Conviver com Lenin e sua família fez-me recordar uma parte (talvez esquecida) de mim. Porém, é-me impossível não dar uma feliz e sonora gargalhada ao pensar na ironia que é em plena América Central, depois de conhecer um Ernesto Azurdia, guatemalteco apelidado por todos como Che, cruzar-me agora com um Lenin em El Salvador… Interessante perceber o impacto da escolha de um nome na vida de uma pessoa! Mas este nosso Lenin não alimenta teorias ou práticas revolucionárias, apenas muitos desejos e sonhos. Com apenas 11 anos, este menino aspira ser vulcanólogo, querendo viajar pelo mundo para visitar todos os vulcões que puder. O viajante ilustrador não resistiu a contar-lhe com pormenor de onde vínhamos, e entre coordenadas e explicações mais ou menos científicas, os olhos de Lenin brilhavam como se refletissem reais explosões de pedra e fogo. E não é que o rapaz não descansou enquanto não encontrou o seu velho Atlas e descobriu os Açores?! Fruto da sua determinação e paciência, Lenin lá acabou por desenhar um círculo à volta do arquipélago. Não pude deixar de reparar como aquele Atlas exibia múltiplas anotações sobre possíveis vulcões a explorar. Recordei Eusebio, aquele velho cowboy que conhecemos aquando da visita ao vulcão Pacaya, afinal duas gerações tão distintas a partilhar da mesma paixão. Algo raro nos dias que correm…

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Lenin vive com a mãe Enelda e as irmãs Yas e Darling na casa de um tio paterno. Na verdade, não os achei felizes, mas sim conformados, pois houvesse a mínima hipótese de Enelda em se mudar com os filhos e esta iria sem olhar para trás. Não é fácil economicamente, explicava, sobretudo para uma mulher e ao menos ali estavam protegidos de uma realidade salvadorenha tantas vezes selvagem e dramática. Mas onde parava o patriarca daquela família? “Na América!” – respondeu a mãe sem rodeios ou hesitações. Partiu quando Lenin tinha apenas três anos e nunca mais lhe pôs a vista em cima. Passada quase uma década, dele pouco mais se sabe, além do dinheiro que manda mensalmente. Se outrora Enelda sofreu com esta distância, hoje confessa estar habituada. “Talvez até já tenha arranjado outra família!” – lança a dúvida de forma sarcástica… Contudo, naqueles dias percebemos que esta situação é a de muitas mulheres salvadorenhas, em que os maridos acabaram por emigrar e nunca mais pisaram aquela terra.

Talvez tenha ido para conseguir um futuro melhor para os filhos, pensamos nós, mas na verdade existia uma outra razão. O pai de Lenin foi uma das muitas vítimas da disseminação da violência pelo país. Enelda contou que o marido e o irmão mais velho deste eram ambos condutores de autocarros e um dia, já no final do trabalho, o seu cunhado que ia com algum avanço foi mandado parar por um grupo de homens, as conhecidas maras ou pandilhas de que Rafael Rivas nos falou aquando do nosso passeio. Os indivíduos entraram e sem qualquer dó ou piedade, ali o mataram a sangue frio. O pai de Lenin, enlutado e impotente, viu com os seus olhos o triste fim do seu querido irmão. Veio depois a polícia e pediu que ajudasse na identificação dos executores de tal bárbaro crime. Da verdade brotou o sofrimento e a trepidez, ao que o homem debandou. Fez-se um silêncio atemorizado, como se fosse menos assustador atirarmo-nos de um precipício vertiginoso. Não voltamos ao assunto. Yas perguntou-nos se gostaríamos de ver álbuns de fotografias e o ar ficou mais leve e o coração menos agitado.

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Entre imagens de felicidade e esperança, jantamos pupusas pela milionésima vez, mas que bem que souberam! Antes de anoitecer fomos dar um passeio. Lenin queria muito partilhar connosco um lugar secreto, a sua janela mágica para o mundo. A mãe falava com orgulho dos filhos. De como Yas estudava engenharia civil na universidade, ou não fosse tempo de combater aquela sociedade machista, de ter Darling quase a fazer a sua festa de 16 anos, e de Lenin, um menino curioso que sempre nos dizia que era bom caminhar, pois ajuda a pensar!

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As viagens vão muito além de mapas e destinos, estão nos laços de afeto que levam o nosso coração até às nuvens. Hoje recebi uma carta. Hoje regressei a terras salvadorenhas. Hoje, à semelhança de Lenin, coloquei no meu Atlas um círculo a rodear El Salvador.

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in Revista Açores, 7 a 14 de Maio

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