Explorando as margens do rio Vístula // Cracóvia, Polónia

É interessante perceber como, outrora, Cracóvia foi um importante centro cultural e académico da Europa Central, motivo pelo qual acolhia tantos judeu e judias até à eclosão da II Guerra, contrariamente a outras cidades europeias, onde eram alvo de rejeição e preconceito. O velho bairro de Kazimierz, foi até então a principal comunidade judaica da Polónia. Todavia, com a chegada de Hitler, o bairro vizinho de Podgórze, situado na margem direita do rio Vístula e ligado pela ponte Bernatek, foi transformado num gueto para mais de 15 000 judeus, que servia como sala de espera até aos campos de extermínio._DSC6591

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Depois do holocausto, estas áreas entraram em declínio tal que a população judaica não voltou ali a fixar-se. Aliás, só por altura da rodagem do filme A Lista de Schindler de Spielberg, é que Kazimierz iniciou a sua recuperação, tornando-se hoje numa das zonas mais populares de Cracóvia, para residir como para aproveitar a vida boémia. Aqui também a cultura judaica tem reemergido, sendo comum encontrar galerias de arte, museus, sinagogas, restaurantes com comida local ou com produtos kosher (todos aqueles que obedecem à lei judaica) e bares alternativos com música klezmer, uma sonoridade travessa que nos obriga a dançar. Ora contemplativa, ora frenética, esta música popular da Europa de Leste é enaltecida por um sentimento familiar tipicamente judeu…

Embalados nesta trilha sonora, exploramos demoradamente a Plac Nowy, as várias sinagogas visitáveis e o Museu Histórico da História e Cultura dos Judeus, até que rumamos a uma das principais atrações da cidade: a Fábrica de Oskar Schindler.

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Filiado no Partido Nazi, e recrutado pelas SS (Schutzstaffel, uma agência secreta de proteção ao regime) como informador, Schindler foi um astuto homem de negócios que, durante a invasão da Polónia, adquiriu uma fábrica metalúrgica conhecida por Deutsche Emaillewaren-Fabrik. Como a mão-de-obra alemã era muito dispendiosa, decidiu selecionar os seus trabalhadores entre os judeus que estavam no campo de trabalho de Plaszow. Contudo, à medida que foi conhecendo as atrocidades de que os judeus eram vítimas, Schindler viu naquele negócio uma forma de salvar vidas, conseguindo que mais de 1200 judeus escapassem à morte… Para além de dar a conhecer esta história inspiradora, o museu da Fábrica retrata também a realidade da cidade desde o final de 1939 até ao fim da época comunista.

Decididos a sair do centro da cidade, apanhamos um autocarro até Nowa Huta, um subúrbio oriental frio e severo que nasceu de um ideal comunista. Planeada e construída como uma cidade-modelo soviética depois da II Guerra, pretendia abrigar uma dezena de milhar de trabalhadores. Nowa foi concebida em forma de estrela, com avenidas a sair da Praça Central (Plac Centralny), geometricamente alinhadas com grandes alamedas e edifícios minimalistas.

Aqui foi ainda erguida, em 1977, a igreja Arka Pana (ou Arca do Senhor), cuja edificação foi motivo de confronto entre as autoridades comunistas e os trabalhadores polacos apoiados por Karol Wojtyla, que mais tarde se tornaria no Papa João Paulo II. Toda a sua arquitetura atesta detalhes simbólicos, desde o seu exterior, com os milhares de seixos que forram as paredes; até ao seu interior revestido de madeira que lembra a parte inferior do casco de um barco, destacando-se no centro uma grandiosa escultura representativa da crucificação. E quando já não se espera mais, encontra-se neste local uma capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima, debaixo do altar central, com uma estátua oferecida em 1992 pelos devotos portugueses, e mais curioso ainda, um pedaço de rocha lunar oferecida ao Papa pelos astronautas da missão Apolo 11.

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Se já havia achado Nowa Huta sombria e estranha, ela agora havia ganho um certo fascínio aos meus olhos. Quem espera afinal, numa utopia comunista de foice e martelo, entrar numa espécie de Arca de Noé, na qual se guarda uma pedra dos jardins do universo?

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O fim do dragão e o principio dos heróis improváveis // Cracóvia, Polónia

De volta às margens do rio Vístula, começamos por explorar a cidade velha, Stare Miasto, na qual se situa o centro histórico com as suas igrejas góticas e a Praça do Mercado (Rynek Glówny), coração pulsante de Cracóvia e maior praça medieval da Europa. Ao longo dos tempos assumiu-se como um espaço de comércio, mas também centro de diversos acontecimentos, desde celebrações a execuções públicas, tendo inclusive sido renomeada com o nome de Adolf Hitler, durante a ocupação nazi.

