Uma espécie de ode aos homens livres // De Merzouga até Nkob, Marrocos

vi_26_03mEnquanto o Viajante Ilustrador aproveitava o ar, ainda fresco, nas dunas de Merzouga para fotografar, eu folheava “Viagens”, de Paul Bowles. Imagino este viajante erudito como uma espécie de Indiana Jones que, nas suas vastas e perigosas aventuras – muitas vezes com a mulher, Jane – apenas reafirmava os seus compromissos de liberdade e desprendimento. Este casal foi, nos início do anos 90, revelado ao mundo numa adaptação cinematográfica de Bernardo Bertolucci (ingenuamente traduzida para português como “Chá no Deserto”), do romance de 1949, “O Céu que nos Protege”, e que conta com a banda sonora da autoria do grande compositor japonês, Ryuichi Sakamoto. Bowles era um nómada extravagante que amava o deserto e as regiões inóspitas, tal o seu conhecimento da cultura árabe. Em Marrocos visitou lugares interditos e experimentou tudo o que lhe era oferecido, desde o exotismo dos bordéis até às lutas entre os mercenários e os separatistas. Este homem do mundo tinha alma de vagabundo, mas agia como um aristocrata. De acordo com Daniel Blaufuks, fotógrafo português que, em 1991, publicou com Bowles o livro “My Tangier”, este último era “(…) um homem que tinha vivido a sua vida, traçado o seu destino, encontrado a sua alma. A sua casa e a sua pessoa irradiavam serenidade, apesar da sua biografia e do monte de malas na entrada lembrarem outras existências.”

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De regresso à realidade, dei o Viajante Ilustrador como perdido. Já um tanto ou quanto preocupada, lá fui dar com ele completamente estonteado com um espelho de água que havia encontrado naquelas sensuais dunas. Enquanto partilhava o deslumbrante momento, tentei apressa-lo, mas sem sucesso, ou não arrumasse ele o equipamento em câmara lenta com um largo e luminoso sorriso, cantarolando “Deitados nas dunas, alheios a tudo/ Olhos penetrantes/ Bebemos dos lábios, refrescos gelados/ Selamos segredos…”.

Muito perto dali, mais precisamente, em Khamlia, uma pequena aldeia onde a maioria da população se dedica à pastorícia, ao artesanato e à exploração de minério e sal-gema, homens nascidos da cadência fazem da música, hipnose. A sonoridade do povo Gnawa, descendente dos escravos da África Ocidental levados para o norte do Saara pelos árabes e conhecido pelos bérberes como o “povo negro do deserto”, materializa-se através de instrumentos parecidos com alaúdes, de umas castanholas metálicas e tambores. Ademais, usam uma mistura de Bambara, ou seja, de línguas bérberes e árabes, em que os músicos movimentam todo o corpo, à exceção da cabeça. Recordo a música Gnawa como uma espécie de fogo-de-artifício interior, que nos convida a um estado de consciência onírica. Ceticismos à parte, Hammou confidenciou-nos que estes ritmos ajudam a curar doenças e a entrar em estados de transe e êxtase místico que regulam as nossas emoções e até nos podem por a contatar com outros mundos.

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Dali seguimos em direção a Alnif, conhecida pelas suas deliciosas tâmaras, passando por Tazanine, importante pelo seu festival anual de henna, até ao oásis de Nkob. Ao longo do caminho, Hammou referiu que esta pequena vila bérbere, capital da tribo dos Ait Atta, é rodeada pelas montanhas do Jbel Saghro, reforçando que estas eram fantásticas para caminhadas, das quais é possível ver toda a região. Na verdade, pouco mais bastou para que Hammou e o Viajante Ilustrador esboçassem um rascunho de um trekking para fazer pela alvorada do dia seguinte.

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Cansados e famintos da viagem, pernoitamos na casa de uma família amiga de Hammou, que logo nos ofereceu um chá com menta, tal a sua hospitalidade. Já sentados entre pratos, entregamo-nos ao prazer do paladar com um cardápio maravilhoso: harira – a famosa sopa de Marrocos preparada com grão-de-bico, lentilhas, arroz, tomate, cenoura, ervas aromáticas e especiarias –, couscous com frango e leite de cabra ao estilo bérbere e fruta da época, como melancia e meloa. Naquele estado de alimentação consciente, falei de Epicuro a Hammou, dizendo-lhe que este sábio afirmava não conseguir imaginar uma vida de prazer sem um bom prato de comida, uma grande amizade ou tempo para filosofar… Nisto, Hammou propôs um brinde, dizendo: “A Epicuro e a todos os homens livres!”.

