Por entre os vales verdejantes e os rasgos enrubescidos subimos na paciente companhia de Hammou até ao ponto mais alto deste trecho do Alto Atlas, o Tizi n’Tichka, a mais de 2200 metros de altitude, que une a estrada entre Marraquexe e Ouarzazate.

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Após contemplar o Pequeno Atlas, seguimos por um caminho à esquerda que nos conduziu até Telouet, sendo esta uma etapa imprescindível para imergirmos na Rota dos Kasbahs. É então momento de parar o 4×4 e passamos a ouvir The Clash e o seu álbum de 1982, Combat Rock, onde consta a épica música, Rock the Casbah. A composição, que intencionalmente procura “agitar o kasbah”, mistura termos norte-africanos, urdus, árabes e judeus, e ficciona a prevalência do rock sobre restrições à liberdade cultural nas regiões do Médio-Oriente e do norte de África.

Das planícies Haouz, passando pelas margens do Rio Zat, ascendendo aos picos do Atlas, até às terras áridas perto de Ouarzazate, impera um cenário pautado por uma sucessão de ksour (plural de ksar), fortalezas ou aldeias fortificadas da população berbere, e de kasbahs, casas  muralhadas igualmente de origem berbere, como Ounilla ou Telouet. Este último foi abandonado em 1956, tendo sido por largas décadas a sede do poder do clã dos Glaoui, um dos mais poderosos grupos de berberes do sul marroquino. Construídas em adobe (argila, estrume e palha, secados ao sol) e com adornos em ladrilho cru que apresentam padrões associados ao seu criador, estas estruturas defensivas albergavam no seu interior verdadeiras urbes, casando todos os tons possíveis de ocre e vermelho. Doravante, contudo, as comunidades foram-se dispersando e muitos dos kasbahs acabaram nas atuais ruínas da paisagem da ala sul do Atlas, de Telouet aos vales do Dadés e do Todra, do Vale do Draa às regiões orientais do Ziz e do Tafilalet.

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“Não demasiado longe deste itinerário, existe um outro local de paragem obrigatória – Aït Ben-Haddou – na encruzilhada das rotas entre o norte de África e Tombuctu, cidade no centro do Mali, onde a compra e venda de livros chegou a ser mais lucrativa do que o comércio de ouro e escravos. Aït-BenHaddou, outrora Aït Aïssa, sugere que a sua denominação constitui uma homenagem à fundação deste local por um lendário viajante. Todavia, existe uma outra história, contada pelos locais, que alude à figura de Kahîna, uma rainha cristã a quem eram conferidos poderes mágicos, e que se terá oposto ao progresso do islamismo na região. ”

Este famoso ksar de Aït Ben-Haddou, classificado como Património da Humanidade pela UNESCO e localizado perto de Ouarzazate, foi cenário de diversos filmes, como Lawrence da Arábia, Gladiador, Um Chá no Deserto ou Babel. O ksar era ocupado, sobretudo, por algumas famílias mais pobres, que ali buscavam a proteção face a intempéries, bandidos ou tribos nómadas que assaltavam os oásis depois das colheitas. Estas aldeias tendiam a ter apenas uma rua principal com contacto direto às safras, funcionando como fortalezas comunitárias para as populações sedentárias. Curiosamente, algumas mantêm-se habitadas até hoje! Nestes locais, havia sempre uma residência que dominava a cidadela e garantia a proteção, constituindo um elemento distintivo da arquitetura berbere.

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Este povo continua a predominar na região, conservando ao longo dos tempos uma identidade própria, nomeadamente através da língua. Embora os seus hábitos antecedam a chegada dos árabes, convivem de forma pacífica e integrada, sendo que uma larga maioria acolheu o islamismo.

Findos os desvios, lá chegamos até Ouarzazate, uma cidade modernizada, fundada pelos franceses, igualmente conhecida pelas suas produções cinematográficas nos estúdios Atlas. Dali continuamos a nossa rota em direção ao lago Al Mansour, passando pelo palmal de Skoura, terminando no Vale das Rosas.

“Shareef don’t like it

Rockin’ the Casbah
Rock the Casbah
Shareef don’t like it
Rockin’ the Casbah
Rock the Casbah”

in Revista Açores, 26 de fevereiro a 4 de março

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