Num dos poucos lugares de Tóquio onde se consegue combinar o caos e a serenidade, dei por mim a pensar em como a solidão tem um lado bom, sobretudo no tempo atual.

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 Vivemos numa época demasiado veloz, na qual estamos constantemente conectados e embrenhados numa hiperatividade destrutiva, descurando da nossa tão necessária solidão. Dito isto, é interessante como os japoneses são tímidos e introvertidos. Características que em muito admiro no Oriente, já que no Ocidente o mundo parece não conseguir parar de falar! A verdade é que os investigadores e especialistas reclamam por um novo paradigma, no qual as sociedades devem privilegiar a pessoa contemplativa à ativa. É importante estar sozinho, para podermos ser livres, ou não fosse esta pausa, só por si, reparadora. Urge praticar este movimento de contração para recuperar o equilíbrio. Pese embora a força da ideia, confesso com alguma angústia, que na loucura do quotidiano, tenho andado a negligenciar o exercício do meu direito à solidão.

 Na ausência do viajante ilustrador para fotografar, tirei o caderno da mochila e li algumas das minhas notas rabiscadas por altura da preparação da viagem: Meiji Jingu – templo xintoísta datado de 1920, totalmente destruído durante a Segunda Guerra Mundial. Reconstruído em 1958, é dedicado ao Imperador Meiji. O xintoísmo é uma religião original do Japão, que não vem de nenhum livro ou profeta específico, mas de valores como a harmonia com o natureza e de virtudes como a sinceridade do coração (…)

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 Apesar de ter meia página escrita com informação e curiosidades, não me apeteceu ler mais, preferindo caminhar por todo aquele universo de sossego profundo. Quem ali entrasse tinha de se purificar, lavando as mãos e a boca com a ajuda de conchas de madeira. Esse ritual xintoísta, denominado Temizu ou Chozu, deve ser realizado antes de chegar ao santuário principal, conhecido como Shaden. Após esta prática, onde as pessoas limpam o espírito das coisas mundanas, dirigem-se ao santuário, onde se realiza o Omairi. Em frente ao altar, as pessoas batem palmas, ofertam moedas, tocam o sino, fazem reverência e uma oração, pedindo proteção e sorte durante a sua caminhada pela vida. Pouco tempo depois, reencontrei o viajante ilustrador junto a uma coleção de barris de sake à entrada no templo. Divertido, disse-me que dali íamos entrar numa máquina do tempo, para uma viagem ao futuro.

 Começamos por atravessar o mundo paralelo de Harajuku, onde personagens anime de carne e osso passavam por nós. Saídos daquele formigueiro, fugimos para a rua mais estilosa de Tóquio, a Omotesando, até que fizemos um pequeno desvio em Shibuya. Este local recordou-me a história do Hachiko, um cão que todos os dias esperava na porta da estação pelo seu dono e continuou a fazê-lo diariamente, mesmo após a morte deste último. Uma estátua do cão foi erguida como uma homenagem à lealdade do melhor amigo do homem. Quanto ao viajante ilustrador, deixou-se arrastar para um palco vanguardista rodeado de néons, sons eletrónicos e anúncios escandalosamente sedutores. Shibuya é uma experiência antropológica, no qual oito semáforos de forma sincronizada permitem um mar de gente atravessar o cruzamento mais movimentado do mundo, com passadeiras na vertical, na horizontal e na diagonal!

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 Com as pernas a berrar por um descanso e o estômago por uma comida quente e uma bebida fresca, jantamos comida de rua em Shinjuku. Descobrimos, com a ajuda de Nobuhiro Tanaka e das suas amigas, uma ruela com um ambiente frenético, em especial uma tasca de nome Sasamoto, no qual o espaço é tão exíguo que toda a vergonha ou acanhamento desparece nos primeiros cinco segundos. Durante o jantar conhecemos melhor “Nobu” e o seu sonho de trabalhar unicamente com DJ de techno. Tal a empatia, que continuamos juntos para Golden Gai, onde desfrutamos de uma verdadeira experiência da noite nipónica: o karaoke!

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 Naquela noite, com a ajuda de alguns mojitos, cantamos em inglês e até japonês. Naquela noite fomos uns românticos incorrigiveis. Naquela noite entendemos o quanto as pessoas querem ser entendidas e entender, o quanto as pessoas querem ser amadas e amar!

in Revista Açores – Açoriano Oriental (págs. 27 e 28) // 28 de agosto a 3 de setembro

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