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in Revista Açores,  de 26 de março a 1 de abril

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Hendrix e Dylan no deserto // Dadés, Dodra e Merzouga, Marrocos

Após uma breve estadia no Vale das Rosas, partimos para as espetaculares Gargantas dos rios Dadés e Todra. Apesar da rivalidade entre ambas, aquela que mais se parece destacar é a de Todra, pelos seus 300 metros de altura escavados através das águas daquele rio. Ali, as estradas mais se assemelham a escadas até ao céu, e das quais se avistam altas montanhas, íngremes penhascos e imponentes vistas.

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Foi a partir deste momento da viagem que começamos a conhecer melhor Hammou, um homem parco em falas, mas abundante em fé. Era curiosa a forma como aquele bérbere se exprimia pois ocasionava breves pausas, nas quais tendia a dirigir e a suster o seu olhar enegrecido no firmamento. Esforçava-me por o observar, pensando que aquele homem com aquele gesto repetitivo, mais parecia um filho a tentar encontrar o aval do pai.

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Em verdade, para além dos ensinamentos de Alá, o que fazia Hammou alongar-se nas suas frugais conversas, era a sua família. Gostava de partilhar os convívios em casa de sua mãe, nos quais revia os seus irmãos e restantes familiares, assim como os momentos com a esposa e o seu filho de apenas quatro anos. Este rebento que gostava de futebol e torcia pelo Barça era, sem dúvida alguma, a figura que ganhava destaque nas suas palavras, assim como no seu olhar longânime. Já do pai não falava, até que um dia o questionei diretamente. De forma seca, respondeu-me que este teria morrido há tempo suficiente para nada haver a dizer sobre ele.

Atitude que bastou para perceber que, de findo, aquele pai pouco ou nada tinha na vida de Hammou. Ainda na rota até Erfoud, em que a dureza do caminho nos desperta a atenção para as aldeias cada vez mais autênticas e remotas, apenas sobrou tempo para uma pausa em Rissani, onde se encontra o mausoléu do Rei Moulay Ali Cherif, no qual descansa o fundador da Dinastia Alaouite. Ali ganhámos ânimo para chegar até às Dunas de Erg Chebbi, mais conhecidas por Merzouga.

Nos cerca de quarenta quilómetros seguintes, Hammou falou-nos da história desses povos naturais da região do Norte de Africa. Assim explicou que, se numa primeira fase, os bérberes viviam em tribos que cobriam uma parte significativa do deserto do Saara (principalmente numa região apelidada de Magreb, da qual fazem parte a Mauritânia, Marrocos, Argélia, Mali, Líbia e até uma parte da Tunísia), como nómadas que eram, desenvolveram a capacidade de viver e de encetar longas distâncias no deserto. Porém, apesar da sua identidade cultural comum, os bérberes nunca se constituíram como um povo uno em torno de um Estado.vi_25_03m

Enquanto escutava Hammou e o Viajante Ilustrador efusivamente a trocar opiniões, ou não fosse este último um apaixonado pela origem dos povos e a criação de estados, eu cá não conseguia abandonar o número quarenta. Na realidade, a viagem até às Dunas de Merzouga quase que funcionava como uma ampulheta do tempo necessário de preparação para algo novo. Se este pensamento foi, talvez, turvado pelos meus ensinamentos judaico-cristãos de infância, o meu instinto de Viajante persistia na ideia de que uma noite no deserto bastaria para qualquer um renascer do entorpecimento.

Dois dromedários esperavam-nos à entrada das dunas, sendo que, a jeito de brincadeira, tentei perceber se estes teriam nomes. Qual não foi o meu espanto, ao saber que seriam o Jimmy Hendrix e o Bob Dylan a levar-nos por aquela espécie de mar de areia onde os homens, em tempos, se deslocavam em caravanas. Sem perder tempo, o Viajante Ilustrador logo asseverou que iria com o Hendrix, e que eu ficaria bem com o Dylan, vá-se lá saber porquê!

