Em trânsito para um lugar estranho // À procura no mapa do país do sol nascente

Revista Açores // 31 de julho a 6 de agosto

Ana Catarina Silva, a viajante

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Nasceu depressa tal a vontade de ver o mundo!

Criou-se numa casa em frente a uma linha ferroviária. Ao contrário dos que se mostravam preocupados com o ruído dos comboios, ela via em cada passagem, mil histórias por contar.

Um dia, sem malas feitas e apenas com bilhete de ida, seguiu num desses comboios, sabendo que flanaria pelo mundo em busca de histórias.

Carlos Brum Melo, o viajante ilustrador

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Com a bruma nas veias, e do longe da insularidade, avistou no mar uma miríade de futuros.

Ao pôr-do- sol, montava e desmontava sonhos até que decifrou que o seu rumo assentava na descoberta da complexidade do mundo e das relações entre os povos.

Na sua alma guardava a chave da sua expressão: a fotografia.

E dizem que nunca mais parou!

Enquanto viajante, senti que às minhas histórias faltava aquela luz que decompõe o rosto e expõe a alma. Por sua vez, paciente e perdido em ensaios, o viajante ilustrador sonhava com composições animadas pelas palavras dos homens. Ao que certa noite, como bons comilões de léguas que somos, cerramos os olhos e pedimos com coragem um desejo vertiginoso, daquele tipo que nos faz querer atirar de cabeça, mas cria tremeliques e dores de barriga: um viajário ilustrado! Um diário de viagens que começam e terminam na alma, coloridas com fotografias que fazem cócegas ao coração. Nisto a dona lua, cheia de propósitos e lições, lá nos tem iluminado o caminho. E embora ainda nos estejamos a tentar orientar nesta pluralidade de possibilidades – recordo a última crónica sobre Granada, Nicarágua, a qual termino questionado o viajante ilustrador: “estaremos na direção certa?” – o coração sentiu e a mente medrou.

Volvidos quatro meses de Viajário Ilustrado pela América Central, tempo durante o qual se tornou claro que ser viajante é ser malabarista, ora atirando ao ar a cautela ora o improviso, novos destinos agora se impõem…

Por estes dias os viajantes tiveram um novo teto. Há quem lhe chame aeroporto, nós preferimos chamar-lhe caixinha de surpresas… até podes saber o destino final, mas por vezes terás que improvisar o caminho até lá! Durante esse tempo decidimos recordar como tudo começou, pôr a leitura em dia, bem como a escrita.

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Bem, esperam-me 20 horas de viagem, ao que decidi principiar no avião uma nova leitura: O Japão é um lugar estranho, de Peter Carey. A história de um pai que, depois de contagiado pelo filho no interesse por anime e manga (animação e banda desenhada de estilo japonês, respetivamente), decide visitar o país com um roteiro alternativo e pouco tradicional, em busca daquilo que designam como o “Verdadeiro Japão”. Uma narrativa curiosa e repleta de detalhes que colocam a descoberto a mania (tantas vezes instalada e reiterada) de que sabemos imenso acerca da cultura japonesa e que facilmente compreendemos o seu ponto de vista.

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Reflito, e partilho um pedacinho…

No Kabuki, a arte teatral japonesa que se distingue por sua famosa estilização dramática e pela maquilhagem produzida, Carey conta que, “deve haver uma cena em que duas pessoas estão despreocupadamente a falar; então, a partir de um detalhe da conversa, as personagens compreendem de repente os verdadeiros sentimentos uma da outra. Nesse momento, a acção é suspensa, os actores ficam estáticos, e do lado esquerdo do palco os badalos de madeira fazem battari! As duas personagens voltam à conversa como se nada tivesse acontecido; no entanto, no momento daquele battari!, tudo mudou. Enquanto muitas formas de teatro tentam preservar a continuidade narrativa, o Kabuki concentra-se nestes instantes cruciais de pausa e recomeço, recomeço e pausa”. O avião aterrou.

Fim de pausa.

O sol nasceu.

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