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Rafael Rivas sabe do que fala! De cabeça cheia e de coração apertado, este homem conheceu os dois lados de uma guerra civil entre o governo salvadorenho e grupos paramilitares. Uma chacina que durou 12 anos e da qual resultaram (oficialmente…) 75 mil mortos. Esta violência crescente atingiu o seu ápice com o assassinato do arcebispo Óscar Romero, na tarde de 24 de março de 1980, enquanto celebrava uma eucaristia. Nos altares, Romero defendia o diálogo de paz e denunciava a injustiça social, os altos níveis de pobreza e os crimes políticos. Nisto relembro o filme Salvador de Oliver Stone, no qual o realizador se revela um claro simpatizante com a causa da esquerda revolucionária camponesa, fazendo uma dura crítica ao governo dos EUA, aos militares de direita e aos seus esquadrões da morte.

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Se Rivas entrou neste conflito pelo exército salvadorenho, rapidamente decidiu guerrear por convicção, ou não estivesse farto da repressão, das desigualdades e dos massacres diários. Como ele próprio conta, naquela época os jovens tinham apenas quatro opções, aliás três, se desconsiderarmos a possibilidade de serem mortos: aceitar alistar-se no exército salvadorenho, fugir do país ou ir para as montanhas e juntar-se à guerrilha.

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Bastante emocionado, Rivas conduziu-nos até à aldeia de El Mozote, em Morazán, e falou-nos do massacre que aqui começou na manhã de 11 de dezembro de 1981 e durou até à tarde de 13, pelo Batalhão de Reação Imediata Atlacatl. Todos os homens, as mulheres e as crianças foram aniquilados. Desta carnificina, apenas Rufina Amaya escapou porque, na confusão da matança, conseguiu esconder-se atrás de uns arbustos e aí ficou quieta e calada até os soldados se retirarem. “Deus salvou-me porque precisava de alguém para contar a história ao mundo”, escreve-o no seu livro Luciérnagas en El Mozote (tradução livre, Pirilampos em El Mozote). Logo depois do massacre, jornalistas americanos desceram ao terreno e um mês depois recolheram o testemunho de Rufina. Os governos salvadorenho e norte-americano começaram por negar os factos, alegando que tinha sido efetuada uma operação na região e apenas algumas dezenas de guerrilheiros tinham sido mortos. Mas Rufina persistiu e nunca se calou!

Este negro episódio da história salvadorenha não retirou qualquer esperança a este guerrilheiro nascido em Perquín, pelo contrário, fez-lhe brotar da alma uma coragem acrescida. Decidido a lutar nesta terra de insurgentes, este agora guia da Ruta de la Paz, relembrou onde tantas vezes foi buscar ânimo e determinação para as vitórias, à Radio Venceremos. Confessa ainda hoje ouvir as cassetes desta emissora clandestina, com vozes de amigos e amigas que há muito partiram, mas que encorajavam como ninguém a luta da extinta guerrilha esquerdista da FMLN. A emissão sempre começava por: “Radio Venceremos, a transmitir o seu sinal de liberdade desde Morazán, pela conquista da democracia e da paz para El Salvador. Radio Venceremos, a voz operária, camponesa e guerrilheira…”

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Distraído nesta lembrança, Rivas olha o horizonte e ganha fôlego para um presente comprometido e um futuro incerto nesta sua tão amada terra. Ao contrário do que seria de esperar, o fim da guerra significou para a maioria dos salvadorenhos o aumento da insegurança real e imaginada, a disseminação da ameaça e do inimigo na forma de maras ou pandilhas. Pedi esclarecimento, ao que Rivas me explicou tratarem-se de gangs constituídos por jovens de zonas pobres com origem na emigração salvadorenha nos EUA, grande parte repatriada para EL Salvador nos anos 90…

Sentada nas escadas do Museo de la Revolución Salvadoreña deixei de escutar Rivas, que entretanto debatia entusiasticamente possíveis soluções para o seu país com o viajante ilustrador. Não conseguia deixar de pensar em Rufina Amaya, a ver o fuzilamento do marido, a ouvir os gritos de horror dos seus quatro filhos… Agarrei no seu livro com força, como se através dele a pudesse abraçar. Rufina foi uma mulher pirilampo que na noite mais escura, escolheu iluminar a vida!

in Revista Açores, 24 a 30 de abril

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