As memórias e a swag insular // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

Era o último dia na ilha de Príncipe. Qual o plano? Simples… Não existia!

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Enquanto caminhávamos despreocupados em direção ao Mercado Municipal, o Viajante Ilustrador citou uma expressão que bastante aprecio: “Não faças planos para a vida, que podes estragar os planos que a vida tem para ti.” Sábias palavras de um homem evolucionário (bem mais que revolucionário), que apreciava conversar rodeado dos seus bem-queridos gatos. O seu nome era Agostinho da Silva e afiançava que a vida ficaria empobrecida se lhe retirássemos a dimensão do imprevisto, evidenciando a ideia de que devemos estar sempre dispostos a partir, como um nómada. Este filósofo, poeta e ensaísta português, rejeitava uma sociedade centrada no lucro e elevava valores como a simplicidade e o espírito de exigência na vida do quotidiano, apoiando-se na meditação interior, na convivência aberta com o exterior e na envolvência na comunidade, sobretudo ao nível de uma ação predominantemente pedagógica.

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Acaso ou não, a verdade é que a vida consegue ser bem caricata… Ou não tivéssemos nós, após uma breve incursão pelo mercado com muitos sorrisos e polaroids, encontrado um sítio que, decerto, Agostinho da Silva teria gostava de contemplar, o centro de explicações de Cristóvão Silva, um cantinho que me fez recordar os meus tempos de escola primária. Ao entrar, recordei, de imediato, a minha sala de aula, com as mesas partilhadas e as cadeiras de madeira, nas quais as pernas eram de ferro pintado de verde-escuro, os armários compridos com misteriosas janelinhas de vidro e o emblemático quadro de giz, escrito pela minha professora Lucília. No recreio, os rapazes jogavam à bola e as miúdas brincavam à macaca, ao elástico ou trocavam folhinhas de cheiro. Não havia parque infantil, apenas um espaço verde aberto com uma árvore ao fundo, onde se deslizava desafogadamente a jeito de ganhar balanço e saltar à corda com o mundo e os nossos sonhos. Na hora do lanche, comia-se pão com manteiga ou uma peça de fruta, mas eu cá bebia sempre o leite que a escola oferecia, que era ainda mais delicioso no inverno, quando aquecido nos aquecedores da sala. Ia-se a pé para a escola, sozinhos e acompanhados pelas mães ou avós.

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Sou grata àquele professor quase a caminho dos 90 anos, por tais memórias valiosas! Cristóvão Silva contava que ensinar foi um dom divino que recebeu ainda catraio, e embora tenha começado a trabalhar em São Tomé, mais tarde, foi transferido para a ilha do Príncipe, e ali ficou. A lecionar um grupo de cerca de quinze crianças, afirma aceitar todas sem fazer distinções. Trabalhará até Deus lhe permitir e deseja que os seus alunos, através das suas aulas, enriqueçam os seus horizontes ao nível da aprendizagem e da cultura, mas sobretudo percebam a importância de exercer uma profissão pela paixão e não pelo dinheiro, exortando sempre o espírito de vontade individual a favor do bem comum.

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Depois desta visita especial e de uma comida de conforto na Juditinha, eu e o Viajante Ilustrador voamos na nossa mota apelidada de Swagger pela ilha… Desde a carenciada e sobrevivente comunidade piscatória da praia Burra até à exuberante Roça Belo Monte, hoje transformada num hotel de charme, e na qual se encontra a icónica praia Banana, em que a água assume a cor de azul-turquesa e o areal de branco peróla, despedimo-nos do paraíso, naquela que declarei ao Micky, como sendo a minha praia de eleição, a fim de corresponder ao desafio por ele lançado. A minha alma desassossegada precisou de parar para absorver tamanha beleza da praia Boi, na qual era possível contemplar o que existe debaixo da água numa distância superior a duzentos metros em direção ao horizonte, tal a virgindade natural daquele lugar. Vou sentir a tua falta, querido Príncipe! – partilhei. O motoqueiro, vulgo Viajante Ilustrador, logo após estacionar a mota de modo a proteger dos cocos, ripostou divertidamente: Leve leve! Móli móli! Deixa lá as saudades antecipadas e sente sim o swag deste sítio…

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in Revista Açores, 13 a 19 de agosto

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Santuário de tartarugas // Praia Grande, Ilha do Príncipe, São Tomé e Príncipe

_DSC9814Naquela noite estrelada, recordei uma fábula de Esopo que, decerto, nos acompanha a todos desde tenra idade: A Lebre e a Tartaruga. Acredito que, pelo menos uma vez na vida, qualquer um tenha usado este conto para demonstrar, contestar ou lamentar algo, evidenciando uma lição de amadurecimento e paciência, na qual a Tartaruga, com seu passo lento, mas firme, cruzou vitoriosamente a linha de chegada, ao contrário da Lebre, que demasiado confiante na sua velocidade, se deixou levar pela inépcia de uma soneca. Símbolo de longevidade e persistência, assim como de conexão entre a terra e a água, a tartaruga leva a vida ao seu tempo e ritmo, respeitando os próprios limites, como tantas vezes não o fazemos, lamentavelmente.