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Várias vezes voltamos a este local, ora de dia ora de noite, gabando a sua incrível capacidade de metamorfose em diferentes velocidades e tonalidades. Por ali é possível apreciar o Museu Subterrâneo da Praça do Mercado; o salão renascentista das guildas comerciais, o Sukiennice – onde outrora se vendiam especiarias, couro, âmbar do mar Báltico e sal da mina de Wieliczka; a Torre da Antiga Câmara; a Igreja de São Adalberto; e a Basílica de Santa Maria. Nesta última, é impossível não notar no toque de trompa, de hora a hora, vindo da torre mais alta, onde a melodia “Hejnał Mariacki” é cortada repentinamente, em memória de um homem cuja garganta foi atravessada por uma flecha tártara ao tentar avisar a cidade sobre a iminente invasão mongol, no século XIII.l_DSC6507

_DSC6597Também ali vale a pena conhecer o Barbican – uma torre defensiva que estrategicamente protegia uma das portas da cidade, a de São Floriano, e por esse meio, os acessos à igreja gótica de Corpus Christi, o templo barroco de Pedro e Paulo, a igreja de Santo Estanislau e o Planty, uma zona composta por vários jardins, que circunda o bairro histórico da Cidade Velha.

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Outro local imperdível é o Castelo de Wawel, um dos complexos arquitetónicos mais valiosos do mundo. Se nesta colina, a majestosa edificação se tornou na primeira residência dos reis da Polónia, com a mudança da capital para Varsóvia, acabou por cair em abandono. Saqueado pelo exército prussiano e ocupado pelos austríacos, o castelo transformou-se num relevante ponto de defesa. Já com a II Guerra Mundial, foi a residência do governador-geral da Polónia ocupada.

Após a reconstrução da Catedral de Wawel, no século XIV, após diversas destruições, este local assumiu ainda maior importância para os polacos, ou não contasse com uma história de mais de 1000 anos. De relevar que, desde a sua construção, se tornou o centro do poder eclesiástico e monárquico no país, constituindo o local de coroação tradicional dos monarcas polacos. A catedral está repleta de pontos marcantes, desde a Capela de Sigismundo, à Cripta, até à Torre e Sino de Sigismundo.

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Se o Viajante Ilustrador já mostrava alguma vontade (para não dizer muita!) de se perder no bairro judeu de Kazimierz – onde cada esquina existem obras de arte nas paredes dos edifícios –, assim como de saborear uma Zapiekanka, uma espécie de pizza ao estilo polaco (uma baguete cortada pela metade, com todo o tipo de carnes, fiambre, cogumelos e molhos) no quiosque central da característica Plac Nowy, havia ainda uma história que me intrigava…

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Se, segundo reza a lenda, Cracóvia foi construída em cima de uma caverna de um dragão que o mítico rei Krak matou, seria impensável deixar de nos meter na casa escura e tenebrosa do monstro, conhecida em polaco por Źródełko! Com a entrada através de um antigo poço, seguida de uma descida de 21 metros, lá conhecemos o abrigo do maligno dragão que devorava os cidadãos. Recuperando a narrativa, muitos foram os que tentaram dar um fim a tal criatura, todavia sem qualquer sucesso, sucumbindo às agruras do fogo… Até que um pobre e humilde sapateiro decidiu rechear a pele de um cordeiro com enxofre e, embusteado, o dragão tanto devorou o cordeiro como sentiu uma sede insaciável, que acabou por beber toda a água do rio Vístula, até explodir. Esta é a lição de astúcia de um simples sapateiro que conseguiu matar o temido monstro e salvar o destino da cidade, para se tornar no primeiro rei daquele país. Ainda ali subsiste uma imponente estátua do mítico animal que cospe fogo… Quiçá uma homenagem aos heróis improváveis das histórias reais e imaginadas?!

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A metrópole subterrânea // Wieliczka, Polónia

Chegados à encantadora e pitoresca Cracóvia pela madrugada, a qual, segundo reza a lenda, foi construída em cima de uma caverna de um dragão que o mítico rei Krak matou, acabamos por aproveitar de vez uma boleia de cerca de 15 quilómetros até à cidade de Wieliczka. Aqui situam-se uma das mais antigas minas de sal do mundo, explorada sem interrupção desde o século XIII até ao presente, e também conhecida por “a catedral subterrânea de sal da Polónia”.

Com uma profundidade de 327 metros e uns impressionantes 300 quilómetros de túneis e galerias, ao longo dos quais é possível apreciar câmaras e capelas com belas figuras esculpidas que ilustram a história da mineração do sal, mais do que pela extração de sal, Wieliczka tornou-se internacionalmente conhecida pela arte e engenho dos mineiros. Homens ordinários que, durante séculos, ali criaram uma metrópole subterrânea construída diretamente na rocha. Havia inclusive cavalos que trabalhavam na mina desde o seu nascimento e que, aquando do encerramento das atividades comerciais, ao serem levados para superfície, não se adaptaram e acabaram por perecer.

