Debruço-me sobre a janela e espreito Marrocos. O Viajante Ilustrador desperta de um sono desassossegado pela chegada e rapidamente tira a câmara, tentando fotografar de longe um labirinto chamado Marraquexe.

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Aterramos. Um bafo intenso invadiu-me o corpo: 36 graus! Abandono a forma de cubo de gelo e um pesado inchaço apodera-se de mim. Hammou aproxima-se e graceja, “Hoje está fresco!” Numa curta viagem até ao coração da cidade vermelha, trocamos breves impressões com este homem que mesmo antes de dizer o seu nome, se afirma berbere. E nós, mesmo antes de o conhecermos, já o sentíamos como o amigo Hammou, o berbere!

Deixou-nos num Riad situado a escassos passos de Djemaa El Fna. De imediato procuramos um terraço e entregamo-nos por instantes à indolência e ao prazer de um chá de menta e de um repasto revigorante. Apreciando lentamente a nossa tagia, fomos interrompidos por uma sonoridade que invadiu a cidade. Após um instante de alerta, olhamos um para o outro e suspiramos de alívio: o Adhan! Acabavamos de ouvir uma das cinco chamadas para a oração muçulmana.

Sem relógio e desapegados de compromissos, perdemo-nos nas ruelas dos souks de Marraquexe. Deambulamos por este dédalo durante mais de três horas, até que lá conseguimos voltar à vibrante e mágica Djemaa El Fna, o coração da medina. Do alto de um dos cafés desta praça, não conseguia desviar o olhar da Koutobia, que teimava em recordar os homens da sua obrigação da fé. Contemplamos do exterior a beleza e imponência desta mesquita, uma vez que a entrada é proibida a não muçulmanos. O que importa é que esta mesquita é considerada, pela maioria dos marroquinos, como aquela que tem o minarete mais sublime de todo o norte da África. Construída por Yacoub Al Mansour, num desejo de conseguir erguer sete mesquitas para entrar no céu e ser recebido por catorze virgens, acabou por ficar às portas do mesmo, ou não tivesse perecido antes de finalizar a sétima … “Raios partam ao azar!”, exclama o Viajante Ilustrador à laia de galhofa.vi_22_02

Ainda no topo deste minarete, encontram-se quatro esferas de cobre de tamanhos decrescentes, um quesito tradicional nas mesquitas do país. Porém, reza a lenda que as esferas são de ouro puro e terão sido doadas pela esposa de Yacoub el Mansour, como penitência por ter quebrado o jejum de três dias durante o Ramadão (a tradição diz que comeu três uvas!). Outra história remete para os muezzin, que ali fazem o chamamento dos muçulmanos na hora das orações, voltados em direção a Caaba, em Meca. Assim, conta-se que, sem nenhuma prova tangível, como o minarete tinha vista direta para um harém, apenas os muezzins cegos lá podiam subir, ou não fossem aqueles que partilham do dom da visão cair em tentação e dar uma espreitadela durante os períodos de culto. Na verdade, a cidade de Marraquexe é um livro repleto de lendas lacónicas e fábulas, sendo que a Koutoubia não se livra igualmente do seu próprio universo de histórias.vi_22_03

Repleta de vendedores de sumos de laranja, de doces, de lamparinas; de bancas de comida; de aguadeiros; de tatuadoras de henna; de contadores de histórias; de videntes; de malabaristas; de homens com macacos; de encantadores de cobras e até de vigaristas, Djemaa El Fna transforma-se à noite num festejo desenfreado. Ali, personagens humanas e animais exibem os seus arrojados talentos. O significado do seu nome, “assembleia dos mortos”, remonta às execuções de criminosos que ali tiveram lugar há muitos séculos, é reinventado, convertendo-se numa “assembleia dos vivos”. E é nesta dualidade de vida e de morte, de realidade e fantasia, que acabamos sugados pela luxúria das paixões e pela euforia da audácia, como que a ludibriar a iminente finitude da memória. Ali, todos são ninguém e todos são de parte nenhuma, gozando de uma liberdade isenta de qualquer esforço.

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in Revista Açores, 15 a 21 de janeiro de 2017vi_22_ra

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