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Entre caminhadas e algumas pausas na Praia Grande, a norte da cidade de Santo António, acompanhados dos experientes guardas de tartarugas Hualton e Lourenço, com as suas luzes vermelhas na imensa escuridão da noite, aguardamos pacientemente pela visita de uma ou outra tartaruga verde (chelonoa mydas) – ou mão-branca, conforme o seu nome local –, e se a sorte assim nos bafejasse, de uma tartaruga sada (aretmocheys imbricata) ou até de uma tartaruga ambulância (dermochelys coreacea). Neste santuário de desova de tartarugas no Golfo da Guiné, ano após ano, entre setembro e fevereiro, mais de uma centena de fêmeas sobe várias vezes à praia durante o recato noturno para deixar os seus ovos enterrados na areia. Cada fêmea faz entre duas a cinco posturas por época, separadas por doze noites, das quais os ovos demoram cerca de dois meses a incubar. Na tentativa de evitar predadores, a tartaruga mãe tapa o buraco, suaviza a areia para esconder a sua localização, e volta indiferente para o oceano. Após a eclosão, as tartarugas marinhas bebés cavam até à superfície para determinar se é noite ou dia. Em regra, quando está escuro, irrompem para fora do buraco e fazem uma louca corrida para o oceano!

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Hualton ainda nos explicou que as tartarugas marinhas existem há mais de 150 milhões de anos e conseguiram sobreviver a todas as mudanças do planeta, mas atualmente são dos seres mais vulneráveis. De acordo com estimativas cientificas, de cada mil filhotes nascidos, apenas um chega à idade adulta. Afinal, o grande problema das tartaruguinhas é que, se elas desaparecerem, também o ecossistema marinho fica mais pobre, sendo a sua importância ecológica muito grande, principalmente nas zonas onde os peixes se vão reproduzir e desenvolver. São Tomé e Príncipe podia ser o maior santuário mundial da desova de tartarugas marinhas, já que, das sete espécies existentes, cinco são atraídas para estas maravilhosas praias do Equador. Nos últimos anos, a população de tartarugas cresceu bastante na ilha do Príncipe, tendo a espécie sada, em vias de extinção, encontrado neste local a desejada proteção.

Psiu!!!

Já passava das 21:00, quando a primeira de três mãos brancas que avistamos naquele dia depositou na areia o conjunto de ovos; e das 23:00, quando duas tartarugas sada deixaram um rasto sem postura. Durante o percurso, ainda encontramos indícios da passagem da colossal tartaruga ambulância, provavelmente da noite anterior. Mais parecendo uma criança, tornei-me guarda de tartarugas, auxiliando Hualton e Lourenço na medição do comprimento e largura da carapaça, assim como no preenchimento das fichas de registo da patrulha noturna.

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Após esta experiência, elevei a minha admiração pelas tartarugas marinhas e deixei de lado a imagem inocente, e até talvez infantil, de as imaginar a surfar através correntes oceânicas ou a mergulhar em torno dos recifes de coral. Na verdade, estas nascem sem as mães, lançando-se sozinhas ao mar, contra ondas e marés, e esquivando-se a eventuais obstáculos e predadores, sem levar em conta as armadilhas humanas. Arrisco-me desta experiência a tirar uma outra lição, quiçá complementar a da fábula de Esopo: Ousemos dar um salto nesta “corrente” da vida!”

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in Revista Açores, 30 de julho a 5 de agosto

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Ganhando asas de papagaio // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

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Se antes já nos havíamos ocupado do fruto do cacau, na presente alvorada fomos presenteados com uma tentação. Na costa norte da ilha de Príncipe, esta assume o nome de Bom Bom Island Resort. Integrado em plena floresta tropical, entre colinas e praias paradisíacas, numa área designada pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera, este projeto celebra o equilíbrio entre a presença humana e o meio natural. A par de investimentos financeiros e de formação profissional na área do turismo sustentável, em particular na gestão e utilização da água, energia e resíduos, este promove também atividades como trilhos pedestres, excursões para a observação de aves e baleias, bem como passeios de canoa com pescadores locais. Aqui o tempo é dedicado ao inalienável direito ao prazer, ou não fosse fácil encantarmo-nos com o seu firmamento, assim como com as suas profundezas, onde a prática de snorkelling torna-se obrigatória para a descoberta ora de peixes exóticos, ora para a contemplação daquele colossal manto azul. Desejo de felicidade absoluta, versada em planos de liberdade sem freios, foi por nós ali cobiçada, à semelhança de Ícaro, que, imprudentemente, voou alto de mais e ao quase tocar o sol perdeu as suas asas de penas e cera. Liberdade, coisa traiçoeira e impiedosa, esta!

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Mas como diria Santo Agostinho, “Não há lugar para a sabedoria onde não há paciência”, pelo que, celebrada a natureza, rumamos à cultura local, cumprindo com a Rota dos 4 Sabores, que incluiu a visita à Roça Paciência, onde produtos como o café, o cacau, a pimenta e a baunilha são dignificados. Perto das roças Belo Monte e Praia Inhame e outrora propriedade do Dr. Cupertino d’Andrade, hoje é um projeto de turismo integrado na agricultura, sujeita a um notável trabalho de restauro, funcionando como ainda escola de pedreiros. Um laboratório vivo de investigação e transformação de matérias-primas, representativas do universo de paladares e aromas da terra. Ainda, neste local de traça humilde e despojada, é impossível resistir à sua variedade de produtos de fabrico artesanal, desde as deliciosas compotas de cajá manga, sape sape, maracujá e ananás e creme de cacau, à maravilhosa mistura de muesli tropical.