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Após uma descida interminável por meio de uma escadaria em madeira, a rota permite explorar cerca de 3 quilómetros de caminhos e galerias, isto é, menos de 1% de toda a mina. Estima-se que, para a explorar na sua totalidade, teríamos que caminhar durante quatro meses sem parar!

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Ao longo das galerias é possível observar mais de 20 câmaras com lagos subterrâneos, antigas ferramentas e maquinaria, bem como diferentes esculturas e baixos-relevos feitos por mineiros com blocos de sal. O espaço ainda se destaca pela qualidade do seu ar, havendo mesmo um sanatório para pessoas com problemas respiratórios. O momento mais surpreendente da visita foi, sem dúvida alguma, a Capela de Santa Cunegundes (ou Santa Kinga, padroeira dos mineiros), uma  incrível sala com mais de 12 metros de altura e 54 metros de comprimento, talhada pela mão de diferentes gerações de mineiros, onde os altares até aos painéis e chão são de pedra de sal puro!

Conta a história desta mina de sal que a princesa húngara Santa Cunegundes, noiva do rei da Polónia, Boleslau V (O Casto), ao receber do pai, como dote, ouro e pedras preciosas, recusou-os, proferindo que tais riquezas tinham origem nas lágrimas e no sangue do povo. Assim, acabou por pedir sal, um bem essencial, como parte do seu dote. O pai levou-a então até a uma mina em Máramaros (na atual Roménia), e como homenagem ao seu presente, a princesa acabou por atirar o seu anel de noivado para uma fenda.

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Mais tarde, já na Polónia, realizou uma viagem por Cracóvia, e chegando à zona de Wieliczka, ordenou aos seus súbditos que cavassem um buraco profundo. Para espanto de todos, a cavidade continha sal em abundância, assim como como o anel que Cunegundes haveria deixado na Transilvânia. Esta lenda está representada numa das galerias da mina, através de esculturas do mineiro Mieczyslaw Kluzek.

Durante a II Guerra Mundial estas minas chegaram a ser ocupadas pelos alemães, como armazém para fábricas de produtos militares, contudo, em 1978, acabaram por ser declaradas Património da Humanidade pela UNESCO.

Absolutamente pasmada com as minas de Wieliczka, recordei as minhas aulas de história no liceu, quando se discutia que, mesmo antes de a humanidade inventar a moeda, a remuneração do trabalho humano era feita com mercadorias, como animais, peles ou sal. Aliás, a palavra salário surgiu a partir da porção de sal dada como pagamento aos soldados na Roma antiga. Ao descobrirem que, para além de ajudar na cicatrização, servia para conservar e dar sabor à comida, os romanos passaram a considerá-lo um alimento divino, uma dádiva de Salus, a deusa da saúde. O Viajante lustrador achou curioso tal facto, reafirmando a importância do sal, até na sabedoria popular. Ou não fosse aquele dito de “Se queres conhecer alguém, come um saco de sal com ele.” Verdade! Como leva tempo a conhecer as gentes e o mundo…

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A vida para além da vodka // Varsóvia, Polónia

Naquele par de dias pela cidade, tivemos ainda a oportunidade de conhecer outros pontos de interesse cultural como o Museu da História dos Judeus Polacos, que se situa no antigo coração da comunidade judaica, exatamente na área onde os nazis construíram o famoso Gueto de Varsóvia. Aqui não só ficamos a conhecer a história e a identidade deste povo, como o profundo sofrimento vivenciado durante a II Grande Guerra, incluindo o enclausuramento dos judeus num bairro-prisão. Importa destacar que a Polónia foi um dos países que mais abrigou judeus, pelo que aqui a história começa muito antes do conflito bélico, convidando-nos a uma (longa) viagem desde a Idade Média até à atualidade.

 

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Já o Museu Néon é dedicado à documentação e à preservação de sinalética e placares de neón típicos da era comunista. Desde 2005 que este espaço tem investido na tarefa de identificar e restaurar as reminiscências da campanha de “grande neonização” em todo o antigo Bloco de Leste. Visitar este museu cria-nos um sentido de inventividade, ou não fossem as características únicas desta forma de arte (até então desconhecida) que nasceu da revolução. E mesmo a propósito, ali perto fomos também surpreendidos pela Soho Factory, uma antiga zona industrial ressuscitada pelas jovens gerações, hoje transformada num centro de galerias de arte, lojas de designers e mercados.. uma autêntica incubadora de indústrias criativas da cidade.