Avançamos no dorso destes cavalos do deserto sem medo, embora completamente aturdidos, naquela que foi uma espécie de busca (ora exterior, pela fotografia, ora interior, pela emocionalidade da palavra) por um local de indescritível tentação e beleza, ainda que no fim garanta a salvação divina da alma. Por esta altura as palavras começaram a escassear, tal a beleza daquela paisagem imensa e falsamente estéril, até que, contemplando o sumptuoso sol africano, perdemo-nos no tempo, no espaço e na matéria…

in Revista Açores, 12 a 19 de Março

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Tibete, na sombra do teto do mundo // exposição de fotografia

O nosso Viajante Ilustrador inaugurou esta 2.ª feira, a sua segunda exposição individual, “Tibete – Na sombra do teto do mundo”, na Reitoria da Universidade do Porto.Tibete - convite UPAtravés deste ensaio fotográfico, o autor convida a uma jornada entre Lhasa e Rongbuk (campo base do Evereste), que percorre a ancestral ligação do budismo ao povo tibetano até à inquietante relação política atualmente vigente, entre o Tibete e a República Popular da China. Este trabalho, resultante de uma viagem à região, despertou no autor a necessidade de voltar a consciencializar a comunidade nacional e internacional, não só para o inestimável património humano, cultural, religioso e natural existente, mas também para os efeitos do poder exercido pelas autoridades da República Popular da China naquela região e para a importância da salvaguarda dos direitos humanos dos povos.

A exposição fotográfica estará patente até ao dia 31 de março, e iniciou um ciclo de conferências. A exposição será apresentada ao público na Universidade de Lisboa, em abril, e nos Açores, no último trimestre do ano.

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No próximo dia 11 de março, o Viajante Ilustrador também participará numa exposição internacional de fotografia no Museu de Ovar, com curadoria de Rui Pires e Rui Palha, com uma fotografia sobre o seu trabalho “Nepal, a vida criativa”, que documenta a forma como aquele povo superou os efeitos dos terramotos que assolaram aquele país em abril e maio de 2015.

ovar exposição internacional

+info:

http://www.carlosbrummelo.com

https://www.facebook.com/pg/xzibitartmarginal/photos/?tab=album&album_id=1489965941043945

Nomeação | Melhor Blogue de Fotografia de Viagem | Blogger Travel Awards (BTL 2017)

Com a edição de 2017 da Bolsa de Turismo de Lisboa, chega também a 4.ª edição dos Blogger Travel Awards, uma iniciativa que premeia os blogues de viagens em Portugal e de língua portuguesa que se destacaram em 2016. O júri da BTL nomeou os candidatos tendo em conta a importância dos temas abordados, qualidade de informação e escrita, criatividade, inovação e imagem gráfica.

O Viajário Ilustrado, a celebrar o seu primeiro ano de existência, teve a grande honra de ser nomeado pelo júri, para a categoria de “Melhor Blogue  de Fotografia de Viagem”, sendo igualmente concorrente ao prémio de “Melhor Blogue de Viagens Eleito pelo Público”.

Neste primeiro ano de existência, percorremos a Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Japão e Marrocos, levando-vos pelas nossas jornadas, que incorporam os textos da Ana Catarina e as ilustrações fotográficas do Carlos. Assumimos no nosso blog uma construção narrativa que busca nas viagens uma imagética sentida, a autenticidade dos locais e a cumplicidade com cada nova amizade, sem nunca esquecer o envolvimento histórico, cultural, político e natural que define cada momento. Ao procurarmos a essência de cada viagem, esperamos que cada leitor sinta a emoção de cada instante. Porque cada momento é especial, toda a letra e fotografia, é carinhosamente escolhida para o nosso leitor.

Até 17 de março, para votares no Viajário Ilustrado basta:

Os vencedores dos Blogger Travel Awards 2017 serão divulgados no dia 18 de março, pelas 17h00, na BTL2017.

Entre mais de 120 concorrentes, conhece os nomeados!

Nomeados para Melhor Blogue de Fotografia de Viagens:fotografiasdeviagens

Nomeados para Melhor Blogue de Viagens Profissional:

  • Alma de Viajante
  • Cultuga
  • O Meu Escritório é lá Fora!
  • Porto Envolto
  • Viaje Comigo

Nomeados para Melhor Blogue de Viagens Pessoal:

  • Julie Dawn Fox in Portugal
  • Sofia in Australia
  • Menina Mundo
  • Viajar em Família
  • Viajar entre Viagens

Estamos muito felizes pelo mundo da viagem, da fotografia e da escrita encontrarem tanto talento em Portugal, pelo que o incentivo renova-se, a coragem intensifica-se, e a vontade trabalhar por um mundo melhor torna-se cada vez maior!

