Mal alvoreceu começamos a caminhar, ou não tivesse ficado o Viajante Ilustrador empolgado com a possibilidade de se encantar com a beleza das paisagens, mas sobretudo com a possibilidade de se cruzar com a autenticidade das gentes nómadas.vi_27_03m

Durante esta jornada recordei uma palavra, da qual gosto especialmente: flanar. Etimologicamente, esta elocução deve a sua origem ao verbo francês flanêr que significa caminhar sem destino certo, de modo ocioso, ou como afirmava Honoré de Balzac (de forma encantadoramente deliciosa), “flanar é uma ciência, é a gastronomia dos olhos”. Perante tal visão, não posso deixar de imaginar os viajantes quase como críticos gastronómicos, que sofrem de um apetite voraz por experiências humanas, ora previamente concertadas, ora fruto do acaso, em locais próximos ou distantes, familiares ou desconhecidos, desproporcionados ou sublimes.

_DSC4481_DSC4415Mas divagações à parte, recordo que descobri este verbo no livro Wanderlust: a history of walking, de Rebecca Solnit, que aborda a forma como, atualmente, as pessoas se deslocam, esquecendo-se de conhecer o mundo através do seu corpo, tocando-o com os seus pés. Caminhar envolve autoconhecimento, quando não nos oferece uma oportunidade de inspiração e de criatividade. Parafraseando Anatole France, “É bom colecionar coisas, mas é melhor caminhar. Porque caminhar também é uma forma de colecionar coisas: as coisas que a gente vê, as coisas que a gente pensa”._DSC4454_DSC4481

Entregues ao silêncio, como que na tentativa de tocar a terra e ouvir a batida do seu coração, observávamos como o sol tingia de dourado os rebordos das janelas inventadas da montanha, das quais caprinos nos observavam atentamente, como que a jeito de entediados e bisbilhoteiros vizinhos, que de tão bem conhecerem aqueles caminhos de pó e pedra, logo adivinham não sermos gente dali. Curioso como numa afronta à gravidade, as sabidas cabras alpinistas desciam todos os dias do alto para ir beber ao que sobrava de um rio, pondo-nos a pensar como conseguiam elas chegar até sítios tão inóspitos, de que nem Judas se lembraria! Seguindo estas endiabradas criaturas, uma ou outra figura humana eremítica acompanhava-as neste exercício de sobrevivência. Nómadas, afirmava Hammou. Homens e mulheres que seguem os seus animais, entre a aridez e a abundância, carregando a casa às costas, ora montando, ora desmontando tendas, conforme a natureza o ditar. Na certeza de que tudo o que transportam é realmente necessário e útil, lá fazem por manter uma dispensa na qual se encontra chá, leite e queijo (fresco ou seco ao sol) de cabra, pão, tâmaras e umas quantas reservas de água.

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Por mais agradável que seja a ideia romântica de um viajante itinerante, desapegado do mundano que faz da natureza a sua única bússola pelo caminho da montanha, questiono-me se não chegará aquele dia em que alguns, simplesmente, escolhem ficar? Nómadas ou sedentários, quantos de nós já não desejaram avidamente partir, mas se distantes, somente almejamos chegar?

O sol começava a queimar de tal forma, que decidimos parar um pouco para comer, descansar e falar um pouco com quem por ali vivia. O Viajante Ilustrador começou assim a fotografar uma família bérbere. Embora agradados pela atenção que obtinham, era evidente a vergonha e o incómodo sentidos por acharem impróprio reproduzir o corpo, considerado sagrado, numa fotografia. Fugidia, a matriarca refugiou-se em sua casa, regressando depois acompanhada do neto. Longe das câmaras contou-nos a sua história. Parida nas montanhas, toda a vida entre aqui e ali se criou e viveu, até que ousou ser mais do que lhe disseram do que podia ser. Quis ter um cartão como os outros, escolhendo deixar de ser uma cidadã da montanha, para ser uma cidadã de um país. Quis acreditar que os seus filhos e os seus netos mereciam ver o que estava para além dos cumes. Agora, entre paredes de memórias de angústia e alegria, coloca no neto todos os sonhos do mundo. Perguntamos pelos pais daquele observador rapaz. Lado a lado com o neto, elevou a face e encarou de frente o horizonte, dizendo “Preferem ficar pela montanha”.

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_DSC4520in Revista Açores, 9 a 15 de abril

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