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E porque nem só de alimento vive o Homem, conseguimos umas motas e acompanhados de Yorick, aceleramos até à Roça Trindade e desta seguimos até ao trilho do emblemático Pico do Papagaio, o mais concorrido pelos amantes de trekking por ser o que mais perto fica da cidade de Santo António e por se conseguir concluir no espaço de apenas meio-dia. Conquanto, foi ainda feita uma breve paragem, a fim de encontrar bom vinho de palma. Ou não fosse inevitável naquela ilha cruzarmo-nos com vinhateiros a cumprimentar-nos do cimo das palmeiras. Estes sobem a estas plantas, usando uns arames grossos que dão a volta ao tronco e prendem nos pés, para martelar a base das folhas, e lá espetar um garrafão que se encherá lentamente durante a noite. Depois basta esvaziá-lo para outro maior, filtrar a mistela com um funil e deixar fermentar um pouco. E eis que surge o vinho de palma, uma bebida muitíssimo apreciada, ou não fosse vendida pela módica quantia de 5000 dobras (o que dará talvez uns 0,20€?!) por caneca. De cor leitosa, embora o sabor seja estranho, não é nada mau, como que se de fruta se tratasse, mas menos doce, e a quantidade de álcool é fraquinha.

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Desvios feitos, avançamos, finalmente, para o Pico do Papagaio, a 680 metros de altitude, circundado pelo Parque Natural de Obô. Em amena cavaqueira, onde já se faziam planos notívagos de um jantarito na Rosita (Associação Cultural e Recreativa Rosa Pão) e uns copos no Mira Rio, tivemos o privilégio de observar macacos, pássaros endémicos e diversas plantas medicinais, sempre na expetativa de chegar ao cume e do seu alto ver a cidade mais pequena do mundo…

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Entretanto, as palavras sumiram-se. Que me restou? Uma dança de vitória! “I take it in, but don’t look down…/Cause I’m on top of the world, hey/ I’m on top of the world, hey” (On Top Of The World, Imagine Dragons).

 

in Revista Açores, 16 a 22 de julho

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Pedacinhos de terra rodeados de chocolate // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

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O dia amanheceu com chuva, apesar do calor e da opressiva humidade que se fazia sentia na chamada “jóia da coroa”. Enquanto esperávamos por Micky víamos miúdos a percorrer a cidade de Santo António à procura de garrafas de plástico. Curiosos com a situação, perguntamos o motivo de tal frenética caçada. Um dos gaiatos acabou por nos mostrar um panfleto com o mote “Plástico não. Um pequeno gesto está na nossa mão”. Tratava-se de uma campanha que pretende envolver a população na recolha do plástico, onde 50 garrafas podem ser trocadas por uma “Garrafa Biosfera Príncipe”. Esta última é reutilizável, em aço inoxidável e feita com materiais seguros e livres de plásticos, podendo ser reabastecida nos diferentes postos de água tratada e pura, instalados em toda a Ilha do Príncipe (classificada, desde 2012, como Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO). Tratando-se de uma razão de tal ordem nobre, juntamo-nos e colaboramos nesta recolha pelo ambiente.

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Volvido quase um par de horas, chegou o sereno e imperturbável Micky. De imediato, questionámos sobre se algo de errado ou grave haveria sucedido, até que ao nosso ar sério e grave, deu lugar um sorriso atrapalhado, quando ouvimos a nativa resposta de “móli móli”. Nisto percebemos que, mais do que uma expressão, esta simboliza a conjugação do verbo ser com o modo de vida santomense. Desconcertados com tal circunstância – ou não significasse aquela subtil chamada de atenção, uma urgente necessidade de desacelerar –, seguimos até à Roça Terreiro Velho, local pioneiro da cultura do cacau, debaixo de uma chuva fininha. Conta a história que esta planta do Brasil chegou à Ilha do Príncipe nas primeiras décadas do século XIX, inicialmente para fins ornamentais. Todavia, a cultura prosperou e o país tornou-se no maior produtor de cacau a nível mundial, tendo sido, mais tarde, disseminada para a Nigéria e Gana. De alguns anos a esta parte, esta roça é explorada por Claudio Corallo, um italiano que ousou revitalizar e aprimorar esta cultura, ou não fosse o cacau um dos alimentos sagrados para os Aztecas e para os Maias. Além do Terreiro Velho, Corallo tem ainda a plantação de Nova Moca, uma ex-dependência de Monte Café, na ilha de São Tomé. Nesta desenvolveu a cultura de café, sendo algumas das suas variedades das mais raras e requintadas do mundo, à semelhança do chocolate.

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Após uma lição pelo Micky sobre o cativante fruto do cacau, enquadrada numa paisagem absolutamente incólume, na qual sobressaia o pequeno ilhéu de Boné de Jóquei, tornar-se-ia inevitável, no nosso regresso a São Tomé, fazer uma visita à fábrica deste produtor. Naquele laboratório quase comestível, Corallo oferece-nos uma magnífica degustação de vários tipos de chocolate, e na qual eu tive a felicidade de encontrar o meu eleito: o de sal e pimenta. Ou não reverenciasse eu a combinação daquele sorvo inicial de salgado, que me recorda a minha tão saudosa terra-mãe de nome Aveiro, à beira ria e mar com as suas pirâmides de luz e sal; assim como me empurra (a pique) para a mordacidade, a vertigem e a ironia da vida. No meu mundo de fantasia, imagino Cláudio Corallo como uma espécie de Willy Wonka dos tempos modernos, realidade que me remete inequivocamente para o livro “Charlie e a Fábrica de Chocolate”, de Roald Dahl, que já mereceu duas adaptações para o cinema. É nesta simbiose entre memórias, afetos e duelos internos e externos, que recordo diálogos como “Afinal, onde está o sentimento no coração ou na cabeça?”

