Micky, como sendo a minha praia de eleição, a fim de corresponder ao desafio por ele lançado. A minha alma desassossegada precisou de parar para absorver tamanha beleza da praia Boi, na qual era possível contemplar o que existe debaixo da água numa distância superior a duzentos metros em direção ao horizonte, tal a virgindade natural daquele lugar. Vou sentir a tua falta, querido Príncipe! – partilhei. O motoqueiro, vulgo Viajante Ilustrador, logo após estacionar a mota de modo a proteger dos cocos, ripostou divertidamente: Leve leve! Móli móli! Deixa lá as saudades antecipadas e sente sim o swag deste sítio…

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in Revista Açores, 13 a 19 de agosto

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