Ser incompreendido tornara-se o meu único motivo de orgulho, portanto não me via compelido a desenvolver esforços para ser compreendido. (…) A minha solidão engordava dia a dia. Como um porco.

Este é um excerto do romance O Pavilhão Dourado, de Yukio Mishima, que decorre na região de Quioto, em especial no Templo Kinkaku-ji, e nos narra a história de Mizoguchi, órfão de pai e aspirante a sacerdote, que padece de um complexo de inferioridade insuperável devido à sua fragilidade física e, sobretudo, à sua gaguez. Uma obra inquietante de um autor que levou ao extremo a relação entre literatura e realidade, ao cometer o ritual suicida dos samurais, o seppuku ou harakiri.vi_14_01m

Lida a obra, ali estávamos nós: no Templo do Pavilhão Dourado, oficialmente chamado de Templo Rokuon-ji. O edifício original foi mandado construir por um shōgun de nome Ashikaga Yoshimitsu, sendo que, mais tarde, o filho converteu-o num templo zen budista. Este pagode de três andares, praticamente todo coberto de folhas de ouro puro, rodeado do lago espelhado Kyōko­chi e um belo jardim japonês é, com certeza, um dos locais mais visitados desta antiga capital do Japão.

Todavia, não menos procurado que a floresta de bambu do templo Tenryu-ji. Neste bosque silencioso, o murmúrio do vento faz balançar suavemente os pináculos de bambu com cor de jade, que nos guiam na esperança de encontrar um caminho mágico até possíveis destinos sonhados e, de alma, ansiados.vi_14_03m

Absortos em tamanha beleza, voltámos ao mercado de Nishiki. Aqui, no tempo em que não existiam frigoríficos, as abundantes águas subterrâneas juntamente com o cavado de poços eram usados para preservar o peixe. Atualmente, este antigo mercado de peixe é o mercado grossista central de Quioto, onde a maioria das lojas de peixe foi substituída por estabelecimentos de pickles, frutas, doces, e outros. Aqui desfrutámos de produtos e costumes da cozinha japonesa Washoku, caracterizada por um profundo respeito pela natureza, e a qual prioriza a sazonalidade dos ingredientes e a beleza da sua combinação.

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Nesse final de tarde, arranjámos ainda bilhetes para o festival Kamogawa Odori no bairro de Pontocho. Aqui as gueixas apresentam, de forma brilhante e inesquecível, as suas performances públicas, quer na época das cerejeiras em flor, quer na época das folhas vermelhas dos bordos, celebrando a mudança de cada estação. Após uma cerimónia do chá, caracterizada por servir e beber o matcha (um chá verde pulverizado) em ambiente de simplicidade e de grande elegância em cada gesto de preparação, as gueixas exibem um espetáculo sublime de arte e dança, bem como uma veemente peça kabukiesque. Esta representação dramática é encenada por maikos (aprendizes) e gueixas, baseando-se no repertório kabuki, embora inverta a sua tradição, dado que é exclusivamente representada por mulheres, mesmo quando se trata de papéis masculinos.

Entre passeios, fotografias e palavras, lá acabamos por regressar ao hotel cápsula. Antes de seguir para a ala feminina e o viajante ilustrador para a masculina, perdemo-nos em mais dois dedos de conversa com um grupo de viajantes e os tipos da receção. Estes últimos explicaram-nos que este conceito de hotel surgiu no Japão no final dos anos 70, destinado a ser cama e abrigo para pessoas que trabalhassem até tarde e que já não conseguissem transporte para casa. Porém, nos últimos anos, tornaram-se populares devido à crise financeira global que atingiu a economia japonesa, havendo pessoas desempregadas que chegaram a ter de viver nesta realidade.vi_14_04m

Já deitada na cápsula, abri o meu caderno de notas e deparei-me com um poema haiku. Um haiku não deve durar mais do que uma respiração, para que ele coincida com a nossa intimidade:

Sob as amendoeiras em flor /Agita-se e fervilha/ a humanidade.

As luzes apagaram-se, mas a esperança permaneceu.

 

in Revista Açores – Açoriano Oriental (págs. 26 e 27) // 25 de setembro a 1 de outubro

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