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Ainda nessa manhã o sol começou a espreitar entre as nuvens, e com ele veio uma incomensurável vontade de submergir no oceano. Às vezes, quase que me sentia uma tartaruga, tal o inesperado gosto pela água. Começamos por sondar a Praia Évora, mas acabámos por desfrutar do sol e do mar, assim como de uma bela grelhada de peixe, acompanhada de arroz e banana pála pála, na Praia de Ponta Mina. Mais do que um almoço convívio, um enaltecimento à oralidade das histórias.

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in Revista Açores, 2 a 8 de julhovi_32_ra

Pés na terra // Ilha de Príncipe, São Tomé e Príncipe

E ao terceiro dia de viagem, aterramos na Ilha de Príncipe! Mais precisamente, 546 anos e 4 dias mais tarde que os primeiros navegadores portugueses, quando aquele pedaço de terra foi denominado de Ilha de Santo Antão ou Santo António Abade! Em verdade, o seu atual nome deveu-se à iniciativa do “príncipe perfeito”, D. João II, um rei que tanto estimava o seu único filho e herdeiro, Afonso, Príncipe de Portugal, que em sua honra decidiu batizar de “Príncipe” a ilha mais pequena do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Mal se poderia imaginar que, 16 anos mais tarde, este promissor mancebo iria encontrar o seu fim numa misteriosa queda de cavalo, e o pai, outras tantas angústias de sucessão…Mas história à parte, é absolutamente idílico aterrar naquela mágica ilha verde, naquele exíguo avião, como que a jeito de uma película de animação. Recordo-me de comentar, com um querido e grande amigo de São Jorge, que aterrar na Ilha de Príncipe nos reportava para a similar experiência vivida no arquipélago dos Açores, sendo que, até São Jorge, aquele vértice das ilhas do triângulo, tem bem mais habitantes do que Príncipe.

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À nossa espera estava o atento e paciente Micky, um benfiquista ferrenho que outrora desejou ser jogador de futebol, mas que as obrigações da vida acabaram por levar a melhor ao fintar-lhe esse sonho de infância e juventude. Enfim, não fosse a vida estar cheia dessas ousadias superiores…

Não perdemos tempo e logo nos primeiros vislumbres até Santo António, a cidade que tem lugar no Guiness como a mais pequena do mundo, foi evidente que aqueles dias seriam um antídoto para os males da alma.

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Chegados até à capital – em que a primeira impressão se prende, erradamente, a uma marginal decrépita, edifícios de arquitetura colonial em acelerado estado de degradação e meia dúzia de ruas esburacadas e quase intransitáveis – lá nos atiramos, sob os olhares mirones e curiosos dos nativos, para uma experiência genuinamente local na Pensão Palhota. De imediato, fomos avisados que a luz elétrica falha com frequência e que os restaurantes são poucos, pelo que convém marcar com antecedência, não pela eventual falta de mesa, mas pela ausência de comida.

Inquietos para começar a explorar, principiamos o nosso lento, duro e corajoso trajeto de 4×4, até à Ponta do Sol e depois à Roça Sundy, uma fazenda colonial, outrora casa da família real portuguesa e responsável pela maior produção do cacau e café._DSC8216Nesta roça encontram-se plantações de cacau e café, um hospital (todas as grandes roças da ilha tinham um hospital próprio), uma capela e vestígios de caminhos-de-ferro consumidos pela larica do capim e do tempo. Estes últimos serviam as locomotivas que transportavam o cacau entre as roças. Foi também neste lugar que Arthur Eddington (astrofísico britânico do início do século XX) provou a Teoria da Relatividade de Albert Einstein durante um eclipse total ocorrido em 1919. Contudo, naquele momento não haveria melhor “fórmula mágica” capaz de transformar aquilo que eu sentia (tantas vezes complexo) em algo simples, como um mergulho demorado, naquele mar, em que a paleta de cores oscila entre um verde-água e um azul-cobalto.

_DSC8205_DSC8162Micky quis levar-nos a uma das suas praias preferidas, à Macaco. Ali existiu outrora um projeto de hotel por parte de um português, que não passou disso mesmo, restando agora alguns bungalows, uma piscina de água estagnada e um restaurante engolido pela vegetação galopante.

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Naquele cenário, que nos faz recordar a série televisiva Perdidos, é permitido a qualquer sobrevivente de um quotidiano agressivo e implacável, recuperar os afetos de uma infância ingénua e despreocupada, com todo o seu rol de ambições e desafios. Naquele fim de tarde, recordei todos aqueles e aquelas com quem nos cruzamos e percebi que todos e todas (sem exceção) pareciam felizes. Todos e todas afirmaram ainda, de forma segura e indubitável, que viviam no paraíso ou no melhor local do planeta. E eu dei-lhes (tanta) razão…

in Revista Açores, 4 a 10 de junhora_31.png

Mil mergulhos de sal e de saber // São Tomé e Príncipe, da parte sul da ilha até à cidade de São Tomé

Depois de uma noite bem dormida na Roça de São João dos Angolares, era tempo de partir à aventura, no encalço de praias desertas e da selva tropical, naquele que é um paraíso no meio do Golfo da Guiné, sob a linha do equador.