Todavia, e de Varsóvia, trago igualmente na memória, com especial afeição, quer as pausas improvisadas no Parque Łazienki ou nos jardins do Palácio Wilanów – um convite à contemplação da natureza e da cultura –; quer as refeições em milk bars (bar mleczny). Estes últimos locais, que nos remetem para a nostalgia comunista, não servem leite, nem são bares. São sim uma tradição polaca do final do século XIX, cuja denominação assentou em virtude do uso de derivados do leite e de farinha para fazer a maioria dos produtos que, na altura, eram servidos (como a massa do pierogi, um primo das guiozas japonesas).

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Após o fim da II Guerra Mundial, perante a destruição massiva da cidade e a emergência do comunismo soviético, os milk bars eram simples estabelecimentos que alimentavam a classe operária em tempos de escassez, suportado com apoios governamentais. Assim, cumpriam-se dois princípios indispensáveis: ser barato e ser farto em comida caseira. Hoje, o cardápio mantém-se tradicional e económico, nunca descurando os bem-ditos cheiros familiares e confortantes, sobretudo em pleno outono… Talvez poucos o saibam, mas a verdade é que este país tem uma gastronomia marcante, pois para além do pierogi, é de destacar o placki ziemniaczane (bolinho de batata), polskie naleśneiki (crepes) e paczki (versão polaca dos donuts).

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Clarificada a ideia de que não só de vodka vive a Polónia, seria, contudo, imperdoável não fazer um brinde que seja, a pretexto de celebrar tal conclusão! Para isso, nada como atravessar até à outra parte da cidade, que geralmente passa despercebida, mas que, a nós, despertou a merecida atenção. O bairro multicultural e alternativo de Praga, é uma espécie de underground de Varsóvia que saiu ilesa da guerra e que nos apresenta, de forma fácil e intuitiva, gentes “fora da caixa”.

Inebriada por aquele cenário cinematográfico, é fácil sentir a história a exalar das igrejas (católicas ou ortodoxas), das ruínas e dos edifícios velhos, da arte de rua, e até de lugares onde foram gravados filmes brilhantes como “O Pianista”. Se bem que não deixa de ser interessante constatar, como há poucos anos, este outro lado do Rio Vístula era apontado e manchado pelo delito. Mas que importa isso, logo na hora em que a nalewka nos suplanta, deixando de ser um mero elixir espirituoso de frutas, especiarias, flores ou ervas, para nos destilar, sem qualquer pejo, até à essência, tornando-nos falsamente intatos (tal como Praga)?…

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A cidade fénix // Varsóvia, Polónia

Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir. (…)

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.

Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.

Czesław Miłosz

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Fé.

Tal como o escritor polaco nos convida a sentir, acredito ser este um dos sentimentos que melhor sustentou a renascida Varsóvia e as suas gentes. Invadida pelas tropas alemãs em 1939, a cidade foi alvo de bombardeamentos até 1944, deixando-a totalmente devastada. E não bastasse a dura luta dos polacos por altura da ocupação nazi, no pós-guerra enfrentaram mais um outro tanto de agruras com a ocupação soviética.

Confesso que ao rever os dias passados na Polónia, é-me inevitável não ser transportada para um cenário de beleza de traço melancólico mas também progressista, ou não fosse aquele um país de homens e mulheres de alma inquieta, desde as artes às ciências. Desassossegos à parte, e com o devido respeito a Marie Curie, Chopin e a Copérnico, aproveitamos aqueles dias soalheiros de outono para explorar a cidade.

O Castelo Real de Varsóvia foi a nossa primeira paragem. Contando com uma longa história, tanto foi residência da família real como local de debate para as sessões parlamentares, até ser completamente arruinada, em setembro de 1944, após um bombardeamento pelo exército alemão. Distaram 40 anos até que a sua reconstrução se efetivasse, devolvendo por fim esta fortaleza aos polacos.

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Da histórica rua de Nowy Swiat, que passa pelo monumento de Nicolau Copérnico e que se estende até a Praça das Três Cruzes, pelo caminho real rapidamente se chega até à zona da Cidade Velha (Stare Miasto – século XII) e da Cidade Nova (Nowe Miasto – século XIII). Neste percurso, onde é possível ainda dar uma olhadela no Museu Frederic Chopin (uma casa dedicada a um dos compositores mais importantes da história, onde se retrata a sua vida e onde se faz perdurar a sua obra), as ruas exibem casas pintadas de cores arejadas, embora cálidas, como amarelos, laranjas e verdes-pistácio, brotando de um chão de pedra rústica.

A Praça do Mercado (Rynek Starego Miasta) é igualmente imperdível, à semelhança do Barbakan (muralhas da Cidade Antiga) e da Basílica de São João Batista, a mais antiga das igrejas de Varsóvia.

