“O avião aterrou. Fim de pausa. O sol nasceu.”

Esta foi a última frase que escrevi a bordo do avião. Chegamos ao Japão, país do sol nascente, precisamente ao meio-dia.

À saída do aeroporto transformei-me numa personagem anime (animação de estilo japonês) a sair em grande velocidade em sentido do Shinkansen, o comboio bala. A certa altura, o viajante ilustrador mostrava-se confuso sobre se eu estaria a correr ou simplesmente a ganhar impulso para voar. Com rosto de bochechas rosadas, olhos do tamanho de bolas, boca com a grandeza de uma formiga e cabelo esvoaçante, tento olhar o céu, mas o sol alto cega-me a vista. Logo atrás de mim, o viajante ilustrador, de olhos vidrados, cabelo com gotas de água gigantes e carregado de máquinas fotográficas ao peito, esboçava um largo e zombeteiro sorriso, ouvindo-se uma música de fundo que enaltecia a amizade e a cumplicidade entre viajantes.

vi_11_1

Depois de umas largas gargalhadas às custas dos meus desenhos imaginários, lá começamos a explorar Tóquio, a principiar pela zona de Ginza, uma feira de vaidades onde a palavra de ordem é tendência. Este distrito de Chuo é conhecido como a área chique de Tóquio, com algumas das lojas mais caras do mundo. Além das marcas de roupa, também gigantes da eletrónica aproveitam para exibir os seus melhores e mais recentes produtos.

Nessa noite jantamos no restaurante Gonpachi em Nishi-Azabu, um local menos autêntico, todavia com uma decoração interessante, com a particularidade de ter servido de inspiração ao Quentin Tarantino para uma cena do filme Kill Bill – Parte 1.

Após um jantar reconfortante, o cansaço abateu-se sobre nós. As horas de sono que nos esperavam, faziam-se curtas, ou não fossemos na alvorada seguinte até Tsukij, o maior mercado de peixe e marisco do mundo.vi_11_2

Desde muito cedo, a movimentação ágil dos compradores e dos carrinhos que transportam os peixes é intensa. No entanto, para acompanhar os disputadíssimos leilões, onde a grande estrela é o atum, foi preciso madrugar, ou não houvesse um limite diário de 120 visitantes. Chegamos ao Portão Kachidoki, na rua Harumi, por volta das 3:00 da madrugada. Embora o horário de abertura da área reservada aos leilões seja entre as 5:00 e as 6:00, pela hora da nossa chegada o primeiro grupo de 60 pessoas já estava completo.

Aquando da visita, os peixes congelados já estão separados por lotes conforme o tamanho. Alguns chegam a pesar 200 quilos! Os interessados analisam os peixes, atentos à sua cor, gordura, cheiro e textura. Os leiloeiros sobem em pequenos bancos e começa a negociação. É tudo muito rápido e organizado. Os compradores fazem sinais discretos e ágeis com os dedos cantando o valor do lance. No final de cada dia de mercado, milhões de ienes são assim movimentados.

Por esta altura são quase 7:00 da manhã e o dia já vai longo. Está na hora de comer alguma coisa!

vi_11_3

Ao redor do mercado existem vários pequenos restaurantes onde é possível apreciar o sushi mais fresco do mundo, além de sobas (sopas com massa japonesa), ostras gigantes, tempura e outras iguarias, todas com uma frescura excecional e uma qualidade ímpar. Alguns restaurantes exibem filas de cinco horas como o Sushi Dai ou o Daiwa-Sushi. Consideramo-nos uns sortudos, pois esperamos apenas metade do tempo previsto! Antes de iniciar, pronunciamos: Itadakimasu (eu humildemente recebo esta refeição). Ali tivemos umas das melhores experiências gastronómicas da nossa vida, tanto que ali regressamos.

vi_11_4

Contudo, há bons e velhos hábitos ocidentais que se mantêm, como um revigorante café. Sentados numa tasca característica daquela zona, puxei do caderno para tirar algumas notas, enquanto o viajante ilustrador aproveitava para rever as suas infindáveis fotos. Cerrei os olhos e recordei o filme Lost in Translation, de Sofia Coppola. Naquele exato momento houve um intervalo no fio da minha narrativa pessoal, uma suspensão temporária da vida e uma perspetiva da abundância das possibilidades.

Em apenas dois dias, o Japão começava a transmutar-se num lugar metafórico.

in Revista Açores – Açoriano Oriental (págs. 26-27) // 13 a 19 de agosto

vi_11_revista

Anúncios

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s