Após uma breve estadia no Vale das Rosas, partimos para as espetaculares Gargantas dos rios Dadés e Todra. Apesar da rivalidade entre ambas, aquela que mais se parece destacar é a de Todra, pelos seus 300 metros de altura escavados através das águas daquele rio. Ali, as estradas mais se assemelham a escadas até ao céu, e das quais se avistam altas montanhas, íngremes penhascos e imponentes vistas.

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Foi a partir deste momento da viagem que começamos a conhecer melhor Hammou, um homem parco em falas, mas abundante em fé. Era curiosa a forma como aquele bérbere se exprimia pois ocasionava breves pausas, nas quais tendia a dirigir e a suster o seu olhar enegrecido no firmamento. Esforçava-me por o observar, pensando que aquele homem com aquele gesto repetitivo, mais parecia um filho a tentar encontrar o aval do pai.

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Em verdade, para além dos ensinamentos de Alá, o que fazia Hammou alongar-se nas suas frugais conversas, era a sua família. Gostava de partilhar os convívios em casa de sua mãe, nos quais revia os seus irmãos e restantes familiares, assim como os momentos com a esposa e o seu filho de apenas quatro anos. Este rebento que gostava de futebol e torcia pelo Barça era, sem dúvida alguma, a figura que ganhava destaque nas suas palavras, assim como no seu olhar longânime. Já do pai não falava, até que um dia o questionei diretamente. De forma seca, respondeu-me que este teria morrido há tempo suficiente para nada haver a dizer sobre ele.

Atitude que bastou para perceber que, de findo, aquele pai pouco ou nada tinha na vida de Hammou. Ainda na rota até Erfoud, em que a dureza do caminho nos desperta a atenção para as aldeias cada vez mais autênticas e remotas, apenas sobrou tempo para uma pausa em Rissani, onde se encontra o mausoléu do Rei Moulay Ali Cherif, no qual descansa o fundador da Dinastia Alaouite. Ali ganhámos ânimo para chegar até às Dunas de Erg Chebbi, mais conhecidas por Merzouga.

Nos cerca de quarenta quilómetros seguintes, Hammou falou-nos da história desses povos naturais da região do Norte de Africa. Assim explicou que, se numa primeira fase, os bérberes viviam em tribos que cobriam uma parte significativa do deserto do Saara (principalmente numa região apelidada de Magreb, da qual fazem parte a Mauritânia, Marrocos, Argélia, Mali, Líbia e até uma parte da Tunísia), como nómadas que eram, desenvolveram a capacidade de viver e de encetar longas distâncias no deserto. Porém, apesar da sua identidade cultural comum, os bérberes nunca se constituíram como um povo uno em torno de um Estado.vi_25_03m

Enquanto escutava Hammou e o Viajante Ilustrador efusivamente a trocar opiniões, ou não fosse este último um apaixonado pela origem dos povos e a criação de estados, eu cá não conseguia abandonar o número quarenta. Na realidade, a viagem até às Dunas de Merzouga quase que funcionava como uma ampulheta do tempo necessário de preparação para algo novo. Se este pensamento foi, talvez, turvado pelos meus ensinamentos judaico-cristãos de infância, o meu instinto de Viajante persistia na ideia de que uma noite no deserto bastaria para qualquer um renascer do entorpecimento.

Dois dromedários esperavam-nos à entrada das dunas, sendo que, a jeito de brincadeira, tentei perceber se estes teriam nomes. Qual não foi o meu espanto, ao saber que seriam o Jimmy Hendrix e o Bob Dylan a levar-nos por aquela espécie de mar de areia onde os homens, em tempos, se deslocavam em caravanas. Sem perder tempo, o Viajante Ilustrador logo asseverou que iria com o Hendrix, e que eu ficaria bem com o Dylan, vá-se lá saber porquê!

Avançamos no dorso destes cavalos do deserto sem medo, embora completamente aturdidos, naquela que foi uma espécie de busca (ora exterior, pela fotografia, ora interior, pela emocionalidade da palavra) por um local de indescritível tentação e beleza, ainda que no fim garanta a salvação divina da alma. Por esta altura as palavras começaram a escassear, tal a beleza daquela paisagem imensa e falsamente estéril, até que, contemplando o sumptuoso sol africano, perdemo-nos no tempo, no espaço e na matéria…

in Revista Açores, 12 a 19 de Março

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