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Ainda naquela tarde, dedicamos algum tempo ao Museu da Insurreição de Varsóvia (Warsaw Uprising Museum), que documenta o primeiro dia de agosto de 1944, no qual os polacos se revoltaram e criaram um exército clandestino, fazendo a maior operação de resistência durante a II Grande Guerra. O episódio durou 63 dias, findando a 2 de outubro do mesmo ano, quando as tropas alemãs se renderam. O museu é um tributo aos que lutaram e morreram pela independência do país, contando a história da Polónia desde a ocupação nazi até ao regime comunista.

A noite caía sobre a cidade, ao que nos pusemos a caminho do Palácio da Cultura e Ciência, um presente da União Soviética ao povo polaco.

Uma vez que Estaline não chegou a assistir à conclusão das obras – ou não fossem há muito conhecidas as circunstâncias bizarras da sua morte na manhã de 5 de março de 1953 –, só após a denúncia pelo seu sucessor, Nikita Krutschov, em 1956, é que o edifício viu serem removidas das fachadas as letras que queriam eternizar o nome daquele ditador. As cicatrizes permaneceram e o palácio parece ainda ser para a Polónia o símbolo daquilo que chamam “a ocupação”, prevenindo-nos como as memórias são uma forma de materialização de afetos. Entre silêncios e cliques de máquina, debruçamo-nos sobre o terraço, contemplando, respeitosamente, a ampla visão em 360 graus da Varsóvia moderna e sobrevivente.

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Colónia Açoriana // São Tomé e Príncipe

Já a caminho da cidade de São Tomé, a rádio local ajudava-nos a esquecer a iminência da despedida, ou não fosse ali tudo anunciado, desde a (peculiar) necrologia, às (longas) advertências administrativas, até às (“exorcizantes”) sessões da Igreja Universal de Deus.

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Aquele dia foi especial. Conquistamos um cantinho escondido da ilha apelidado de Colónia Açoriana, que nos fez sentir, estranhamente, em casa. Aquela aldeia sita no distrito de Cantagalo e próxima das localidades de Santa Cruz dos Argolares, São Lourenço, Amparo, Santa Cecília e Micondó foi, outrora, propriedade dos irmãos Domingos Machado da Silveira e Paulo, e João Jorge da Silveira e Paulo, naturais dos Açores. Embora nascidos numa modesta família de pedreiros e trabalhadores agrícolas na freguesia de Santo Amaro do Pico, em 1881, João Jorge decidiu ir para Lisboa estudar. Contudo, no ano imediato, partiu para São Tomé, onde o seu irmão mais velho, Domingos, já se havia fixado e era proprietário da roça Colónia Açoriana, na qual lhe deu sociedade.

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A Colónia Açoriana foi rica na produção de cacau, tornando-se, sob a gestão de João Jorge uma referência na ilha. À semelhança das grandes roças, a Colónia chegou a possuir um pequeno caminho-de-ferro, com um par de quilómetros, utilizado na condução do cacau seco para embarque. João Jorge regressou aos Açores no final daquele século e fixou-se em Angra do Heroísmo. Exerceu o cargo de Presidente da Junta Geral do Distrito de Angra do Heroísmo, entre 1905 e 1907, e entre 1908 e 1910. Adquiriu o Solar dos Noronhas, junto à Igreja da Conceição de Angra, onde construiu um imponente palacete (atualmente, designado como Palácio Silveira e Paulo), um dos imóveis mais marcantes da cidade.

Hoje, aquele ponto do mapa é uma memória quase esquecida dos portugueses, e em especial, dos açorianos. Ali vivem cerca de 510 pessoas, que desenvolvem atividade baseada em agricultura e na produção de cacau, sendo que a maioria vive numa base de autossubsistência. O secretário da Escola Primária da Colónia de nome João Maria explicou-nos ainda que acolhia uma média de 280 crianças, entre os 6 e os 14 anos de idade, provenientes da Roça Colónia Açoriana, Santa Cecília, Roça Caridade, Amparo e São Lourenço, orientados por 10 professores. Muitos foram os desabafos por ele deixados, desde a ausência de infraestruturas adequadas à insuficiência de material escolar, chegando ao ponto de, para imprimir documentos, ver-se obrigado a percorrer cerca de 70 quilómetros, ou se preferirem, duas horas de viagem (ida e volta).

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Debruçada numa mesa de madeira gasta pelos milhares de horas de aprendizagem e utopia, exultei a coragem daquela gente, que faz do verbo educar uma missão, recordando, de imediato, a conversa de alguns dias atrás com o inspirador Cristóvão Silva, da ilha de Príncipe. Mais do que ensinar, aqueles professores e aquelas professoras, tentam resistir, de modo firme e até ingénuo, ao caos social manifesto (e ainda mais latente) de uma sociedade consumida pela desmoralização de valores, que transborda fronteiras.

