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“Marraquexe viu chegar e partir gerações sucessivas de homens que a amaram como a nenhuma favorita dos seus haréns, que por ela se bateram e mataram, plantaram jardins minuciosos e geométricos, palácios de luminosos azulejos e pátios estudados para que  a sombra do Sol durante o dia ou a da Lua à noite nunca revelasse tudo, exactamente, mas apenas aquilo que é devido à condição humana: ‘que pena que já não possas ver mais… a mais bela das cidades do Sul”

Sul, Miguel Sousa Tavares

Depois de termos passado o dia anterior a visitar alguns dos principais monumentos da “cidade vermelha”, como a Medersa Ben Youssef, o Palácio Badii, os Jardins da Menara, o Palácio Bahia, os Túmulos Saadis, o Bairro de Mellah, o Museu Dar Si Said e outros tantos, naquela manhã dei por mim a recordar uma das primeiras conversas que tive com o Viajante Ilustrador (já lá vão sete anos…) acerca da sua paixão sobre labirintos.vi_23_02

Confesso muito já ter esquecido, mas mantive a ideia de se tratar de um dos símbolos mais antigos da humanidade e, porventura, gravado na memória coletiva do ser humano, independente da raça e cultura.

Empolgado, lá me disse que um dos labirintos mais conhecidos no mundo é o construído por Dédalo em Knossos, a mando do rei Minos de Creta, para conter o Minotauro — um monstro com cabeça de touro e corpo de homem, fruto do amor da rainha pelo touro sagrado —, perante o qual eram sacrificados anualmente sete rapazes e sete raparigas, e que foi morto por Teseu. Por outro lado, o maior labirinto, o “Caminho de Jerusalém”, foi construído na Catedral de Chartres, em França, onde os peregrinos judeus, –  impossibilitados de irem à Cidade Santa -, substituíam o percurso por este enredo, ajoelhados, acreditando que no final estariam transformados, plenamente preparados para os desafios da vida. Achei ainda curioso o facto de me ter relatado que na Índia, quando uma criança está prestes a nascer, os pais desenham num papel um labirinto com onze voltas, para que aquela prospere, representando a compreensão da espiritualidade, numa fusão entre divindade e força. Em verdade, a ideia de o conceito de labirinto estar associado à condução do homem ao seu próprio centro interior, apaixonou-me, à semelhança dos souks!

Situados na parte norte da cidade velha e especializados por setores de comércio de artesanato, os souks são um labirinto de ruelas estreitas e escuras, aparentemente intermináveis, que se ramificam como raízes rebeldes, mas vigorosas… Concretamente, existem dezoito souks principais em Marraquexe, de como é exemplo, o Rabia, indicado para a compra de tapetes, ou o Smata, ideal para arranjar umas babouches (sapatos tradicionais marroquinos).vi_23_04

Porém, houve um pelo qual nos enamorámos, o souk Sebbaghine (ou des Teinturiers, isto é, dos tintureiros)! Este souk fez brilhar o olhar fotográfico do Viajante Ilustrador, dando contornos cénicos a uma deambulação exótica e misteriosa, simples e opulenta por aqueles becos escuros apinhados de peles e tecidos de seda tingidos a secar em cordas ao sol, mais parecendo um arco-íris. Ali, como em todos os souks, negociar é um verbo maior, ou não fizesse esta arte de bem regatear parte da tradição de comercialização do mundo árabe, tornando-se numa regra absoluta.vi_23_03

Perdidos no tempo e no espaço, entre uma infinidade de
objetos, de ervas e especiarias marroquin
as, a produtos de beleza, tapetes, até peças de couro ou abajures, naqueles souks imaginamo-nos curandeiros ou loucos contadores de histórias sobre dentistas ou até videntes!

Juro que se Marraquexe quer dizer “parte depressa”, algo em mim me diz que isto só pode ser um grave equívoco, pois a minha mente teimou no contrário, desejando somente ali ficar, como que à espera do verso final de um teimoso poema suspenso.

in Revista Açores, 11 a 18 de março

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