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Numa manhã estival, inclinada sobre uma das varandas do ferry, despedi-me da ilha santuário. Enquanto saboreava um resto de castella, que ainda guardava da nossa ida a Quioto, recordei uma frase de Thich Nhat Hanh, um autor de elevada humanidade que muito aprecio pelo seu pensamento crítico e reconciliador, capaz de nos libertar da impotência e mobilizar para a mudança. Não querendo desvirtuar as suas palavras, este monge budista de origem vietnamita terá dito que devemos caminhar como se os nossos pés beijassem a terra. Nisto, tive a certeza de ter beijado Miyajima.

Regressados a Hiroshima, voamos no comboio bala até Himeji, uma pacata cidade que poderia passar despercebida não fosse o seu imponente castelo, de uma beleza notável e de grande riqueza histórica.vi_18_02

O seu apelido de “Garça Branca” não se relaciona apenas com os elementos decorativos do castelo, nomeadamente, os seus beirais graciosos e curvos, mas principalmente com as suas paredes cobertas de alvenaria branca. Como os demais castelos da sua época, Himeji era feito de madeira, mas o acabamento em alvenaria aumentava a espessura das paredes, tornando-o resistente aos ataques com armas de fogo. Provavelmente poderão achar a imagem deste castelo familiar, ou não tivesse já servido de cenário em filmes como “007 – Só se vive duas vezes” (protagonizado por Sean Connery) ou “O último samurai” (protagonizado por Tom Cruise).

Após esta breve viagem até à história do Japão feudal, mergulhamos no Japão moderno de Osaka, a terceira maior cidade do arquipélago, embora seja a segunda mais industrializada. Decidimos tirar tempo para a percorrer a pé, e com o anoitecer, perdemo-nos numa espécie de neon party, onde os olhos acinzentados da vida tornaram-se coloridos, através de uma paleta de rosas, azuis, amarelos e verdes acentuados, criando uma experiência fotográfica vertiginosamente imersiva.

Começamos por Amerika-mura, um epicentro da cultura juvenil, também conhecido como “Harajuku do Oeste” ou “Shibuya do Oeste”, com referência aos famosos bairros de Tóquio. Passando pelo mercado de Shinsaibashi-suji que nos levou até à ponte de Ebisu-bashi, chegamos até ao bairro de Dotonbori, entre Nihonbashi e Daikokubashi. Ali cruzamo-nos com o Glico-Man a correr para nós, ultrapassando todos os cenários possíveis e imaginários. Não muito longe daqui, visitamos também o templo de Mizukake, dedicado à imagem de Amitaba Mizukake-fudo, onde pudemos observar as pessoas a verter água sobre a estátua, acreditando assim conseguir maior prosperidade nos negócios, bem como realização pessoal no amor.vi_18_04

Neste centro, as especialidades gastronómicas japonesas abundam nas ruas, de takoyaki a yakisoba, ou de yakiniku a ramen, nunca esquecendo o sushi. E sendo o assunto comida, tenho de partilhar que em Dotonbori, mesmo junto ao rio, provamos os melhores takoyaki de todo o Japão. Uma mistura de farinha de trigo, água, ovos e caldo de peixe, que é derramada para uma chapa com cavidades esféricas, juntamente com o recheio de polvo cozido e muitos outros ingredientes, sendo que no fim é adicionado um molho de takoyaki, maionese, aonori ou atsuobushi. Era fabulosa quer a rapidez, quer a técnica daquela malta a mexer os bolinhos, ao som de uma música teatralmente vibrante intitulada Takoyaki-Hallelujah! Sim, os japoneses vivem muito a sério a loucura deste bolo recheado com polvo…vi_18_03

Durante o tempo de espera na fila, uns estudantes contavam ao Viajante Ilustrador como esta iguaria surgiu nesta cidade nos anos 30, através de um vendedor ambulante; e como os moradores de Osaka alimentam uma obsessão por comida, tendo mesmo uma expressão própria para o efeito, que traduzida significa que aqui se deve “comer até cair”. Animado com a conversa, o Viajante Ilustrador respondia-lhes “Sou maior que vocês, mas vamos ver se me aguento!”; enquanto eu, estupefacta com aquele movimento veloz e automático, matutava “Isto são muitos anos a virar takoyakis…”

in Revista Açores, 20 a 26 de novembro (págs. 26 e 27)

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