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No regresso até à estrada principal, vários miúdos gritavam-nos entusiasticamente “Branco, doce!”. Independentemente de tal gesto se dever ao facto de, muitas vezes, estranhos lhes deixarem guloseimas ou outras ofertas (realidade lamentável, uma vez que nada lhes acrescenta, bem pelo contrário, promove uma espécie de mendicidade infantil e coloca em risco a saúde dentária), aquele momento causou em mim uma sensação de revelação.

O arquipélago de São Tomé e Príncipe abriu a minha gaveta de infância, assim como uma imensa saudade dela. Após aquelas semanas, precisei de ver e abraçar retratos de gente presente e ausente; de ouvir vozes de todos os tempos; de sentir ora o vazio, ora o todo de alguns “adeus” e de outros “olá”; de reler livros e sacudir o pó de vinyl que tanto já me fizeram acreditar; de recordar sabores familiares; de me demorar em locais (só) meus…

She’s got a smile that it seems to me
Reminds me of childhood memories
Where everything was as fresh as the bright blue sky …
Now and then when I see her face
She takes me away to that special place
And if I stare too long I’d probably break down and cry…
Oh, oh, oh Sweet child o’ mine
Oh, oh, oh, oh/ Sweet love of mine…
[Guns N’ Roses]

No centro do mundo// A sul da ilha, pelo Ilhéu das Rolas e o Rio Malanza

Sobre a linha do Equador, com um pé no hemisfério norte e outro no hemisfério sul, homenageei todos aqueles que dedicaram a sua vida a elaborar e a interpretar mapas, ou não tivesse sido esta uma das ferramentas mais revolucionárias e úteis na progressão da humanidade.

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Que seria dos exploradores e até dos piratas sem a preciosa ajuda dos mapas para encontrar outros mundos ou tesouros escondidos? No Ilhéu das Rolas, reiterei, sem artimanhas ou batotices, que a descoberta e o espírito de aventura são inatos aos mapas, criando estes, ainda, uma língua universal, independentemente de fronteiras. Pena esquecermo-nos de estimular tal habilidade nas crianças e nos adultos de hoje, resfriando o mistério e a emoção da exploração individual ou coletiva, chegando mesmo a perder-se a possibilidade de conhecer novos caminhos ou destinos, para além daqueles já previamente programados.

Depois de alguns dias atrás termos falado com Didi, irmão de um dos pescadores locais, sobre uma eventual visita a este ilhéu do arquipélago de São Tomé e Príncipe, situado no Golfo da Guiné, finalmente dei por mim a caminhar sobre (mais um) paraíso terrestre. Contudo, e enquanto me debatia com a realidade de desacelarar o ritmo dos meus passos, na tentativa de esticar o tempo, mais acabava por ser engolida por uma película cinematográfica, em constante movimento de time lapse. Algo legítimo ou não estivesse num local em que tudo era absolutamente inspirador: desde a música de fundo da aldeia, à desocupação dos locais até aos brinquedos dos putos que, eles próprios, inventavam, fossem carrinhos feitos com latas velhas e arame ou trotinetes de restos de madeira e canas.

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Explorada aquela abençoada terra, em que cada recanto tinha uma praia escondida, deixamo-nos ficar pela Praia Café. Para além de ser um local perfeito para fazer snorkeling, o areal branco ostentava uma vista de singular beleza, garantido ainda umas boas gargalhadas, com a visita de alguns porcos da aldeia em redor. Achei a situação deveras engraçada, recordando uma conversa com uns amigos que, no ano passado, estavam a planear uma viagem às Bahamas e mostravam-se esfuziantes com a ideia de explorar uma ilha de porcos nadadores. Sim, é verdade, ali os porcos nadam, todos os santos dias, em águas cristalinas de cor azul turquesa e são livres…

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Já com algum saudosismo à mistura, o final do dia aproximava-se e a maior área de mangal do país – cerca de 240 hectares – aguardava-nos. Ainda na ponte, entre uma ou outra buzinadela que nos distraía da explicação dada, percebemos que o rio Malanza – ou “malandro” como lhe chamam os locais devido à orientação da corrente variar conforme as marés –, é um ecossistema tropical de transição entre o mar e a terra. Um santuário ecológico rico em fauna como é o caso das galinhas-de-água, patos marinhos, garças-reais, maçaricos-das-rochas e até macacos a alimentar-se de frutos tropicais no meio da frondosa vegetação, sendo que estes últimos aparecem sobretudo no final da tarde. Apresenta também uma vegetação incrível com espécies de árvores típicas como a Avicennia (Mangue Branco), que absorve o sal, libertando-o depois pelas folhas, enquanto as raízes saem da água para que a planta respire e estabilize; ou como a Rhizophora (Mangue Vermelho), cuja madeira não deixa entrar o sal e as suas raízes descem do tronco até ao chão formando labirintos e esconderijos.

