_DSC9814Naquela noite estrelada, recordei uma fábula de Esopo que, decerto, nos acompanha a todos desde tenra idade: A Lebre e a Tartaruga. Acredito que, pelo menos uma vez na vida, qualquer um tenha usado este conto para demonstrar, contestar ou lamentar algo, evidenciando uma lição de amadurecimento e paciência, na qual a Tartaruga, com seu passo lento, mas firme, cruzou vitoriosamente a linha de chegada, ao contrário da Lebre, que demasiado confiante na sua velocidade, se deixou levar pela inépcia de uma soneca. Símbolo de longevidade e persistência, assim como de conexão entre a terra e a água, a tartaruga leva a vida ao seu tempo e ritmo, respeitando os próprios limites, como tantas vezes não o fazemos, lamentavelmente.

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Entre caminhadas e algumas pausas na Praia Grande, a norte da cidade de Santo António, acompanhados dos experientes guardas de tartarugas Hualton e Lourenço, com as suas luzes vermelhas na imensa escuridão da noite, aguardamos pacientemente pela visita de uma ou outra tartaruga verde (chelonoa mydas) – ou mão-branca, conforme o seu nome local –, e se a sorte assim nos bafejasse, de uma tartaruga sada (aretmocheys imbricata) ou até de uma tartaruga ambulância (dermochelys coreacea). Neste santuário de desova de tartarugas no Golfo da Guiné, ano após ano, entre setembro e fevereiro, mais de uma centena de fêmeas sobe várias vezes à praia durante o recato noturno para deixar os seus ovos enterrados na areia. Cada fêmea faz entre duas a cinco posturas por época, separadas por doze noites, das quais os ovos demoram cerca de dois meses a incubar. Na tentativa de evitar predadores, a tartaruga mãe tapa o buraco, suaviza a areia para esconder a sua localização, e volta indiferente para o oceano. Após a eclosão, as tartarugas marinhas bebés cavam até à superfície para determinar se é noite ou dia. Em regra, quando está escuro, irrompem para fora do buraco e fazem uma louca corrida para o oceano!

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Hualton ainda nos explicou que as tartarugas marinhas existem há mais de 150 milhões de anos e conseguiram sobreviver a todas as mudanças do planeta, mas atualmente são dos seres mais vulneráveis. De acordo com estimativas cientificas, de cada mil filhotes nascidos, apenas um chega à idade adulta. Afinal, o grande problema das tartaruguinhas é que, se elas desaparecerem, também o ecossistema marinho fica mais pobre, sendo a sua importância ecológica muito grande, principalmente nas zonas onde os peixes se vão reproduzir e desenvolver. São Tomé e Príncipe podia ser o maior santuário mundial da desova de tartarugas marinhas, já que, das sete espécies existentes, cinco são atraídas para estas maravilhosas praias do Equador. Nos últimos anos, a população de tartarugas cresceu bastante na ilha do Príncipe, tendo a espécie sada, em vias de extinção, encontrado neste local a desejada proteção.

Psiu!!!

Já passava das 21:00, quando a primeira de três mãos brancas que avistamos naquele dia depositou na areia o conjunto de ovos; e das 23:00, quando duas tartarugas sada deixaram um rasto sem postura. Durante o percurso, ainda encontramos indícios da passagem da colossal tartaruga ambulância, provavelmente da noite anterior. Mais parecendo uma criança, tornei-me guarda de tartarugas, auxiliando Hualton e Lourenço na medição do comprimento e largura da carapaça, assim como no preenchimento das fichas de registo da patrulha noturna.

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Após esta experiência, elevei a minha admiração pelas tartarugas marinhas e deixei de lado a imagem inocente, e até talvez infantil, de as imaginar a surfar através correntes oceânicas ou a mergulhar em torno dos recifes de coral. Na verdade, estas nascem sem as mães, lançando-se sozinhas ao mar, contra ondas e marés, e esquivando-se a eventuais obstáculos e predadores, sem levar em conta as armadilhas humanas. Arrisco-me desta experiência a tirar uma outra lição, quiçá complementar a da fábula de Esopo: Ousemos dar um salto nesta “corrente” da vida!”

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in Revista Açores, 30 de julho a 5 de agosto

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