No cais, o Viajante Ilustrador contava-me como a história de Sadako Sasaki o havia impressionado… Na altura do ataque, Sadako era apenas uma criança de 2 anos de idade, condenada a uma morte prematura, quando sobre si caiu uma chuva negra. Ou não fosse 10 anos mais tarde, receber o terrível diagnóstico de leucemia, a apelidada “doença da bomba atómica”.vi_17_03

No verão de 1955, a melhor amiga de Sadako, Chizuko Hamamoto, foi visita-la ao hospital e fez-lhe um origami de um tsuru, a ave sagrada do Japão. Conta uma lenda popular que aquele que fizer 1000 tsurus de origami terá um pedido atendido pelos deuses. Alimentando-se desta fé, Sadako passava os dias a fazer os seus tsurus e a desejar a sua cura. A menina apenas conseguiu fazer 646 tsurus, pelo que, após o seu falecimento, os amigos fizeram os restantes 354.

Como suspirou alto o meu coração quando avistou o transporte que nos levaria para a ilha de Miyajima, tamanha a vontade de mergulhar na vida. Esta ilha é, literalmente, um santuário, não só religioso, mas também histórico e ecológico. Considerada sagrada por ser a moradia de várias divindades e representada pelo templo xintoísta Itsukushima – nome pelo qual também é conhecida – não era permitido aos comuns mortais sequer lá viver, quanto mais dar à luz ou mesmo morrer. Atualmente, já não existe este tipo de proibição, mas a tradição permanece, não existindo maternidades ou cemitérios.

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Durante a viagem, cruzámo-nos com diversas explorações de ostras, ou não fosse a região de Hiroshima, a maior produtora de todo o Japão. Esta paisagem logo nos abriu o apetite, e assim que pisámos em terra, fomos diretos ao Kaki-ya, o lugar perfeito para quem é apreciador desta iguaria. Decerto que a nossa larica, em muito, conseguiu superar a dos veados atrevidos que nos esperavam à saída do ferry, a fim de nos sacar algo das mochilas!

Após um belo almoço e um passeio descontraído pela rua principal, foi impossível resistir aos Momiji-manji, uns bolos em formato de folhas recheados com pasta de feijão, chocolate ou creme de ovo. Há que dizer que a curiosidade foi satisfeita, mas continuámos a preferir as ostras. Ainda tentei convencer o Viajante Ilustrador a comprar uma shamoji, entenda-se uma colher de pau, ou não estivéssemos perante a maior colher de arroz do mundo e símbolo da ilha, a Ōshakushi. Infelizmente, o melhor que consegui foi ser ameaçada por uma!

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Naqueles dias contemplámos o santuário de Itsukushima, mandado construir pelo senhor da guerra Taira-no-Kiyomori em 1168, e assente em pilares sobre a água, dando a ilusão de que flutua; o Senjō-kaku, um espaçoso edifício que tem o tamanho de cerca de 1000 tapetes tatami; ou o pagode de 5 andares, que se destaca pela sua cor rubra. Outro local impressionante foi o templo Daishō-in, o mais importante da seita budista Shingon, no sopé do Monte Misen. Apesar de ter bastante que ver, nomeadamente, a grande variedade de estátuas; o mais marcante é a cave Henjokutsu, onde se encontram várias representações de ícones budistas. Ali a fraca iluminação, aliada ao ar impregnado de incenso, fazem da visita a este local uma experiência singular. Assim, entre trilhos e paragens, lá chegámos ao centro da ilha, ao Monte Misen. Diz a lenda que Kobo Daishi terá passado 100 dias a meditar nesta montanha sagrada no ano de 806, tendo acendido uma chama que continua viva até aos dias de hoje. Esse fogo foi usado para acender a chama eterna do Memorial da Paz de Hiroshima.vi_17_04

Apaixonados pelo silêncio e pela quietude da ilha, à semelhança de Quioto, pernoitámos num ryokan. Ao meu olhar, uma casa mágica, ou não fossem as salas amplas, confortáveis e prosaicas de dia, transformar-se à noite em espaços intimistas, donos de uma poesia maviosa. Há momentos em que as palavras se tornam escassas e imprecisas, pelo que é nosso dever dispensá-las, de forma assertiva e simples. Há noites em que basta seguir o ancestral rito de descalçar os sapatos, vestir os quimonos, beber um chá e fechar as portas de correr com os seus pequenos quadrados de papel de arroz

in Revista Açores, 6 a 12 de novembro (págs. 26 e 27)

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