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No Malanza, a minha solidez fundiu-se naquele mundo líquido de árvores e raízes quase submersas, onde apenas o som dos seres mágicos que ali vivem quebram a severidade do silêncio. Quase que senti o meu corpo a mergulhar por entre as entranhas verdes e hipnotizantes daquele rio, enquanto as minhas pernas e os meus braços se transformavam em parques de diversão para os peixes. Já a minha cabeça  teimava vir à tona, mais parecendo uma  cobra preta que não desperdiça a oportunidade sentir o sol sobre os ramos que cobrem o leito do rio.

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in Revista Açores, 24 a 30 de setembro

As pessoas (e os lugares) que mais admiro são aquelas(es) que nunca acabam // No coração de São Tomé com Almada

No caminho de regresso à cidade, elaboramos um plano de exploração ao centro da ilha, no qual assinalamos como pontos obrigatórios: a Roça Monte Café, a 670 metros de altitude, com terrenos bastante propícios para a cultura de café arábica, e a Nova Moca, uma dependência que cultiva cacau orgânico utilizado na produção dos chocolates Claudio Corallo; a Cascata de São Nicolau; o Jardim Botânico Bom Sucesso, de onde partiriamos para um trilho até à Lagoa Amélia;  e um repasto na Roça da Saudade, onde Almada Negreiros nasceu em 1893.2

Lamentamos não ter mais alguns dias para a ascenção do Pico de São Tomé e para a visita à Roça Bombaim situada no limite do Parque Ôbo, ou não tivessemos sido traídos pelas chuvas e o acesso estivesse condicionado… Mas logo nos animamos ao pensar no que talvez Almada diria, ficando nós, pelo menos, com mais um par de motivos para regressar.

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BASTA PUM BASTA! E nisto crio na minha mente uma espécie de Manifesto Anti-Roteiros: Que se lixe o plano. Vejamos menos e vivamos mais! Morram os postais, vivam as histórias. PIM!

Assim foi aquele dia, passado a desfrutar do silêncio daquelas roças, da melodia das águas da cascata, da oportunidade de descobrir uma floresta primária densa, da cratera de um vulcão extinto onde se pode avistar uma grande diversidade de aves endémicas e até pequenos macacos, e das paisagens soberbas da ilha…

Confesso que chegado o final do dia, senti um especial entusiamo ao aproximar-me de um local que tanto queria conhecer, a Casa Museu Almada Negreiros. Acaso ou não, gosto do facto de partilhar a data de nascimento com este fabuloso homem das artes, acalentando a tola e ingénua ideia de que, talvez um dia, eu possa vir a ser bafejada por uma milésima parte da sua irrevência e genialidade, fruto da serendipidade do universo. Perdoem-me a ousadia!

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Almada foi um dos mais talentosos artistas portugueses e esteve na génese dos movimentos modernista e futurista, com a sua personalidade aguerrida, polémica e indomável. Dedicou-se a inúmeras áreas como a poesia, o teatro, as artes plásticas e a dança, ganhando a fama, conforme espelhado na fantástica exposição organizada pela Gulbenkian e patente em Lisboa até ao passado mês de junho, de omnívoro das artes, ou não tivesse desejado come-las a todas. E mais uma vez, acaso ou não, encontra o fim 77 anos depois, no mesmo quarto que o seu grande amigo Fernando Pessoa.

A caminho da Roça Saudade o ar fica mais fresco e a vegetação mais densa. Joaquim Victor nasceu naquele mesmo local, sendo a sua família dona de parte do terreno, onde se encontravam as ruínas da casa de três andares, colunas e alpendre, que ele descobriu ter sido a primeira do artista. Desde o fim de 2014 que ali funciona a Casa Almada Negreiros, um museu que há-de crescer, assim alimenta a esperança.

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Após mostrar entusiasticamente o espaço, onde encontramos a certidão de nascimento do Mestre Almada, assim chamado na altura em que colaborava na Revista Orpheu, ou as réplicas de quadros e desenhos seus, Joaquim convidou-nos a degustar um jantar fantástico que me soube a versos de amor rebelde. Em verdade, aquela refeição despertou boas memórias de sabores já apreciados na ilha, em especial, na Roça de São João dos Angolares, como a omelete de micocó – afrodisíaca, insistiram sempre os anfitriões –, ou o fura-cueca, nome do molho picante.