A primeira paragem foi na bela praia de Micondó, uma enseada de águas tranquilas, rodeada por uma densa vegetação de coqueiros. Após uma breve pausa, na qual o Viajante Ilustrador prescindiu da praia para conhecer uma fratria que, à revelia de seus pais, preferiu trocar a escola por uns banhos sol e mar, voltamos à estrada.

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Da aldeia de Ribeira Afonso até à Roça de Água Izé, não nos faltaram imagens de gente de rostos gentilmente sorridentes que contavam histórias de superação e esperança. Embora não fossem possuidores de riquezas, aqueles homens e mulheres reiteravam no seu duro quotidiano a bem-aventurança de viver num país onde tudo cresce com uma abundância assombrosa, ou não houvesse, em cada pedacinho de terra, a possibilidade de rapinar umas frutas como bananas, fruta pão, sape sape, canjamanga, abacaxi, abacate, jaca, papaia, safu e mangustão.

A Roça Agua-Izé, também conhecida como “Fazenda da Praia Rei”, foi fundada em 1854, por João Maria de Sousa e Almeida, e tornou-se célebre pelo facto de o seu principal proprietário ser de origem negra. Tornada sede da Companhia da Ilha do Príncipe, foi a primeira roça de São Tomé a implementar a cultura de cacau, possuindo uma das maiores e mais avançadas plantações. Dispunha, inclusive, de um cais próprio para a exportação e uma grande linha férrea._DSC7708_DSC7850

Contudo, Água-Izé não tem entradas nem limites bem definidos. Na zona baixa localiza-se a casa da administração, as oficinas, as serralharias, as carpintarias e os armazéns, sendo que a área das sanzalas distribui-se ao longo da encosta e os dois hospitais estão implantados na zona alta da estrutura da roça. A maioria dos edifícios existentes data de 1910-1920, incluindo o antigo hospital, erguido no ano de 1914.

Um pouco mais à frente cruzamo-nos com a Boca do Inferno, um local onde o mar é ventado por uma abertura nas rochas, como se nos empurrasse rapidamente, no sentido da cidade de São Tomé. Antes da capital, temos de passar pelo bairro de pescadores do Pantufo ou atravessar vila de Santana.  Pela primeira, serpenteamos a energética vibração são-tomense, pela segunda, encontramos no Club Santana, uma alternativa para quem prefere o conforto de uma praia privativa.

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Chegados à cidade, aproveitamos para dar uma voltinha pelo mercado para reconhecimento de local, de modo a que pudéssemos ficar a conhecer alguns dos melhores produtos locais daquela ilha, e deambulamos por uma das muitas heranças portuguesas, através de um passeio costeiro pela Baía Ana Chaves até ao Forte de São Sebastião.

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Mas rápido se fez noite e com ela veio uma imensa larica, pelo que nos aventuramos à descoberta do tão bem-afamado restaurante da Dona Teté! É no quintal desta linda e perfeitamente arranjada mulher – tal a elegância que ostentava do seu vestido de capolana colorido – que podem ser degustadas diversas iguarias como choco, polvo e uma outra tanta diversidade de peixe como cherne, barracuda, corvina ou pargo grelhados no carvão, preparados com um molho secreto, e acompanhados da famosa fruta-pão assada, banana frita e legumes.

Já para o fim da noite, a Dona Teté sentou-se à nossa beira e, de forma crua e honesta, confidenciou-nos as suas duras escolhas de vida, as suas histórias de amor e desamor, as suas viagens desejadas e concretizadas, as suas recentes perdas e futuras ambições. Uma mulher vitoriosa que aprendeu a sonhar e a temperar a vida dos outros com o coração…

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in Revista Açores, 21 a 28 de Maio

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Os três mosqueteiros na roça // São Tomé e Príncipe, na parte sul da Ilha de São Tomé

Entre viagens é quase inevitável não dar por mim a debater com o Viajante Ilustrador sobre um dos maiores problemas filosóficos desde a Antiguidade: a passagem do tempo. Independentemente de recorrermos a argumentos, outrora veementemente defendidos por Platão, Aristóteles, Kant ou Hegel, acabamos sempre por concordar que a medida do tempo se torna subjetiva, quando cada um a pode percecionar de forma distinta, conforme as circunstâncias. Em verdade, devo admitir que estas tertúlias costumavam terminar com um suspiro, tal o lamento provocado pela escassez do tempo, desejando ambos, numa só vida, poder viver mil vidas!

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Porém, após esta viagem a São Tomé e Príncipe, iniciamos um processo de transformação. Este pedaço de terra, brotado de erupções vulcânicas e rodeado pelo mar, elucidou-nos acerca da palavra “transitoriedade”. Efetivamente, esta ganhou, neste país, uma renovada significação. Ali percebemos, de forma autêntica e humilde, que a finitude apenas faz com que tudo se intensifique, impondo a todos os que por ali passam uma nova medida de tempo. Se na maior ilha do arquipélago santomense se vive sobre um ritmo “leve-leve”, na mais pequena, é tudo ainda mais fácil e devagar, apropriando-se estas gentes de sorriso fácil da divisa “móli-móli”.

