Há tempos li um artigo sobre o novo documentário de Miguel Gonçalves Mendes, “O Sentido da Vida”. Conta a história de um jovem brasileiro portador de paramiloidose, uma doença rara e incurável de origem portuguesa. Talvez em busca de respostas ou, quem sabe, de esperanças, esse mesmo jovem decide traçar a rota daquela que se supõe ter sido a primeira viagem a disseminar esta enfermidade há 500 anos, por altura dos Descobrimentos. Apesar de ter achado um projeto deveras interessante e arrojado, ficará sempre na minha memória uma das músicas da banda sonora, uma versão do fado “Barco Negro” pela voz da cantora japonesa Kumiko Tsumori.

Como me alegra o coração ouvir Kumiko, ou não fosse a sua interpretação deste fado, em japonês – quem diria! -, trazer à tona as heranças portuguesas ainda presentes no Japão. Resquícios de um período em que o país sofreu grandes transformações, influenciadas pelo contato com o Ocidente, seja na culinária ou na língua, com mais de sessenta palavras de origem portuguesa ainda utilizadas no quotidiano japonês._dsc0749

Quando ouço aquele som, fecho os olhos e viajo até 1512, ao reinado de D. Manuel I. Neste tempo, chegava a notícia de que existiria um arquipélago, de nome “Cipango” ou “Ji-pangu”, local onde o sol nasce, em chinês. Segundo Marco Polo seria “uma ilha grande, de gente branca, de boas maneiras, formosos e de uma riqueza incalculável”. Esta descrição deixava o novo país envolto numa névoa de fabulosas fortunas!

Apesar das incertezas, os primeiros europeus a chegar ao país do sol nascente terão sido António Mota, Francisco Zeimoto e António Peixoto, após uma tempestade. Estes portugueses terão chegado num junco à praia de Tanegashima em 1543.

Em 1549, os jesuítas portugueses começaram logo a tentar evangelizar o Japão, e com a religião vieram também hábitos alimentares que ainda hoje perduram e se fundiram com a gastronomia japonesa, como a tempura, o pão, a kasutera ou a castella…_dsc0748

Daí até à introdução do pão-de-ló na cidade de Nagasaki, em 1571, passaram-se poucos anos, tendo esta doçaria, bem portuguesa, sido batizada como castella. Embora a origem deste nome permaneça uma incógnita, existem variadas teorias, desde o bolo ser preparado com claras em castelo, até ao facto de Portugal ter perdido a independência para Castela em 1580 e de os lusitanos passarem a ser conhecidos por castelhanos.

Numa tarde chuvosa tivemos o enorme prazer de conhecer a Castella do Paulo, um pedacinho de Portugal, em plena cidade de Quioto, na altura a ser decorado para celebrar os Santos Populares. Como foi engraçadíssimo observar bandeirolas, harmónios, lanternas, manjericos e sardinhas de papel, onde não faltava a poesia do povo! Este espaço tão deliciosamente “tuga” é propriedade de Paulo Duarte e da esposa japonesa Tomoko Duarte._dsc0783

Em 1992, o jovem Paulo viajou para o Japão, tendo trabalhado em Quioto como pasteleiro. Agora um chef experiente, reivindica ser o único estrangeiro que, até hoje, aprendeu a confecionar a castella em Nagasaki, na histórica casa Shooken.

Se encontrar Portugal no Japão nos causou satisfação, mas não surpresa, descobrir os Açores, provocou-nos um pasmo de maravilhamento! E não é que a Tomoko já veio dez vezes aos Açores! Até publicou um livro sobre a doçaria das diversas ilhas de bruma, no qual tenta documentar, em especial, as tradições das Festas do Espírito Santo, e voltou este verão a Santa Maria para aprender a fazer o biscoito de orelha. Nisto ainda nos conta que um dos bolos mais vendidos da confeitaria, sobretudo para casamentos nipónicos, é o açoriano… Nesse momento, quase desatei às gargalhadas quando olhei para a cara do viajante ilustrador, sem saber se aquela sua expressão de estupefação seria da castella que saboreava ou das tantas aventuras que a Tomoko tinha para partilhar. Sem dúvida, um caso para dizer: meme devéras ??!!_dsc0739

in Revista Açores (páginas 26 e 27) // 9 a 15 de outubro

vi_15_ra

Anúncios

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s