Agitando o kasbah // Ouarzazate, Marrocos

Por entre os vales verdejantes e os rasgos enrubescidos subimos na paciente companhia de Hammou até ao ponto mais alto deste trecho do Alto Atlas, o Tizi n’Tichka, a mais de 2200 metros de altitude, que une a estrada entre Marraquexe e Ouarzazate.

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Após contemplar o Pequeno Atlas, seguimos por um caminho à esquerda que nos conduziu até Telouet, sendo esta uma etapa imprescindível para imergirmos na Rota dos Kasbahs. É então momento de parar o 4×4 e passamos a ouvir The Clash e o seu álbum de 1982, Combat Rock, onde consta a épica música, Rock the Casbah. A composição, que intencionalmente procura “agitar o kasbah”, mistura termos norte-africanos, urdus, árabes e judeus, e ficciona a prevalência do rock sobre restrições à liberdade cultural nas regiões do Médio-Oriente e do norte de África.

Das planícies Haouz, passando pelas margens do Rio Zat, ascendendo aos picos do Atlas, até às terras áridas perto de Ouarzazate, impera um cenário pautado por uma sucessão de ksour (plural de ksar), fortalezas ou aldeias fortificadas da população berbere, e de kasbahs, casas  muralhadas igualmente de origem berbere, como Ounilla ou Telouet. Este último foi abandonado em 1956, tendo sido por largas décadas a sede do poder do clã dos Glaoui, um dos mais poderosos grupos de berberes do sul marroquino. Construídas em adobe (argila, estrume e palha, secados ao sol) e com adornos em ladrilho cru que apresentam padrões associados ao seu criador, estas estruturas defensivas albergavam no seu interior verdadeiras urbes, casando todos os tons possíveis de ocre e vermelho. Doravante, contudo, as comunidades foram-se dispersando e muitos dos kasbahs acabaram nas atuais ruínas da paisagem da ala sul do Atlas, de Telouet aos vales do Dadés e do Todra, do Vale do Draa às regiões orientais do Ziz e do Tafilalet.

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“Não demasiado longe deste itinerário, existe um outro local de paragem obrigatória – Aït Ben-Haddou – na encruzilhada das rotas entre o norte de África e Tombuctu, cidade no centro do Mali, onde a compra e venda de livros chegou a ser mais lucrativa do que o comércio de ouro e escravos. Aït-BenHaddou, outrora Aït Aïssa, sugere que a sua denominação constitui uma homenagem à fundação deste local por um lendário viajante. Todavia, existe uma outra história, contada pelos locais, que alude à figura de Kahîna, uma rainha cristã a quem eram conferidos poderes mágicos, e que se terá oposto ao progresso do islamismo na região. ”

Este famoso ksar de Aït Ben-Haddou, classificado como Património da Humanidade pela UNESCO e localizado perto de Ouarzazate, foi cenário de diversos filmes, como Lawrence da Arábia, Gladiador, Um Chá no Deserto ou Babel. O ksar era ocupado, sobretudo, por algumas famílias mais pobres, que ali buscavam a proteção face a intempéries, bandidos ou tribos nómadas que assaltavam os oásis depois das colheitas. Estas aldeias tendiam a ter apenas uma rua principal com contacto direto às safras, funcionando como fortalezas comunitárias para as populações sedentárias. Curiosamente, algumas mantêm-se habitadas até hoje! Nestes locais, havia sempre uma residência que dominava a cidadela e garantia a proteção, constituindo um elemento distintivo da arquitetura berbere.

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Este povo continua a predominar na região, conservando ao longo dos tempos uma identidade própria, nomeadamente através da língua. Embora os seus hábitos antecedam a chegada dos árabes, convivem de forma pacífica e integrada, sendo que uma larga maioria acolheu o islamismo.

Findos os desvios, lá chegamos até Ouarzazate, uma cidade modernizada, fundada pelos franceses, igualmente conhecida pelas suas produções cinematográficas nos estúdios Atlas. Dali continuamos a nossa rota em direção ao lago Al Mansour, passando pelo palmal de Skoura, terminando no Vale das Rosas.

