“Hiroshima é uma cidade queimada, uma cidade de cinzas, uma cidade de morte, uma cidade de destruição, as pilhas de cadáveres são um protesto mudo contra a desumanidade da guerra.

[…] compreendi […] que a guerra é um assassino sádico dos seres humanos, sejam jovens ou velhos, sejam homens ou mulheres.”

Chuva Negra, Masuji Ibuse

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Quis o destino que visitássemos Hiroshima na mesma semana em que houve uma cimeira do G7, e naquela que foi a primeira vez que um presidente americano em funções, Barack Obama, visitou o Memorial do bombardeamento de 6 de agosto de 1945. Para os americanos, um mal necessário para colocar um ponto final na guerra e salvar vidas; para os japoneses, uma hecatombe!

Mas recuemos no tempo até 1918, data do fim da Primeira Guerra Mundial. Durante este período, eram claras as marcas profundas nos derrotados, especialmente na Alemanha, que tentava recompor-se apesar de se tratar do país com as punições de guerra mais severas. Situação esta que agudizou o descontentamento social, facilitando a ascensão de ideologias autoritárias. A Alemanha nazi de Hitler encontrava como aliadas uma Itália fascista de Mussolini e, posteriormente, um Japão liderado por Tojo Hideki e pelo imperador Hirohito, formando os Países do Eixo; enquanto os Aliados, com a liderança dos Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética, lutavam contra esta tríade de ideais expansionistas e militaristas.

Foi neste cenário de conflito bélico que, em 1939, Einstein convenceu Roosevelt a construir a bomba atómica antes que os alemães o assim fizessem, e bastaram apenas alguns anos de pesquisa, para no verão de 1945 esta bomba estar a ser testada com sucesso.vi_16_03

Nesta altura, já a Alemanha e a Itália se haviam rendido. Contudo, como símbolo do poder dos Estados Unidos, uma primeira bomba nuclear chamada “Little Boy”, acabou por ser lançada em Hiroshima; e três dias depois, uma segunda bomba, de nome “Fat Man”, em Nagasaki, colocava um fim à Segunda Guerra Mundial.

Do “Little Boy” sabe-se que detonou no ar, a 576 metros acima do Hospital Cirúrgico de Shima. A temperatura no núcleo da explosão foi de mais de um milhão de graus centígrados, e a três quilómetros de distância, a bola de fogo era múltiplas vezes mais luminosa que o sol! Os prédios sumiram com a vegetação, transformando a cidade num deserto.

Volvidas poucas horas, uma chuva negra caiu sobre o céu, carregada de radioatividade das cinzas. Os sobreviventes, desesperados e desidratados, tentavam beber a água que caía, não imaginando que mais males poderiam dali advir. No período subsequente, a evolução foi rápida e dolorosa. Para além de queimaduras e outras deformidades, as pessoas apresentavam sinais estranhos como a perda total de cabelo ou vómitos.

Na época, Hiroshima tinha cerca de 330 mil habitantes. O efeito imediato do bombardeamento vitimou cerca de 50 mil pessoas e feriu 80 mil. Nos meses e anos seguintes, outras 130 mil sucumbiram com os seus danos colaterais.

Depois de uma inquietante visita ao Museu e ao Memorial da Paz de Hiroshima, eu e o viajante ilustrador trocávamos impressões sobre o que havíamos visto, recordando o documentário “Luz Branca, Chuva Negra: A destruição de Hiroshima e Nagasaki”, que partilha os testemunhos emocionantes de sobreviventes ao ataque nuclear, conhecidos como “hibakusha”.

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Atendendo aos efeitos da explosão, muitos recearam que nada mais medrasse nas décadas seguintes. Porém, na primavera imediata, novos brotos começaram a nascer nos solos estéreis e radioativos, e árvores surgiram, as chamadas “hibaku jumoku”. Hoje, 71 anos depois, a cidade ganhou vida, assumindo-se como um símbolo para a paz mundial.

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Em Hiroshima sentimos o dever de nunca esquecer e nunca tolerar, que os nossos amigos ou inimigos voltem a ponderar semelhante realidade, cabendo a cada um de nós fazer cumprir a Humanidade. Sem subterfúgios: jamais poderemos justificar o injustificável!

in Revista Açores, 23 a 29 de outubro (págs. 26 e 27)

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