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São Tomé e Príncipe ensina-nos, desde o primeiro instante, a ser serenos e pacientes. Naquele que é um dos países mais pequenos de África, mas sobretudo um dos mais pacíficos naquele continente, respira-se uma brisa quente, húmida e aromatizada pelos frutos de cacau e café. E não fosse esta jornada, já em si, uma espécie de experiência social, tivemos o prazer de contar com a companhia do nosso bom amigo e viajante, Tiago Páscoa.

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Ao volante de um todo o terreno, decidimos principiar a nossa jornada pelo sul de São Tomé, até que, entre solavancos, abanões e travagens bruscas – uma espécie de treino para o que iriamos encontrar na virgem Ilha de Príncipe – lá estávamos nós mergulhados nas águas quentes e límpidas dos trópicos a beber uma água de cocô, mais concretamente, na bonita e selvagem praia Jalé. De seguida rumamos até à praia Piscina, que deve o seu nome à sua morfologia, numa envolvência tropical de um mar calmo, areias douradas e pinceladas de verde (tal os altos coqueiros ali residentes!). Logo ali perto, encontrámos também a praia Inhame, onde refrescados pela cerveja nacional Rosema, projetamos com o Didi, irmão de um dos pescadores locais, uma futura visita até ao Ilhéu das Rolas.

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E porque o ar do mar abre o apetite e dá sede, depois de uma breve pausa pela aldeia piscatória de Ribeira Peixe, abalamos até à Roça de São João dos Angolares do famoso João Carlos Silva. Afinal, quem não se recorda daquele programa televisivo, “Na Roça com os Tachos”?…

Chegados à Roça, de imediato, ficamos apaixonados por aquela antiga herdade que remonta aos tempos da colonização portuguesa. Tal como outras, é dotada de uma casa principal, hospital e senzalas. Aquele antigo palácio de administração, onde outrora moravam os patrões, é hoje uma pousada histórica recuperada, que respeita todo o traço original, com uma plantação ecológica e um projeto universal de arte contemporânea. No antigo hospital pode-se encontrar o Hospital da Criação, um projeto da Roça Mundo que visa o ensino do artesanato e das artes locais às mulheres daquela localidade, como forma de rendimento e inserção numa sociedade carenciada.

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Este local garante a qualquer indivíduo a oportunidade de se fundir com a Natureza, convidando-o a libertar-se de constrangimentos impostos pela atual era digital, onde a conectividade global progride a um ritmo inédito e avassalador, para simplesmente ouvir o acalentar do vento ou o chilrear dos aves endémicas que ali moram…

Após algum tempo de sossego e ócio, lá fomos nós, à laia de três mosqueteiros, fruir de um encontro na magnífica varanda daquela reinventada roça para degustar, sem pressa, alguns pratos típicos, mas também uma fusão de sabores africanos. Um dia encantador, no qual se exortou a amizade, a relação fraterna e altruísta entre os homens, advogando-se ainda o valor da honra e da justiça a par da aventura!

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in Revista Açores, 7 a 13 de Maio

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Uma despedida sobre a bruma marroquina // Zagora, Ouarzazate e Marraquexe, Marrocos

Numa breve pausa para um chá em Zagora, na qual apreciava um bonito ornamento na porta de um edifício, o Viajante Ilustrador apontava, entusiasticamente, na direção das pequenas dunas de Tinfou. Atento à minha distração com tal amuleto, Hammou falou-me de Hamsá, a mão de Fátima, filha do Profeta Mohamed, salientando que este era um símbolo de paciência, fé e resistência contra as dificuldades. De acordo com uma crença comum, a mão de Fátima tem sido um talismã de boa sorte e um dos mais populares no mundo islâmico para a proteção, pelo que as pessoas tendem a pendurá-la nas portas ou nas paredes das casas.

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Ansiosos por chegar até ao outro lado das montanhas do Atlas, identificamos um conjunto de locais para explorar, na apelidada Hollywood de Marrocos, desde o Museu Kasbah de Taourirt, a praça Al-Mouahidine, os Estúdios de Cinema Atlas, os Estúdios de Cinema CLA até ao Kasbah de Tifoultoute. Por seu turno, o bairro de Tassoumaat, na antiga Medina, mesmo junto ao rio, assim como o lago Al-Mansour Ad-Dahbi, o Kasbah des Cigognes e os mercados foram também referenciados como boas alternativas.

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Ouarzazate, à semelhança da maioria das novas cidades no Saara, foi criada para servir de base para a Legião Estrangeira, tendo, no final dos anos 20 do século XX, assumido a forma de centro administrativo por parte dos franceses. Porém, na década de 80, esta cidade desenvolveu-se com a chegada de turistas em busca de aventura no deserto, ganhando especial destaque em virtude da atenção concedida pela indústria cinematográfica às paisagens envolventes. Por aqui filmaram-se grandes sucessos de Hollywood, como Lawrence da Arábia, Gladiador, O Reino dos Céus, O Príncipe da Pérsia, A Múmia, e mais recentemente alguns episódios da série A Guerra dos Tronos. Rodeada por oásis, palmeirais e montanhas desérticas, Ouarzazate possui atrações suficientes para manter ocupado qualquer visitante por uns dias.

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A nossa semana chegava ao fim, e com ela a hora de regressar a Marraquexe. Dali partiríamos para outro destino. Contudo, e mesmo antes da despedida, já dava por mim a sentir saudades deste país misteriosamente cativante. Naqueles dias, e graças ao nosso querido e bom amigo Hammou, começamos a entender melhor um pouco da complexa história daquela região, que ao longo dos séculos, foi objeto de desejo de muitos impérios, ou não tivesse sido acometida a várias invasões de árabes e europeus (inclusivamente de portugueses!), tendo apenas conquistado, em 1956, a sua independência! 