“Shareef don’t like it

Rockin’ the Casbah
Rock the Casbah
Shareef don’t like it
Rockin’ the Casbah
Rock the Casbah”

in Revista Açores, 26 de fevereiro a 4 de março

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O coração da Medina // Marraquexe, Marrocos

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“Marraquexe viu chegar e partir gerações sucessivas de homens que a amaram como a nenhuma favorita dos seus haréns, que por ela se bateram e mataram, plantaram jardins minuciosos e geométricos, palácios de luminosos azulejos e pátios estudados para que  a sombra do Sol durante o dia ou a da Lua à noite nunca revelasse tudo, exactamente, mas apenas aquilo que é devido à condição humana: ‘que pena que já não possas ver mais… a mais bela das cidades do Sul”

Sul, Miguel Sousa Tavares

Depois de termos passado o dia anterior a visitar alguns dos principais monumentos da “cidade vermelha”, como a Medersa Ben Youssef, o Palácio Badii, os Jardins da Menara, o Palácio Bahia, os Túmulos Saadis, o Bairro de Mellah, o Museu Dar Si Said e outros tantos, naquela manhã dei por mim a recordar uma das primeiras conversas que tive com o Viajante Ilustrador (já lá vão sete anos…) acerca da sua paixão sobre labirintos.vi_23_02

Confesso muito já ter esquecido, mas mantive a ideia de se tratar de um dos símbolos mais antigos da humanidade e, porventura, gravado na memória coletiva do ser humano, independente da raça e cultura.

Empolgado, lá me disse que um dos labirintos mais conhecidos no mundo é o construído por Dédalo em Knossos, a mando do rei Minos de Creta, para conter o Minotauro — um monstro com cabeça de touro e corpo de homem, fruto do amor da rainha pelo touro sagrado —, perante o qual eram sacrificados anualmente sete rapazes e sete raparigas, e que foi morto por Teseu. Por outro lado, o maior labirinto, o “Caminho de Jerusalém”, foi construído na Catedral de Chartres, em França, onde os peregrinos judeus, –  impossibilitados de irem à Cidade Santa -, substituíam o percurso por este enredo, ajoelhados, acreditando que no final estariam transformados, plenamente preparados para os desafios da vida. Achei ainda curioso o facto de me ter relatado que na Índia, quando uma criança está prestes a nascer, os pais desenham num papel um labirinto com onze voltas, para que aquela prospere, representando a compreensão da espiritualidade, numa fusão entre divindade e força. Em verdade, a ideia de o conceito de labirinto estar associado à condução do homem ao seu próprio centro interior, apaixonou-me, à semelhança dos souks!

Situados na parte norte da cidade velha e especializados por setores de comércio de artesanato, os souks são um labirinto de ruelas estreitas e escuras, aparentemente intermináveis, que se ramificam como raízes rebeldes, mas vigorosas… Concretamente, existem dezoito souks principais em Marraquexe, de como é exemplo, o Rabia, indicado para a compra de tapetes, ou o Smata, ideal para arranjar umas babouches (sapatos tradicionais marroquinos).vi_23_04

Porém, houve um pelo qual nos enamorámos, o souk Sebbaghine (ou des Teinturiers, isto é, dos tintureiros)! Este souk fez brilhar o olhar fotográfico do Viajante Ilustrador, dando contornos cénicos a uma deambulação exótica e misteriosa, simples e opulenta por aqueles becos escuros apinhados de peles e tecidos de seda tingidos a secar em cordas ao sol, mais parecendo um arco-íris. Ali, como em todos os souks, negociar é um verbo maior, ou não fizesse esta arte de bem regatear parte da tradição de comercialização do mundo árabe, tornando-se numa regra absoluta.vi_23_03

Perdidos no tempo e no espaço, entre uma infinidade de
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as, a produtos de beleza, tapetes, até peças de couro ou abajures, naqueles souks imaginamo-nos curandeiros ou loucos contadores de histórias sobre dentistas ou até videntes!