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Um jantar destes merecia um café ou até uma bebida forte no Centro CACAU – Casa das Artes, Criação, Ambiente e Utopias, na cidade de São Tomé, conhecido pelas suas exposições em permanência, sessões de cinema, espectáculos ou venda de artesanato. Mal me sentei, recuei até à segunda década do século XX, com o Viajante Ilustrador e o querido amigo Tiago Páscoa. Arrisco afirmar que formamos, humildemente, uma tertúlia de alianças e quimeras…

in Revista Açores, 10 a 16 de setembro

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O chamamento do Norte // São Tomé e Príncipe

De volta à grande ilha, era tempo de conhecer o norte. Muitas foram as paragens, ou não fossem ainda mais as praias tropicais – daquelas que moram no nosso imaginário com coqueiros vergados pelo vento acirrado, numa areia muito branca –, a decorar aquela encantadora costa.

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Saimos da cidade, desviamos em Conde até à praia de Micoló, seguindo depois em direcção a Morro Peixe, por uma estrada de terra batida. Chegamos a uma das praias mais icónicas, a do Governador, tomando assim o seu nome do famoso romance Equador, de Miguel Sousa Tavares. Na trama, seria neste local que o governador da colónia teria os seus encontros amorosos secretos. Logo, de imediato, surgiu a praia dos Tamarindos, que aparece quase como uma extensão.  Apesar de aparentemente remotas, ambas são muito populares junto dos locais.

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Ainda fizemos uma breve paragem na praia das Conchas, para nos demorarmos, de seguida, na praia Lagoa Azul. Nesta enseada cria-se a sensação de um lago e a água adquire uma tonalidade azul forte, convidativa a dar umas braçadas e a fazer um pouco de snorkelling. Apesar de pequena, as pirogas de pesca juntamente com a presença de imponentes embondeiros, criam um ambiente devaneador.

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Não muito longe dali, é possível visitar a Roça Agostinho Neto, antigamente chamada de Rio D’ Ouro, que é a maior roça de São Tomé, tendo recebido o nome atual após a independência nacional em 1975, em memória do primeiro presidente de Angola. É uma das mais emblemáticas e impressionantes estruturas agrícolas do país.

Entre muitas direções, caminhos e até furando o único túnel da ilha, almoçamos em Neves, a segunda maior cidade da ilha. Escondida numa ruela sem estrada de alcatrão, apresentava-se uma casa de madeira muito simples, de seu nome Santola. Naquele tasco, a existência torna-se, subitamente, simples. Umas “nacionais”, pão torrado com manteiga e banana-pão frita acompanhavam uns “bichos” enormes e frescos, que nos devolviam para o mar perante cada desfrutar. Estas santolas de casca mais mole, mas imensamente saborosas, vinham como entraram para a panela.

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Entretanto começamos a falar com um casal que nos sugeriu percorrer o caminho até à cidade piscatória de Santa Catarina, onde se situa o padrão dos descobrimentos que assinala o local onde desembarcaram em 1470, os primeiros descobridores portugueses, João de Santarém e Pêro Escobar. Partilhamos dicas, sendo que seguimos a sugestão de ir beber um copo no alojamento de turismo selvagem Mucumbli, situado sobre uma falésia basáltica a poucos metros do oceano, oferecendo um dos melhores pôr do sol da ilha. Achei o nome de tal ordem interessante que, ao pesquisar, descobri que Mucumbli é uma árvore de grande porte de interesse medicinal e considerada em alguns países da África Ocidental como mágica, tal como aquele deslumbrante espaço…

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Consolados, mas já um pouco esfalfados, pernoitamos na Roça Monte Forte, sendo que naquela noite, o universo advertiu-nos, mais uma vez, que os lugares se encontram nas pessoas e não nos mapas. À conversa com Osvaldo, filho do proprietário Jerónimo Mota, este quase octogenário, falou-nos dos seus trinta e três irmãos, sendo que a mais nova é uma menina de talvez três anos. Nascido no centro da cidade de São Tomé, começou a trabalhar na área comercial, mas a cultura da terra chamou por ele. De assalariado foi promovido a feitor, uma posição quase única para um homem de cor. Após a independência e nacionalização de todas as propriedades, candidatou-se à gestão de Monte Forte, onde se mantém até hoje.

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Embora Osvaldo pretenda continuar a estudar, até fora do seu país, notava-se a forte admiração que nutria por seu pai, não só pelo seu percurso suado e bem-sucedido, chegando até a exercer funções como deputado, mas sobretudo por ter sido capaz de manter a família firme e coesa, entre as várias mulheres da sua vida. Questionado sobre se consideraria seguir as pisadas do pai, respondeu com uma gargalhada demorada, sem nos revelar se seria de medo ou tentação!

in Revista Açores, 27 de agosto a 3 de setembro

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