Ouço uma música instrumental, na qual rapidamente percebo tratar-se do meu despertador. Alone in Kyoto dos Air, é esse o som, com tanto de sonhador e contemplativo como de destemido e ousado, que me tem acompanhado todas as manhãs desde que aterrei no país do sol nascente. Senti-me uma bem-aventurada, ou não fosse finalmente ouvir essa música no sítio certo, naquela que foi a capital do império japonês por mais de 1000 anos.

Quioto possui uma quantidade infindável de templos e shrines (santuários) espalhados para todos os lados. Os templos, em geral, são de culto budista e os shrines são xintoístas. Ambos apresentam uma arquitetura maravilhosa e utilizam mormente a madeira, sendo até certo ponto semelhantes, pelo que é fácil confundi-los.

Mas essa confusão não é à toa! A própria história do budismo e do xintoísmo no Japão está estreitamente ligada, embora o xintoísmo seja de origem mais antiga. Porém, o mais comum, é o japonês se dizer seguidor de ambas religiões. É interessante, inclusive, como tanto o budismo como o xintoísmo não pedem exclusividade aos seus seguidores._dsc0203

No encalço da espiritualidade, começamos por visitar o milenar Kiyomizu-dera, o segundo templo mais antigo da cidade, fundado em 778, mesmo antes de Quioto se tornar capital. O seu nome significa “templo da água pura”, devido a uma nascente nas montanhas e à cascata de Otowa. A nascente é onde os fundadores Gyoei-koji e Enchin-shonin praticavam meditação, sentados debaixo da cascata. Atualmente, as águas estão divididas em três fluxos. A água de cada fluxo oferece, supostamente, um benefício diferente: longevidade, realização no amor e sucesso académico. Os visitantes são aconselhados a beber um gole de cada uma das águas de cada vez. Pois caso bebam dois goles, os benefícios são reduzidos para metade, e três, os benefícios são reduzidos para um terço, e quem bebe gananciosamente, não recebe nada. Indicações que refletem o antigo ensinamento de que não se deve ser ganancioso. Antes de beber da água, deve-se ajoelhar humildemente ao Gyoei-koji que está consagrado por trás da cascata de Otowa e purificar o corpo e a alma.

Mas o destaque do Kiyomizudera, tesouro cultural do Japão e patrimônio cultural da humanidade, é o edifico principal, o Hondo. Uma varanda que se situa num precipício, e que é apoiada por 139 pilares e 90 vigas que são somente encaixadas uma nas outras, sem utilizar pregos!

Também naquele complexo de edifícios e pagodes, vivemos uma das experiências mais interessantes dos últimos tempos, no denominado salão Zuigudō. Uma reconstrução de 1718, dedicada a mãe de Buda. Ali, depois de tirar os sapatos e pagar uma parca entrada de 100 yenes, participamos na Tainai meguri, uma peregrinação até ao seu útero._dsc0163

Na descida somos surpreendidos por uma escuridão total, em muito incómoda, e para alguns, até assustadora. A única forma de orientação é agarrar uma corda que nos leva até uma pedra mal iluminada com uma imagem gravada em sânscrito, que simboliza o ventre de uma mãe. Entrar no Tainai meguri ensina-nos a confiar cegamente na nossa fé. Depois desta experiencia única, foi-nos dito que cada ser renasce e todas as suas orações são ouvidas.

Dali seguimos para Ishibei-koji, talvez uma das ruas mais bonitas de Quioto, até ao templo de Kodaiji. Construído por uma viúva em 1606 como uma homenagem ao seu falecido marido guerreiro, Kodaiji é um refúgio zen-budista com um interior ornamentado e jardins serenos, que sobrevive até hoje, após vários incêndios e batalhas, como uma demonstração de paz e tranquilidade.

Depois de recuperar energias no parque Maruyama-koen, partimos à descoberta do santuário Yasaka-jinja, no qual é adorado Susanoo-no-Mikoto; do templo Chion-in, onde se pode apreciar o maior portal duplo de madeira do Japão e as “sete maravilhas” do santuário; e do Shoren-in, um templo onde o Deus do fogo é venerado pela família Imperial._dsc0124

Terminamos o dia no Monte Inari a visitar o Fushimi Inari Taisha, um santuário xintoísta dedicado a Inari, deus do arroz, da fertilidade, da agricultura, das raposas, e do sucesso e prosperidade nos negócios. Com mais de mil toris vermelho-alaranjados, que simbolizam a transição para o sagrado, foi-me impossível não recordar de imediato o livro “Memórias de uma Gueixa”, de Arthur Golden, mas sobretudo a adaptação ao cinema de Rob Marshall. Ou não tivessem sido ali filmadas algumas das cenas mais marcantes desta película…

Em tom de brincadeira, perguntei ao Viajante Ilustrador, se não tinha curiosidade em ver uma gueixa, citando-lhe um trecho do filme no qual é dito que uma mulher quando caminha deve dar a impressão de ondas sobre um banco de areia… Atrevido e confiante, o Viajante anuiu, dizendo que tal havia de acontecer na estreita rua de Ponto-chō.

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À entrada daqueles 500 metros de ruela, paralelos ao rio Kamogawa, explica-se que este nome provém da palavra inglesa “point” (ponto), ou mais provavelmente da palavra portuguesa “ponte”, ou mesmo de “ponto”; e a junção com a palavra japonesa “-chō” que significa cidade, quarteirão ou rua. Distraída com a etimologia e origem da palavra perco de vista o Viajante Ilustrador, até que o contemplo ao longe com um largo e maroto sorriso e uma polaroid na mão…

in Revista Açores – Açoriano Oriental (págs. 26 e 27) // 11 a 17 de setembro

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