Juro que se Marraquexe quer dizer “parte depressa”, algo em mim me diz que isto só pode ser um grave equívoco, pois a minha mente teimou no contrário, desejando somente ali ficar, como que à espera do verso final de um teimoso poema suspenso.

in Revista Açores, 11 a 18 de março

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A assembleia dos vivos // Marraquexe, Marrocos

Debruço-me sobre a janela e espreito Marrocos. O Viajante Ilustrador desperta de um sono desassossegado pela chegada e rapidamente tira a câmara, tentando fotografar de longe um labirinto chamado Marraquexe.

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Aterramos. Um bafo intenso invadiu-me o corpo: 36 graus! Abandono a forma de cubo de gelo e um pesado inchaço apodera-se de mim. Hammou aproxima-se e graceja, “Hoje está fresco!” Numa curta viagem até ao coração da cidade vermelha, trocamos breves impressões com este homem que mesmo antes de dizer o seu nome, se afirma berbere. E nós, mesmo antes de o conhecermos, já o sentíamos como o amigo Hammou, o berbere!

Deixou-nos num Riad situado a escassos passos de Djemaa El Fna. De imediato procuramos um terraço e entregamo-nos por instantes à indolência e ao prazer de um chá de menta e de um repasto revigorante. Apreciando lentamente a nossa tagia, fomos interrompidos por uma sonoridade que invadiu a cidade. Após um instante de alerta, olhamos um para o outro e suspiramos de alívio: o Adhan! Acabavamos de ouvir uma das cinco chamadas para a oração muçulmana.

Sem relógio e desapegados de compromissos, perdemo-nos nas ruelas dos souks de Marraquexe. Deambulamos por este dédalo durante mais de três horas, até que lá conseguimos voltar à vibrante e mágica Djemaa El Fna, o coração da medina. Do alto de um dos cafés desta praça, não conseguia desviar o olhar da Koutobia, que teimava em recordar os homens da sua obrigação da fé. Contemplamos do exterior a beleza e imponência desta mesquita, uma vez que a entrada é proibida a não muçulmanos. O que importa é que esta mesquita é considerada, pela maioria dos marroquinos, como aquela que tem o minarete mais sublime de todo o norte da África. Construída por Yacoub Al Mansour, num desejo de conseguir erguer sete mesquitas para entrar no céu e ser recebido por catorze virgens, acabou por ficar às portas do mesmo, ou não tivesse perecido antes de finalizar a sétima … “Raios partam ao azar!”, exclama o Viajante Ilustrador à laia de galhofa.vi_22_02

Ainda no topo deste minarete, encontram-se quatro esferas de cobre de tamanhos decrescentes, um quesito tradicional nas mesquitas do país. Porém, reza a lenda que as esferas são de ouro puro e terão sido doadas pela esposa de Yacoub el Mansour, como penitência por ter quebrado o jejum de três dias durante o Ramadão (a tradição diz que comeu três uvas!). Outra história remete para os muezzin, que ali fazem o chamamento dos muçulmanos na hora das orações, voltados em direção a Caaba, em Meca. Assim, conta-se que, sem nenhuma prova tangível, como o minarete tinha vista direta para um harém, apenas os muezzins cegos lá podiam subir, ou não fossem aqueles que partilham do dom da visão cair em tentação e dar uma espreitadela durante os períodos de culto. Na verdade, a cidade de Marraquexe é um livro repleto de lendas lacónicas e fábulas, sendo que a Koutoubia não se livra igualmente do seu próprio universo de histórias.vi_22_03

Repleta de vendedores de sumos de laranja, de doces, de lamparinas; de bancas de comida; de aguadeiros; de tatuadoras de henna; de contadores de histórias; de videntes; de malabaristas; de homens com macacos; de encantadores de cobras e até de vigaristas, Djemaa El Fna transforma-se à noite num festejo desenfreado. Ali, personagens humanas e animais exibem os seus arrojados talentos. O significado do seu nome, “assembleia dos mortos”, remonta às execuções de criminosos que ali tiveram lugar há muitos séculos, é reinventado, convertendo-se numa “assembleia dos vivos”. E é nesta dualidade de vida e de morte, de realidade e fantasia, que acabamos sugados pela luxúria das paixões e pela euforia da audácia, como que a ludibriar a iminente finitude da memória. Ali, todos são ninguém e todos são de parte nenhuma, gozando de uma liberdade isenta de qualquer esforço.

