“Lutam melhor os que têm belos sonhos”, disse-o um dia Che Guevara. Sentados no Parque Central de Antigua ouvimos a primeira de muitas histórias de Che… Não de Ernesto Guevara de la Serna, o argentino, mas de Ernesto Azurdia, o guatemalteco! Nascido e criado em Antigua, Che habituou-se a partilhar esta arrebatadora e charmosa cidade colonial com três vulcões: o Agua, o Fogo e o Acatenango.

Guate 02 - Foto 1

Não muito longe dali, noutro monstro de fogo e pedra, o vulcão Pacaya, vislumbrámos homens cowboys que de corpo solto ao vento, seguiam as rédeas do destino e brincavam com a sorte! Deliciado com as nossas caras de encanto perante tal imagem cinematográfica de liberdade romanceada, um velho cowboy experiente na cavalgada da vida meteu conversa connosco, enquanto assávamos marshmallows com a ajuda do calor daquele monstro. Eusebio descreveu que estar perto de um vulcão é como mergulhar na mente feminina. Se os diferentes vulcões têm formas próprias de se exprimir, as mulheres inventaram muitas mais. E nisto deixou um conselho ao viajante ilustrador: “se receias o silêncio de um vulcão, deverás temer muito mais o de uma mulher, ou não fosse devastador…”

Guate 02 - Foto 2

Maravilhosas e sonoras gargalhadas partilhámos com Che às custas desta lição, ou não fosse ele, como qualquer verdadeiro revolucionário, movido por grandes sentimentos de amor! A este propósito, Che contou que o maior sonho da sua gente é poder viver nos EUA, não importando se de forma legal ou não, o que interessa é que só há três maneiras lá chegar: de avião, de barco ou de “gringa”!

Nos dias seguintes percebemos claramente que Che havia herdado a rebeldia dos seus antepassados, assumindo-se como político durante alguns anos. Inspirado pelo avô materno, Froilan de León, Che contava que este seu familiar foi um membro ativo do partido comunista. Um camarada que, após duas ditaduras caracterizadas pelo despotismo político interno e pelo favorecimento dado aos investidores norte-americanos, ajudou Juan José Arévalo, um professor de filosofia, a ser presidente da Guatemala! Uma mudança de governação que, na opinião deste vaidoso neto, promoveu um quadro de reformas políticas e sociais que favoreceram os trabalhadores urbanos e os camponeses, retirando poderes ao pequeno número de grandes latifundiários e aos militares. Cumpria-se assim a insígnia guatemalteca “Libre Crezca Fecundo”, ou seja, “Livre Cresça Fecundo”. Esta política ainda foi seguida pelo sucessor de Arévalo, Jacobo Arbenz Guzmán, mas este acabou por ser deposto com o apoio do governo dos EUA em 1954. Na perspetiva de Che, esta situação acabou por limitar o país no seu eventual desenvolvimento, embora a proximidade entre estes dois governos tenha permitido criar as condições para a construção de um Estado de Direito.

Che é um idealista incorrigível, “100% chapin” (uma expressão genuína tão bem utilizada pelos guatemaltecos!), que na sua luta contra a injustiça social, apelava incessantemente à necessidade de um espírito incorruptível. Envoltos neste debate de ideias e em plena América Central, tão longe das nossas ilhas de bruma, demos a conhecer a Che um povo disperso não por nove ilhas, mas pelo mundo, falámos-lhe da condição de açorianidade e da luta pela autonomia, assente numa divisa que orgulhosamente nos define: “Antes morrer livres que em paz sujeitos”!

Che quis saber mais sobre os Açores, nós muito mais sobre a Guatemala, até que ficámos todos cansados de tanto querer saber! É importante descansar a cabeça e deixar o coração sonhar. Num desses momentos, perguntei a Che quais os seus maiores desejos, ao que respondeu sem hesitar: “uma boa relação com Deus, felicidade e êxito”. Curiosa questionei Che: “Que pensará Deus de ti?” Levantando-se em direção à carrinha retorquiu: “Anita, Deus não tempo para essas coisas, Ele tem muito que fazer e nós também. O presente é de luta e o futuro pertence-nos. Vamos, El Salvador está quase!”

Guate 03 - Foto 3

in Revista Açores, 27 de março a 2 de abril de 2016

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