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Após adquirirmos as mais frescas especiarias no mercado tradicional de Mellah, naquela que seria a última das noites em Marrocos, deixamo-nos enrubescer pelo nosso sangue lusitano, ao invocar para a conversa a personagem histórica de D. Sebastião. Conhecido por “O Desejado” ou “O Adormecido”, transformou-se num mito após o seu desaparecimento na batalha de Alcácer Quibir, no norte de África. Neste último grande debate em terras africanas, entre dois portugueses e um árabe, corajosa e patrioticamente, discutiu-se a contemporaneidade deste mito messiânico, baseado na esperança da vinda de um Salvador, que libertaria o povo e restauraria a glória e o prestígio nacionais, como tão bem Sérgio Godinho entoa no seu tema Demónios de Alcácer Quibir.

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Ainda hoje se espera pelo retorno de D. Sebastião que, segundo a profecia, far-se-á numa manhã de nevoeiro, montado no seu cavalo branco, vindo de uma longínqua ilha onde esteve à espera da hora de regressar. Ora saturados de um entorpecedor saudosismo, ora de uma ideia derrotista de perda da identidade nacional, ali reiteramos um veemente “basta!”, decidindo, para além de um abraço de profunda gratidão, deixar a Hammou uma visão de esforço e de grandeza sobre os muitos heróis portugueses que acreditaram poder ir mais além, sobre a terra e sobre o mar…

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in Revista Açores, 23 a 29 de abril

Flanar, uma ânsia de vagar e de narrar // Algures nas montanhas de Jbel Saghro, Marrocos

Mal alvoreceu começamos a caminhar, ou não tivesse ficado o Viajante Ilustrador empolgado com a possibilidade de se encantar com a beleza das paisagens, mas sobretudo com a possibilidade de se cruzar com a autenticidade das gentes nómadas.vi_27_03m

Durante esta jornada recordei uma palavra, da qual gosto especialmente: flanar. Etimologicamente, esta elocução deve a sua origem ao verbo francês flanêr que significa caminhar sem destino certo, de modo ocioso, ou como afirmava Honoré de Balzac (de forma encantadoramente deliciosa), “flanar é uma ciência, é a gastronomia dos olhos”. Perante tal visão, não posso deixar de imaginar os viajantes quase como críticos gastronómicos, que sofrem de um apetite voraz por experiências humanas, ora previamente concertadas, ora fruto do acaso, em locais próximos ou distantes, familiares ou desconhecidos, desproporcionados ou sublimes.

_DSC4481_DSC4415Mas divagações à parte, recordo que descobri este verbo no livro Wanderlust: a history of walking, de Rebecca Solnit, que aborda a forma como, atualmente, as pessoas se deslocam, esquecendo-se de conhecer o mundo através do seu corpo, tocando-o com os seus pés. Caminhar envolve autoconhecimento, quando não nos oferece uma oportunidade de inspiração e de criatividade. Parafraseando Anatole France, “É bom colecionar coisas, mas é melhor caminhar. Porque caminhar também é uma forma de colecionar coisas: as coisas que a gente vê, as coisas que a gente pensa”._DSC4454_DSC4481

Entregues ao silêncio, como que na tentativa de tocar a terra e ouvir a batida do seu coração, observávamos como o sol tingia de dourado os rebordos das janelas inventadas da montanha, das quais caprinos nos observavam atentamente, como que a jeito de entediados e bisbilhoteiros vizinhos, que de tão bem conhecerem aqueles caminhos de pó e pedra, logo adivinham não sermos gente dali. Curioso como numa afronta à gravidade, as sabidas cabras alpinistas desciam todos os dias do alto para ir beber ao que sobrava de um rio, pondo-nos a pensar como conseguiam elas chegar até sítios tão inóspitos, de que nem Judas se lembraria! Seguindo estas endiabradas criaturas, uma ou outra figura humana eremítica acompanhava-as neste exercício de sobrevivência. Nómadas, afirmava Hammou. Homens e mulheres que seguem os seus animais, entre a aridez e a abundância, carregando a casa às costas, ora montando, ora desmontando tendas, conforme a natureza o ditar. Na certeza de que tudo o que transportam é realmente necessário e útil, lá fazem por manter uma dispensa na qual se encontra chá, leite e queijo (fresco ou seco ao sol) de cabra, pão, tâmaras e umas quantas reservas de água.

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Por mais agradável que seja a ideia romântica de um viajante itinerante, desapegado do mundano que faz da natureza a sua única bússola pelo caminho da montanha, questiono-me se não chegará aquele dia em que alguns, simplesmente, escolhem ficar? Nómadas ou sedentários, quantos de nós já não desejaram avidamente partir, mas se distantes, somente almejamos chegar?