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in Revista Açores, 15 a 21 de janeiro de 2017vi_22_ra

O homem pássaro // Tóquio, Japão

“Afinal, nada como uma orgia gastronómica, repleta de pratos exóticos e com sabores inusitados, para aprendermos o poder dos cinco…”

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Esta poderia ser a sinopse da longa experiência no Mandarin Oriental, no Tapas Molecular Bar. Naquela noite, Kento Ushikubo prometeu seduzir os nossos sentidos através de texturas diferenciadas, apresentações irrepreensíveis e sabores irreverentes, combinando para tal tradições culturais do Japão com a modernidade do mundo atual.

Numa sala com apenas oito lugares a cada jantar, este talentoso chef preparou-nos dezasseis pratos de culinária molecular autoral. E nada mais intrigante como começar esta refeição com a entrega de uma caixa de ferramentas com utensílios estranhamente descontextualizados para aquilo que supostamente era esperado!img_20160518_205010

Entre uma fita métrica, que se revelou um menu, até a uma pá ou a um martelo com funções reinventadas, assim se desenrolou um serão de duas horas a observar a confeção e a montagem de cada refeição. Durante este período não faltaram exibições de técnicas como a gelificação, a esferificação e/ou a emulsificação, assim como a espetacularidade do azoto líquido, terminando com um truque de magia, em que de um ovo saí um bonito origami. Se a cozinha molecular começou por ser considerada um movimento dos anos 90, em que o objetivo era conseguir uma gastronomia de emoções, de diversão e de um prazer multifacetado, Ushikubo fez mais que jus a esta pretensão.

Na verdade, aquele jantar foi a cereja no topo do bolo de uma jornada num país que tantas vezes me compeliu “a pensar (do lado de) fora da caixa”, solta de quaisquer amarras convencionais. Mas afinal, em que caixas estão presos os nossos pensamentos? Preconceitos? Aspetos culturais? Regras sociais?… A oportunidade de trilhar pelo solo nipónico, despertou-me de um sono de comodismo, libertou-me de um engessamento mental, a que tantas vezes nos autocondenamos.

Após o jantar, o Viajante Ilustrador acabou por ficar mais um bom tempo à conversa com o chef. Entretanto tentei formar uma memória, como que a jeito de uma fotografia noturna que obriga a uma longa exposição, da vista sobre aquele 38.º andar…

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Ali, pensava em como esta nação milenar tem uma forte ligação com os mitos e as lendas, com a inspiração das crenças e superstições japonesas. Toda a mitologia japonesa apresenta narrativas fortes e envolventes que despertam para uma plenitude de reflexões e ensinamentos… Se atribuir ao país uma nova personagem me pareceu muito ambicioso, divertiu-me a ideia de o fazer com a irreverente cidade de Tóquio. Se esta urbe fosse uma personagem, seria decerto uma figura masculina. Imaginei um homem elegante e sofisticado, que bondosa e pacientemente se procura dar aos outros, embora haja ainda uma parte de si vazia, ou não fosse o seu olhar, por vezes, distante. Imaginei um homem pássaro, tal como o Hiyoku, um pássaro imaginário, de um olho e uma só asa. Assim como o homem, o pássaro sente-se triste e solitário, e não desiste de encontrar a sua outra metade. E quando um Hiyoku a encontra, conta a lenda que os seus corpos se unem, como feixes de trigo, formando um único ser. E nesta fusão, tornam-se únicos e voam, em pura liberdade.

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Ouço o Viajante Ilustrador a chamar-me. Amanhã esperam-nos novos destinos, mais histórias, múltiplas imagens e sentires. Nisto despeço-me do homem pássaro e agradeço-lhe por me relembrar que a vida é breve, e que só nos resta tempo para amar, sendo que, mesmo para isso, passa num instante.

Pouco descansamos naquela noite ou não tivéssemos de cedo voltar ao aeroporto. Entre modernos pássaros gigantes de metal acabamos por ver o nascer do dia, recordando que os japoneses, aquando do Ano Novo, costumam reunir-se e ir até ao litoral ou até alguma montanha para assistir ao primeiro amanhecer. Senti-me como que a iniciar um novo ciclo de vida, ora ansiosa, ora esperançosa. Folheei uma última vez o meu caderno e li baixinho um poema haiku de Matsuo Basho, antes de seguir viagem: “o coração viajante não se enraíza/ antes quer ser/ braseira ambulante”, e a alma sossegou.

in Revista Açores, 1 a 7 de janeiro

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