vi_26_03mEnquanto o Viajante Ilustrador aproveitava o ar, ainda fresco, nas dunas de Merzouga para fotografar, eu folheava “Viagens”, de Paul Bowles. Imagino este viajante erudito como uma espécie de Indiana Jones que, nas suas vastas e perigosas aventuras – muitas vezes com a mulher, Jane – apenas reafirmava os seus compromissos de liberdade e desprendimento. Este casal foi, nos início do anos 90, revelado ao mundo numa adaptação cinematográfica de Bernardo Bertolucci (ingenuamente traduzida para português como “Chá no Deserto”), do romance de 1949, “O Céu que nos Protege”, e que conta com a banda sonora da autoria do grande compositor japonês, Ryuichi Sakamoto. Bowles era um nómada extravagante que amava o deserto e as regiões inóspitas, tal o seu conhecimento da cultura árabe. Em Marrocos visitou lugares interditos e experimentou tudo o que lhe era oferecido, desde o exotismo dos bordéis até às lutas entre os mercenários e os separatistas. Este homem do mundo tinha alma de vagabundo, mas agia como um aristocrata. De acordo com Daniel Blaufuks, fotógrafo português que, em 1991, publicou com Bowles o livro “My Tangier”, este último era “(…) um homem que tinha vivido a sua vida, traçado o seu destino, encontrado a sua alma. A sua casa e a sua pessoa irradiavam serenidade, apesar da sua biografia e do monte de malas na entrada lembrarem outras existências.”

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De regresso à realidade, dei o Viajante Ilustrador como perdido. Já um tanto ou quanto preocupada, lá fui dar com ele completamente estonteado com um espelho de água que havia encontrado naquelas sensuais dunas. Enquanto partilhava o deslumbrante momento, tentei apressa-lo, mas sem sucesso, ou não arrumasse ele o equipamento em câmara lenta com um largo e luminoso sorriso, cantarolando “Deitados nas dunas, alheios a tudo/ Olhos penetrantes/ Bebemos dos lábios, refrescos gelados/ Selamos segredos…”.

Muito perto dali, mais precisamente, em Khamlia, uma pequena aldeia onde a maioria da população se dedica à pastorícia, ao artesanato e à exploração de minério e sal-gema, homens nascidos da cadência fazem da música, hipnose. A sonoridade do povo Gnawa, descendente dos escravos da África Ocidental levados para o norte do Saara pelos árabes e conhecido pelos bérberes como o “povo negro do deserto”, materializa-se através de instrumentos parecidos com alaúdes, de umas castanholas metálicas e tambores. Ademais, usam uma mistura de Bambara, ou seja, de línguas bérberes e árabes, em que os músicos movimentam todo o corpo, à exceção da cabeça. Recordo a música Gnawa como uma espécie de fogo-de-artifício interior, que nos convida a um estado de consciência onírica. Ceticismos à parte, Hammou confidenciou-nos que estes ritmos ajudam a curar doenças e a entrar em estados de transe e êxtase místico que regulam as nossas emoções e até nos podem por a contatar com outros mundos.

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Dali seguimos em direção a Alnif, conhecida pelas suas deliciosas tâmaras, passando por Tazanine, importante pelo seu festival anual de henna, até ao oásis de Nkob. Ao longo do caminho, Hammou referiu que esta pequena vila bérbere, capital da tribo dos Ait Atta, é rodeada pelas montanhas do Jbel Saghro, reforçando que estas eram fantásticas para caminhadas, das quais é possível ver toda a região. Na verdade, pouco mais bastou para que Hammou e o Viajante Ilustrador esboçassem um rascunho de um trekking para fazer pela alvorada do dia seguinte.

Cansados e famintos da viagem, pernoitamos na casa de uma família amiga de Hammou, que logo nos ofereceu um chá com menta, tal a sua hospitalidade. Já sentados entre pratos, entregamo-nos ao prazer do paladar com um cardápio maravilhoso: harira – a famosa sopa de Marrocos preparada com grão-de-bico, lentilhas, arroz, tomate, cenoura, ervas aromáticas e especiarias –, couscous com frango e leite de cabra ao estilo bérbere e fruta da época, como melancia e meloa. Naquele estado de alimentação consciente, falei de Epicuro a Hammou, dizendo-lhe que este sábio afirmava não conseguir imaginar uma vida de prazer sem um bom prato de comida, uma grande amizade ou tempo para filosofar… Nisto, Hammou propôs um brinde, dize

ndo: “A Epicuro e a todos os homens livres!”.

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in Revista Açores,  de 26 de março a 1 de abril

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