O sol começava a queimar de tal forma, que decidimos parar um pouco para comer, descansar e falar um pouco com quem por ali vivia. O Viajante Ilustrador começou assim a fotografar uma família bérbere. Embora agradados pela atenção que obtinham, era evidente a vergonha e o incómodo sentidos por acharem impróprio reproduzir o corpo, considerado sagrado, numa fotografia. Fugidia, a matriarca refugiou-se em sua casa, regressando depois acompanhada do neto. Longe das câmaras contou-nos a sua história. Parida nas montanhas, toda a vida entre aqui e ali se criou e viveu, até que ousou ser mais do que lhe disseram do que podia ser. Quis ter um cartão como os outros, escolhendo deixar de ser uma cidadã da montanha, para ser uma cidadã de um país. Quis acreditar que os seus filhos e os seus netos mereciam ver o que estava para além dos cumes. Agora, entre paredes de memórias de angústia e alegria, coloca no neto todos os sonhos do mundo. Perguntamos pelos pais daquele observador rapaz. Lado a lado com o neto, elevou a face e encarou de frente o horizonte, dizendo “Preferem ficar pela montanha”.

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_DSC4520in Revista Açores, 9 a 15 de abril

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Uma espécie de ode aos homens livres // De Merzouga até Nkob, Marrocos

vi_26_03mEnquanto o Viajante Ilustrador aproveitava o ar, ainda fresco, nas dunas de Merzouga para fotografar, eu folheava “Viagens”, de Paul Bowles. Imagino este viajante erudito como uma espécie de Indiana Jones que, nas suas vastas e perigosas aventuras – muitas vezes com a mulher, Jane – apenas reafirmava os seus compromissos de liberdade e desprendimento. Este casal foi, nos início do anos 90, revelado ao mundo numa adaptação cinematográfica de Bernardo Bertolucci (ingenuamente traduzida para português como “Chá no Deserto”), do romance de 1949, “O Céu que nos Protege”, e que conta com a banda sonora da autoria do grande compositor japonês, Ryuichi Sakamoto. Bowles era um nómada extravagante que amava o deserto e as regiões inóspitas, tal o seu conhecimento da cultura árabe. Em Marrocos visitou lugares interditos e experimentou tudo o que lhe era oferecido, desde o exotismo dos bordéis até às lutas entre os mercenários e os separatistas. Este homem do mundo tinha alma de vagabundo, mas agia como um aristocrata. De acordo com Daniel Blaufuks, fotógrafo português que, em 1991, publicou com Bowles o livro “My Tangier”, este último era “(…) um homem que tinha vivido a sua vida, traçado o seu destino, encontrado a sua alma. A sua casa e a sua pessoa irradiavam serenidade, apesar da sua biografia e do monte de malas na entrada lembrarem outras existências.”

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De regresso à realidade, dei o Viajante Ilustrador como perdido. Já um tanto ou quanto preocupada, lá fui dar com ele completamente estonteado com um espelho de água que havia encontrado naquelas sensuais dunas. Enquanto partilhava o deslumbrante momento, tentei apressa-lo, mas sem sucesso, ou não arrumasse ele o equipamento em câmara lenta com um largo e luminoso sorriso, cantarolando “Deitados nas dunas, alheios a tudo/ Olhos penetrantes/ Bebemos dos lábios, refrescos gelados/ Selamos segredos…”.

Muito perto dali, mais precisamente, em Khamlia, uma pequena aldeia onde a maioria da população se dedica à pastorícia, ao artesanato e à exploração de minério e sal-gema, homens nascidos da cadência fazem da música, hipnose. A sonoridade do povo Gnawa, descendente dos escravos da África Ocidental levados para o norte do Saara pelos árabes e conhecido pelos bérberes como o “povo negro do deserto”, materializa-se através de instrumentos parecidos com alaúdes, de umas castanholas metálicas e tambores. Ademais, usam uma mistura de Bambara, ou seja, de línguas bérberes e árabes, em que os músicos movimentam todo o corpo, à exceção da cabeça. Recordo a música Gnawa como uma espécie de fogo-de-artifício interior, que nos convida a um estado de consciência onírica. Ceticismos à parte, Hammou confidenciou-nos que estes ritmos ajudam a curar doenças e a entrar em estados de transe e êxtase místico que regulam as nossas emoções e até nos podem por a contatar com outros mundos.

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Dali seguimos em direção a Alnif, conhecida pelas suas deliciosas tâmaras, passando por Tazanine, importante pelo seu festival anual de henna, até ao oásis de Nkob. Ao longo do caminho, Hammou referiu que esta pequena vila bérbere, capital da tribo dos Ait Atta, é rodeada pelas montanhas do Jbel Saghro, reforçando que estas eram fantásticas para caminhadas, das quais é possível ver toda a região. Na verdade, pouco mais bastou para que Hammou e o Viajante Ilustrador esboçassem um rascunho de um trekking para fazer pela alvorada do dia seguinte.

Cansados e famintos da viagem, pernoitamos na casa de uma família amiga de Hammou, que logo nos ofereceu um chá com menta, tal a sua hospitalidade. Já sentados entre pratos, entregamo-nos ao prazer do paladar com um cardápio maravilhoso: harira – a famosa sopa de Marrocos preparada com grão-de-bico, lentilhas, arroz, tomate, cenoura, ervas aromáticas e especiarias –, couscous com frango e leite de cabra ao estilo bérbere e fruta da época, como melancia e meloa. Naquele estado de alimentação consciente, falei de Epicuro a Hammou, dizendo-lhe que este sábio afirmava não conseguir imaginar uma vida de prazer sem um bom prato de comida, uma grande amizade ou tempo para filosofar… Nisto, Hammou propôs um brinde, dize

ndo: “A Epicuro e a todos os homens livres!”.

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in Revista Açores,  de 26 de março a 1 de abril

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